A evangelização de Goa e o declínio do Império Português (1515 – 1663)

Por: Pilar Abellán

A evangelização de Goa e o declínio do Império Português (1515 – 1663)

No ano de 1514, o rei português Manuel enviou uma impressionante comitiva ao Papa, composta por homens, animais exóticos (panteras, leopardos, papagaios, elefantes e até rinocerontes) e presentes provenientes das expedições índicas.

Em 1515 falecia Afonso de Albuquerque, que foi sucedido por Lopo Soares de Albergaria, nobre português. E em 1521 faleceu o rei Manuel, que foi sucedido por João III, que foi o último herdeiro do Império Português.

A bem-sucedida experiência imperial de Portugal nas costas do Oceano Índico deu uma guinada radical a partir de 1517, quando explodiu no centro da Europa a heresia protestante, que em poucas décadas rompeu a Cristandade maior, nas palavras de Francisco Elías de Tejada, o continente cristão. A baixa população da metrópole portuguesa fazia com que a manutenção do Império fosse ruinosa. Curiosamente, em paralelo ao declínio imperial português desenvolveu-se um intenso labor de evangelização em Goa. P. Shirodkar (1997), que estudou os laços culturais entre Portugal e Goa no século XVI, afirmou que, quando Afonso de Albuquerque conquistou Goa em 25 de novembro de 1510, libertando-a do cerco muçulmano, não modificou a organização administrativa básica existente. Pouco a pouco, os portugueses foram introduzindo o seu próprio sistema de administração e estabeleceram o Senado de Goa, a Fazenda, a Casa da Moeda, etc.; mas ao mesmo tempo foram extremamente cautelosos para não perturbar as antigas instituições indígenas tradicionais existentes, já que a população local estava muito apegada a elas no desempenho de suas atividades socio-religiosas.

Muita informação fidedigna sobre a vida em Goa na primeira época da conquista de Goa está disponível em A Suma Oriental, escrita pelo boticário do príncipe D. Afonso que chegou a Goa em 1511. Tomé Pires descreve vividamente a vida e a gente de Goa naquela época. Revela que as caravanas de carroças de bois carregadas até o topo que vinham de terras longínquas fora de Goa traziam mercadorias e os mercadores desfrutavam muito em comparação com a situação a que tinham de enfrentar com os muçulmanos no comando dos assuntos antes da chegada dos portugueses. Goa, segundo ele, era um refúgio para os comerciantes de todas as nações e os homens com enorme capital dispunham de vários navios com o bom porto para prosperar. Os que sulcavam suas naus eram os residentes locais, que eram bons marinheiros. Como seus negócios eram em grande escala, as receitas obtidas por Goa no ancoradouro, assim como os direitos sobre as mercadorias, além do pedágio arrecadado através de Tanadarias, escritórios do chefe da polícia local com autoridade militar para arrecadar as importações e os impostos aduaneiros, eram enormes. Revelou que esta gente rica de Goa tinha numerosos templos com sacerdotes brâmanes. Era costume que a mulher se imolasse na pira de seu marido. Se se recusasse a sacrificar sua vida na fogueira, seus parentes eram desonrados e o povo repreenderia outras que não estivessem a favor do sacrifício e obrigá-las a imolarem-se. Albuquerque tem o mérito de ter posto fim a esta prática perniciosa e inumana por razões humanitárias. O que é mais importante é que a sociedade hindu de Goa da época que nos ocupa não era diferente de suas homólogas do resto do país: era uma sociedade dominada pelas castas, socialmente bem unida, muito consciente das costumes, rituais e deidades.

