A visita do Papa ao Camarões arranca entre a esperança e o temor à sua instrumentalização política

A visita do Papa ao Camarões arranca entre a esperança e o temor à sua instrumentalização política

A visita do papa Leão XIV ao Camarões, que começa hoje 15 de abril e se prolongará até o dia 18, arranca em um contexto marcado não só pela esperança pastoral, mas também por um evidente risco de instrumentalização política. Segundo informa Tribune Chrétienne, parte dos fiéis teme que a presença do Pontífice seja utilizada pelo regime de Paul Biya para reforçar sua imagem internacional após uma reeleição amplamente questionada.

Não se trata de uma preocupação menor. A repressão das protestas posteriores aos comícios, que segundo cifras oficiais deixou “várias dezenas” de mortos, segue muito presente. Nesse cenário, a visita papal não é percebida unicamente como um gesto espiritual, mas como um acontecimento com inevitável leitura política.

O temor a uma legitimação indireta

Desde o anúncio da viagem, surgiram vozes críticas dentro do próprio âmbito eclesial. Alguns fiéis chegaram a falar abertamente de uma possível “validação da fraude eleitoral”, alertando sobre o uso que o poder poderia fazer da visita.

O jesuíta Ludovic Lado expressou com clareza essa inquietação ao denunciar a contradição que supõe aceitar o convite de “um dirigente acusado de se manter no poder pela força”. Embora posteriormente o tom do clero tenha se moderado, o debate não desapareceu.

O risco é conhecido nesses tipos de contextos: uma presença papal, embora de natureza pastoral, pode ser utilizada como aval simbólico por governos que buscam legitimidade.

Uma Igreja que tenta sustentar a unidade

O Camarões, com mais de 250 etnias e línguas, é um país profundamente fragmentado, e a Igreja católica tenta desempenhar um papel de coesão em meio a essa diversidade. Em algumas paróquias de Yaundé, a missa é celebrada em várias línguas locais —ewondo, bassa, bamiléké— como sinal visível de unidade.

No entanto, essa unidade se vê submetida a fortes tensões. Desde 2016, as regiões anglófonas vivem um conflito armado entre forças governamentais e grupos separatistas que deixou milhares de mortos e deslocados.

Em muitas dessas zonas, a Igreja é praticamente a única presença estável. Mas esse labor pastoral se desenvolve em um contexto onde a fratura social e política é cada vez mais profunda.

Prisioneiros sem julgamento e um Estado de direito debilitado

O arcebispo de Duala, monsenhor Samuel Kleda, quis sublinhar o sentido espiritual da visita, chamando os fiéis a se converterem em “artesãos da paz”. No entanto, sua intervenção não evitou tocar uma questão incômoda: a situação dos detidos após a crise eleitoral.

Alguns deles “não foram julgados”, recordou o prelado, apontando uma realidade que indica diretamente o deterioro do Estado de direito. A questão desses prisioneiros se perfila como um dos temas mais sensíveis no trasfundo da visita.

Um país marcado pela violência e a crise social

À tensão política soma-se a ameaça do Boko Haram no norte, que segue golpeando a população com ataques e destruição de infraestruturas básicas. A isso se adiciona uma grave crise social, com um desemprego juvenil maciço que empurra muitos a abandonar o país.

Nesse contexto, a Igreja tenta oferecer respostas concretas, promovendo iniciativas formativas e chamando os jovens a permanecer para “transformar o país”. Mas o desafio é enorme e as condições, adversas.

Entre o gesto pastoral e a leitura política

A visita do Papa se produz em um momento especialmente delicado. Não é a primeira vez que membros da hierarquia católica denunciam a situação política do país. O cardeal Christian Tumi chegou a pedir abertamente ao presidente que abandonasse o poder.

No entanto, também existem vozes que chamam a não sobredimensionar as divisões internas. O equilíbrio não é simples.

Nesse contexto, a viagem de Leão XIV não pode ser entendida só como um ato pastoral. É também uma prova. A questão de fundo não é se o Papa levará uma mensagem de paz —algo esperado—, mas se essa mensagem logrará manter uma distância clara frente ao poder político ou se, pelo contrário, sua presença terminará sendo utilizada em um cenário onde a fronteira entre acompanhamento pastoral e legitimação institucional é especialmente frágil.

Porque em países marcados pela tensão política, a Igreja não só é escutada pelo que diz, mas também interpretada por onde e junto a quem aparece.

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