Assim como na Índia continental, em Goa os governantes costumavam cobrar todas as taxas que queriam, submetendo assim a população a grandes penúrias. Tal era a situação quando Adilshah teve de ceder Goa aos portugueses, que ao conquistá-la asseguraram à população que lhes permitiriam pagar tanto quanto aos seus predecessores. Mas enquanto tanto surgia gradualmente outro cenário que estava mudando o perfil demográfico de Goa. Em uma década e meia, em 1524, os portugueses que se casaram e se estabeleceram em Goa ascendiam a 450, além de muitos outros, entre eles fidalgos, cavaleiros e portadores de escudos e outros indivíduos de mérito que se haviam dispersado fora da cidade com filhos e filhas em idade de casar e que, por sua natureza, estavam povoando a terra, criando assim mudanças étnicas.

Dom João, rei de Portugal, aprovou em 1526 o Foral dos uzos e costumbres os gancares e lavradores desta illa, carta que foi um dos acontecimentos mais significativos após a ocupação; não só imprimiu a marca da dominação portuguesa e a afirmação do domínio, mas também deu uma guinada repentina à vida socio-religiosa dos goanos, além de introduzir mudanças revolucionárias na administração das aldeias. Dotou de tal poder aos vice-reis, chefes tanadares, supervisores de rendas e magistrados de justiça que suas ordens, decisões e sentenças deram lugar a uma plétora de leis sociais nos anos vindouros, aumentando assim a influência da jurisprudência na vida cotidiana dos habitantes de Goa. A Carta abordava o direito civil, a legislação penal e fiscal, e inclusive a economia rural das comunidades e as questões cívicas.

A cada um dos ganvkars pediu-se que cedesse gratuitamente terrenos de sua aldeia que estivessem desocupados para que fossem utilizados pelos funcionários da aldeia, a saber, o sacerdote do templo, o secretário, o porteiro, o arrendatário, o lavandeiro, o sapateiro, o carpinteiro, o ferreiro, a ama do templo e um bobo da corte. Impedia-se a todo ganvkar ceder gratuitamente terrenos ou pomares pelo mero fato de pagar uma renda determinada, salvo autorização da ordenança a tal efeito. Se o ganvkar ou a pessoa da aldeia desejasse vender alguma herança em qualquer das ditas aldeias, impedia-se que o fizesse sem o permiso de todos os ganvkars da aldeia. Da mesma forma, ninguém podia comprar sem dito permiso. Durante o tempo de semeadura e durante o tempo de colheita, o ganvkar principal teria preferência na hora de arar e colher. Da mesma forma, o ganvkar principal cobria primeiro sua casa com as folhas das palmeiras, as panelas.

Vale a pena dar uma olhada em a vida religiosa dos goanos da época, que se viu totalmente perturbada: Portugal embateu-se contra o hinduísmo e os hindus. A maioria dos templos de Goa em Ilhas, Bardez e Salcete pertenciam à seita shaiva maior e ao culto Nath, sendo os restantes da seita vaishnava. Enquanto os hindus levavam sua vida segundo as práticas ancestrais, os franciscanos, que se haviam instalado na ilha de Anjediv, em frente a Goa, em 1505, realizaram um labor evangelizador constante desde 1518. Frei Antonio havia suplicado ao rei de Portugal que não permitisse aos yoguis entrar em Goa desde o continente porque levavam consigo as flores oferecidas a suas deidades nos templos e outras mostras com a ajuda das quais tentaram renovar as tradições pagãs dos indígenas. Estabeleceu-se em Goa uma estrutura eclesiástica desde o início do estabelecimento português, e o bispo de Dumenas, mencionando a existência de «imagens dos inimigos da Cruz» na ilha, recomendou ao rei que seria um grande serviço a Deus se os templos da ilha de Goa fossem demolidos e em seu lugar se construíssem igrejas. Além disso, sugeriu que o rei ordenasse que todo aquele que desejasse viver na ilha e ter uma residência e terras se convertesse ao cristianismo e, no caso de que não o fizesse, abandonasse a ilha. Ele tinha a firme convicção de que ninguém na ilha podia permanecer sem se converter, já que se fossem expulsos da ilha não poderiam se manter.

A historiadora Rowena Robinson afirma que “a conversão de Goa ao catolicismo foi em grande parte obra de várias ordens religiosas que chegaram a Goa no século XVI. Os franciscanos chegaram em 1517 e seu labor se limitou principalmente a Bardez, enquanto que os jesuítas foram a ordem mais influente que chegou a Goa, sendo os “responsáveis” pela conversão de Tiswadi e Salcette. Com sua chegada em 1542, a atividade missionária em Goa recebeu um grande impulso. As outras duas ordens importantes foram os dominicanos, que chegaram em 1548, e os agostinianos, que o fizeram uns anos mais tarde”.

Em 1532 chegou a Goa um novo vigário geral, Miguel Vaz, e em 1534 Goa foi elevada a rango de bispado (diocese), embora a escassa população de cristãos não o justificasse. Em 1541, a Igreja introduziu em Goa o Rigor de Misericordia, destruindo todos os templos hindus da ilha. Além disso, os importantes ganvkars hindus viram-se obrigados a aceder voluntariamente ao desvio das rendas das terras dos templos arrasados para a manutenção das igrejas, capelas, privando assim de seu sustento os guravs, dançarinas, brâmanes, ferreiros e outros servos. Não só isso, mas ordenou-se nomear capelães a sacerdotes nativos porque a população local podia aceitá-los com satisfação, já que prefeririam aprender facilmente deles ao não existir a barreira do idioma. Em abril de 1541 o padre Miguel Vaz e Diogo de Borba estabeleceram a Cofradía da Santa Fé para prestar ajuda aos cristãos pobres e para a manutenção das igrejas. Também contribuiu para erigir o Seminário da Santa Fé e o Colégio de São Paulo para impartir educação sacerdotal aos jovens do Oriente. A Cofradía também buscou a preferência dos cristãos nos postos do governo. Ao ano seguinte, o desembarque do missionário jesuíta Francisco Xavier, em 6 de maio de 1542, impulsionou o processo de evangelização em Goa e em outras partes do Sul, assim como no Extremo Oriente. Shirodkar narra como Miguel Vaz enviou uma nota ao rei, que foi recebida por este em novembro de 1545 na qual pedia uma ordem especial para que na ilha de Goa não houvesse nenhum templo hindu público ou secreto e os infratores da mesma fossem castigados severamente. Recomendou que não se permitisse a fabricação de ídolos de madeira, pedra, cobre ou qualquer outro metal. Sugeriu além disso que não se permitisse nenhuma festa pública dos gentios e que se impedisse aos brâmanes do continente refugiarem-se em suas casas. Queria que a Coroa permitisse às autoridades de São Paulo fazerem batidas nas casas dos brâmanes e dos gentios se suspeitassem da existência de ídolos. Também queria que não se permitisse a nenhum nativo (hindu) infiel ganhar a vida pintando imagens cristãs sagradas. Tudo isso gerou ressentimento entre um setor dos nativos de Goa, como se desprende da carta do Mestre Diego de Borba ao sacerdote jesuíta Simao Rodrigues, na qual afirma que os gentios indianos não desejavam conhecer nem ter em alta estima o Santo Nome. Diante desta atitude, a Coroa parece ter atuado com veemência seguindo as recomendações de Miguel Vaz: ordenou ao governador Martim Afonso de Souza que castigasse severamente aqueles que continuassem perpetuando a idolatria de qualquer tipo e permitisse aos convertidos desfrutar das isenções e liberdades no pagamento de direitos que lhes permitissem. O Governador também foi instruído para isentar os cristãos da Índia de serem recrutados à força nas forças armadas portuguesas, evitando assim a violência.

Seguindo a tendência, a Coroa ordenou ao novo vice-rei, Dom João de Castro, que tratasse bem e favorecesse os novos convertidos entre os nativos, de forma que se lhes permitisse ocupar todos os postos na cidade de Goa e nos povoados da ilha. Nas instruções dadas ao Padre Miguel Vaz, o rei lhe pedia que pusesse todo o seu empenho no continente com cuidado e sem escândalos, retirando todos os ídolos e plantando em seus lugares as cruzes, onde se pudesse ensinar aos novos cristãos tudo o possível da religião para que ajudasse a uma maior conversão.

Também havia-se imposto a regra de que no momento em que os escravos dos muçulmanos e dos hindus que se convertessem ao cristianismo, seus donos deviam vendê-los imediatamente só a cristãos. Nenhum brâmane ou gentio devia ocupar cargo administrativo algum. A Coroa, em uma manobra destinada a dar maior impulso à evangelização, ordenou que os residentes e os nativos, se se convertessem ao cristianismo, gozassem do mesmo status na cidade e na ilha de Goa que os portugueses. Tristemente, a tendência geral na historiografia considera que se tratou de manobras de astúcia tática para “ganhar” os nativos, e não que se lhes considerasse realmente portugueses, tal como ocorria nas Américas. Desde a mentalidade laicista da academia contemporânea é difícil compreender que não houvesse interesses políticos por trás destas ordenanças, mas uma genuína compreensão da dignidade humana e um interesse verdadeiro pela salvação das almas.

O rei D. Sebastião promulgou uma lei mais, ordenando que já não houvesse templos nem ídolos nas casas de ninguém, nem fora delas, na ilha de Goa e outras zonas colindantes. Também impôs restrições a todo tipo de festividades por parte dos gentios, tanto em suas residências como fora delas, além de proibir todo tipo de fabricação de imagens. Qualquer um que contravinha esta lei perderia seus bens, a metade dos quais iriam para o acusador e o resto seria utilizado para as obras da igreja sob cuja jurisdição residia o culpado, que seria enviado às galés sem perdão algum.

Na historiografia acadêmica, a questão de que a Coroa e a Igreja atuassem a uma só voz e se pretendesse eliminar o hinduísmo se percebe de maneira negativa. Isso se deve ao laicismo da história como disciplina científica, que é incapaz de compreender e relatar de maneira objetiva a coerência desta prática durante o período de Cristandade maior medieval e a consciência cristã de ser a única religião verdadeira, com a obrigação, mandada por Cristo mesmo, de converter todos os povos ao cristianismo. Joseph Pearce resume bem a questão quando afirma que “se tentarmos estudar a História através dos preconceitos e das ideias preconcebidas de nosso próprio tempo, só conseguiremos malinterpretar os motivos e as intenções das ações históricas. Se não soubermos o que acreditavam aquelas pessoas, não compreenderemos por que atuavam e se comportavam como o faziam. Não compreenderemos realmente o que ocorreu. Nosso preconceito ou nossa ignorância nos terão cegado. Para entender a História, temos de entender a seus protagonistas o suficiente como para empatizar, embora não simpatizemos, com eles”.

A Coroa permitiu aos filhos, netos e parentes herdar os bens de seus pais convertidos, já fossem gentios ou muçulmanos u outras pessoas infiéis segundo a lei portuguesa. No caso de que se convertessem, cada um deles herdaria um terço da propriedade. A introdução destas leis criou dissensões nas famílias hindus e supôs uma forte sacudida para o sistema da família conjunta, que se estava desmoronando desde há muito tempo, mas que sobreviveu e voltou a crescer sob duas crenças diferentes: o hinduísmo e o cristianismo. Os hindus só tinham duas opções: emigrar ou permanecer em uma condição extremamente servil aceitando a nova fé contra seus desejos.

Em 5 de setembro de 1551 chegava a Goa a expedição na qual ia o padre provincial dos jesuítas da Índia, Melchor Núñez Barreto. Acompanhavam-no dez órfãos formados doutrinal e musicalmente no colégio dos Meninos Órfãos de Lisboa. Uma das principais atividades destas crianças era pregar e ensinar a doutrina pelas ruas. Com esta missão foram embarcados muitos dos meninos educados nesse colégio com destino a diferentes enclaves na América, África e Ásia. As crianças deviam alojar-se no colégio de São Paulo, instituído em 1548, o qual se converteu na principal instituição jesuítica na Índia. Tinha seu precedente no Seminário de Santa Fé, instaurado um ano antes da chegada dos jesuítas a Goa. Pouco depois da chegada de Francisco Xavier, em 1542, fizeram-se cargo primeiro de sua administração espiritual e, uns anos depois, em 1549, também da financeira, já com sua nova denominação. É muito provável que durante sua estada em Goa, que se prolongou por mais de dois anos, as crianças chegadas na expedição desenvolvessem sua atividade doutrinal pelas ruas cantando suas orações e canções sacras, já que este era um de seus principais cometidos na Índia, como assinalava Pedro Doménech, primeiro reitor do colégio dos Meninos Órfãos de Lisboa, a Inácio de Loyola, em uma carta datada de 1 de abril de 1551, poucos dias depois de que partisse a expedição: “Escrevi a V.P como o rei me mandou que escolhesse nove destes meninos para enviá-los à Índia a ensinar os meninos indianos e particularmente em três colégios que lá se fazem deles, porque quer que se criem com este espírito, digo no espírito e costumes destes… Todos os dias diziam cantando Veni Creator Spiritus e O glosiosa Domina para que o Senhor me iluminasse em escolher aqueles que sua majestade fosse mais servido…”

Durante este tempo, participariam igualmente em todas as celebrações organizadas pela Companhia de Jesus, cantando nas missas e vésperas aos domingos e festas mais relevantes, como faziam em sua residência lisboeta, em união de outros meninos formados no colégio de Goa. Núñez Barreto, em uma carta de 9 de dezembro de 1551, poucos meses depois de chegar, nos dá conta de uma das atividades devocionais que a comunidade jesuítica organizava às sextas-feiras, na qual estes meninos órfãos participavam cantando o salmo Miserere, no estilo que deviam fazê-lo no colégio no qual haviam sido educados em Lisboa: “Às sextas feiras temos procissão, que ordenou o padre mestre Gaspar [Barzeo], e depois pregação que se acaba já à noite. E acabando-se começa a disciplina, com os meninos cantarem um Miserere mei Deus pelo modo de Lisboa”. Esta prática pasional, celebrada às sextas-feiras, com procissão, oração e “disciplina” pública, acompanhada do canto do salmo Miserere, a encontramos em diferentes estabelecimentos missionários na Ásia.

Durante o tempo que a expedição esteve em Goa, produziu-se um fato de especial transcendência para a comunidade jesuítica: a chegada desde Malaca do corpo de Francisco Xavier para ser enterrado no colégio de São Paulo. As crianças participaram nas distintas cerimônias que tiveram lugar aqueles dias, como veremos em outro evento dedicado exclusivamente a este acontecimento. Francisco de Sousa, no Oriente conquistado a Jesu Cristo pelos Padres da Companhia de Jesus da Provincia de Goa (Lisboa 1710), explica: “No oriente foram estes meninos mui provectos na virtude e primeiras letras: destros nas solfas e variedade de instrumentos musicais; vinham eles criados com a doutrina da Companhia para se fazerem ministros idóneos do Evangelho e até, dizemos nós, para grandes divulgadores da lingua portuguesa… Estes foram os primeiros mestres de capela do seminario de Goa e os primeiros que na Índia, imitando os nove coros dos Anjos, serviram ao culto divino oficiando às missas a canto de órgão”.

Após a morte de São Francisco Xavier em 3 de dezembro de 1552 na ilha de Shangchuan, em frente à costa da China, seu corpo foi enterrado ali inicialmente em uma sepultura simples. Reconhecendo a importância do santo, o corpo foi exumado em fevereiro de 1553 e transportado a Malaca, onde permaneceu na igreja de São Paulo durante vários meses. Em dezembro de 1553 tomou-se a decisão de trasladá-lo a Goa, Índia, que era um importante centro de missões jesuítas. A sua chegada a Goa no início de 1554, o corpo foi conservado na Basílica do Bom Jesus e, surpreendentemente, permaneceu incorrupto, sem mostrar sinais de decomposição mesmo depois de anos. Foi então quando se expôs pela primeira vez à veneração pública em Goa, de 16 a 18 de março de 1554.

A Santa Inquisição foi introduzida em Goa em 1560. O jesuíta Francisco Xavier, canonizado mais tarde como padroeiro do Oriente, havia sido o primeiro a solicitar o estabelecimento da Inquisição em Goa em 1546, embora tardasse 14 anos em concretizar-se. Durante os 248 anos de sua existência, a Inquisição provocou migrações maciças até o sul do país. Muitas famílias se separaram definitivamente. Alguns deixaram para trás seus parentes para se converterem ou já se haviam convertido antes de sua fuga. Muitos povoados partiram com suas deidades e as restabeleceram nas regiões vizinhas de Antruz e Sattari. Recordemos, para corrigir as interpretações errôneas, que o tribunal da Inquisição não tratava com não-cristãos, mas investigava a heterodoxia dos cristãos, especialmente os convertidos, com o fim de averiguar se continuavam praticando suas antigas crenças de maneira escondida.

Produziu-se um grande número de batismos em Tiswadi: segundo o Padre Lucena, em um ano chegou a ser da ordem de 20.000 e em 1560, segundo o Padre F. de Souza, o número era de 3092. Miguel Vaz destruiu multidão de templos hindus a partir de 1546 e em 1567 os franciscanos demoliram perto de 300 templos somente em Bardez. A Inquisição em Goa foi abolida em 1812. A Coroa portuguesa recalcou desde o princípio a suas autoridades em Goa que a principal responsabilidade da Coroa nas conquistas era a conversão dos infiéis. E exortava a realizar vigorosos esforços com zelo para ver que nenhum infiel permanecesse ali sem se converter. Desta maneira, da mesma forma que se produziram muitas conversões, produziu-se também um abandono do lugar por parte de muitas famílias que quiseram conservar a religião hindu e se deslocaram para residir fora do domínio português. Aun apesar do descenso populacional que isso implicou, o crescimento do cristianismo foi tal que em 1567 celebrou-se em Goa o primeiro Concílio Provincial (assembleia eclesiástica provincial). No Concílio determinou-se que, junto aos templos hindus, havia que destruir também as mesquitas. Deliberou-se contra todo tipo de cerimônias e festividades e modos de culto, a adoração dos demônios como deidades, a cremação dos mortos, e vários outros ritos, invocações, jejuns, procissões, cerimônia do fio, aplicação de pasta de sândalo -na testa, sacrifício de animais, adoração de árvores, etc. (decreto nº 9-10). Também se castigava duramente os gentios que saíam dos territórios portugueses para participar nas festividades dos templos ou nas procissões religiosas. O Concílio também desejava que, nas aldeias, quando se arrendassem as terras lhanas, só se dessem em arrendamento, segundo a Carta, aos cristãos e não aos gentios, e que a arrecadação de impostos se confiasse unicamente aos cristãos (decreto núm. 15). Proibiu ao pintor hindu pintar as imagens de culto divino, ao ourives fabricar cálices, cruzes, e aos latoeiros fabricar objetos de metal ou artigos de lata (decreto nº 28).

Abordaram-se também aspectos mais pessoais (decreto núm. 42): proibiu-se ao neófito adjuntar a casta de seu filho. Tampouco podia permitir que seu filho se casasse com uma garota hindu. Impedia-se-lhe chorar em luto por seus mortos como costumava fazer antes de se converter. Não podia ir a nenhum templo nem oferecer dinheiro. Pior ainda, se se punha doente, nenhum hindu, nem mesmo seu próprio pai, podia fazê-lo uma visita de cortesia. Tampouco podia assistir a nenhum festival hindu nem dirigir-se aos territórios adjacentes do continente para compartilhar a alegria de celebrar as festas com os gentios (decreto nº 42). Aconselhava ao pároco e ao capelão que ajudassem os neófitos a enterrar seus mortos (decreto nº 45). A maioria destes decretos foram legalizados pelo vice-rei D. Antão de Noronha. As medidas não tiveram efeito imediato, e os hindus continuaram com suas velhas tradições de adorar os ídolos como antes; o qual obrigou à Coroa a ditar uma nova ordem em 1580 para pôr fim aos «abomináveis erros» que prejudicavam as conversões.

A 4ª assembleia eclesiástica que se celebrou em Goa em 1592 tomou nota seriamente da entrada de sacerdotes hindus, astrólogos, yoguis, pregadores e kurumbins na cidade de Goa através dos passos da ilha, refugiando-se nas casas dos hindus e cristãos nativos recordando aos cristãos velhos e novos seus antigos ritos e costumes, festas, atuando assim contra a fé cristã. Daí que recomendasse que não se permitisse a entrada na cidade a tais indivíduos e que, se se lhes encontrasse, fossem encarcerados e castigados, e que qualquer um que lhes desse abrigo fosse multado com 50 cruzados, além do castigo pelo delito.

É necessário ler entre linhas as afirmações de P. Shirodkar que estamos seguindo principalmente até agora com o fim de separar o trigo (dados e fatos históricos) da palha (a ideologia do autor). Levando a cabo esta operação, os dados que aporta são úteis para reconstruir a história da evangelização de Goa no século XVI, história que podemos ampliar seguindo à historiadora Rowena Robinson em seu livro já citado “Conversion, continuity and change: lived Christianity in Southern Goa”, que conta com detalhe a história de a conversão ao catolicismo no século XVI de grande parte da população local do distrito costeiro de Goa desde uma perspectiva histórica. Robinson recolhe o testemunho documental de uma vista de 1596 de Goa que mostra, entre as casas e os edifícios virreais, uma série de lugares religiosos: a catedral, as igrejas paroquiais, as casas religiosas e as capelas. Tratava-se de uma paisagem urbana enormemente transformada pelos portugueses. Já em 1542, o jesuíta Francisco Xavier havia informado à sua chegada à recém-estabelecida Companhia de Jesus em Roma que “Goa é uma cidade agradável de ver, inteiramente habitada por cristãos. Tem um mosteiro com muitos frades de São Francisco, uma catedral muito hermosa com muitos cônegos, e muitas outras igrejas. Há motivo para dar muitas graças a Deus nosso Senhor vendo como floresce tão bem o nome de Cristo em terras tão longínquas e entre tantos infiéis”.

A finais do XVII, grande parte da população de Goa se havia convertido ao cristianismo. De novo, podemos ler na grande maioria dos trabalhos científicos sobre este período que muitas das conversões foram contra a vontade das pessoas. Forma parte do relato ao que podemos chamar a lenda negra portuguesa, que analisaremos mais adiante. A Rowena Robinson – como praticamente a todos os historiadores que trabalharam esta questão – há que lê-la também entre linhas, posto que não tem reparo em considerar que “o mais lamentável é que o que se escreve tem uma postura apologética (sic) e ainda não se estabeleceu firmemente uma abordagem crítica do tema”. Escrevendo em 1998, não posso estar de acordo com essa afirmação, pois é um tempo de efervescência de estudos pretendidamente científicos em Goa sobre seu passado, com figuras como o jesuíta Teotónio R. de Souza (1947 – 2019) e o Xavier’s Center of Historical Research, fundado em 1977. A contribuição protagônica dos jesuítas na construção do relato da lenda negra portuguesa em Goa, com suas acusações de imperialismo religioso e cultural, está ainda por estudar. Contribuição que continua no presente, como podemos ler nos artigos de Gaspar Rul-lán, apresentado como “teólogo, especialista em hinduismo, colaborador de Fronteras CTR”, neste blog da jesuítica Pontifícia Universidade de Comillas: https://blogs.comillas.edu/FronterasCTR/?p=3839. Deixamos sua contribuição para a próxima entrega desta série, por formar parte da lenda negra sobre o Império Português e a evangelização de Goa.

Enquanto tanto, na longínqua metrópole, a cidade de Lisboa, no último terço do século XVI as elites portuguesas e espanholas começaram a pensar em uma união das duas coroas ibéricas. Em 1578, o rei Sebastião I de Portugal falecia jovem e sem herdeiros. O trono passou às mãos de seu tio-avô, o cardeal Henrique, o mais próximo na linha dinástica. À sua morte, sem herdeiro, formou-se uma junta provisória de Governo. Os netos do rei Manuel se alzaram como pretendentes. O próprio Filipe II de Espanha era um forte aspirante: enviou seus exércitos a Portugal para se apoderar do trono pela força, o que conduziu à batalha de Alcântara de 1580. Em 1581, Filipe II assumiu oficialmente a realeza portuguesa, o qual inicialmente significou um alívio para a economia portuguesa. Espanha também enviou forças militares às possessões de Ultramar. Filipe II pôs a seu sobrinho, Alberto de Áustria, como vice-rei em Lisboa, e este começou a tratar com Isabel I da Inglaterra, inimiga da Espanha, a conta da independência dos Países Baixos caídos ao protestantismo, que Filipe II esperava reconquistar para a Espanha católica. Os holandeses puseram à Grã-Bretanha de seu lado. A Inglaterra protestante e a Espanha católica chegaram às armas em 1588. Filipe II tentou invadir a Inglaterra, mas não o logrou. Os ingleses desembarcaram em Portugal em 1589 para restaurar o poder local português. Fracassaram, mas sim tiveram sucesso na hora de manter os Países Baixos livres da Espanha. E, ironicamente, seriam os holandeses os que chegariam a atormentar tanto ao Império espanhol como ao português.

A união das monarquias ibéricas debilitou a ambas. Os holandeses, cada vez mais agressivos, atacavam os portugueses, pensando que era o débil na união ibérica e que poderiam ganhar território de ultramar à sua costa. Os portugueses estavam muito dispersos e mantinham seus territórios com um número reduzido de tropas. Além disso, a luta entre holandeses e portugueses foi tanto material como religiosa: Portugal se encontrava no Índico com esta ameaça protestante; a dizer de um historiador, “o fato de que os holandeses fossem tão protestantes como os portugueses católicos contribuiu para alimentar a agressividade e animosidade entre ambos”. Eram tempos de Christianitas minor ou Cristandade menor, seguindo os conceitos de Elías de Tejada: a tradição católica se havia reduzido sobretudo à Península Ibérica (italianos e franceses não estavam embarcados em projetos de cruzada neste século).

Em 1598/99 produziram-se as primeiras agressões de holandeses a portugueses em São Tomé & Príncipe, ilhas situadas em frente à costa ocidental africana. Os holandeses começaram assim a atacar as ilhas e enclaves portugueses que estavam isolados, por ser um objetivo fácil, tanto no Atlântico como no Índico.

No primeiro terço do século XVII os ingleses entraram em cena no Índico, começando um jogo de alianças e estratégias cambiantes entre estes, os portugueses e os holandeses. E em 1663 desfez-se a união ibérica, o Império no qual não se punha o sol. Após a nova independência de Portugal, seu império – sobretudo na Ásia – se reduziu consideravelmente. A Índia portuguesa ficou reduzida a finais de século a sua mínima expressão. As crônicas do jesuíta português Manuel Godinho nesse mesmo ano de 1663 afirmam que “o Império ou Estado Índio Lusitano, que antigamente dominava todo o oriente (…), está agora reduzido a tão poucas terras e cidades”.

 

*Referências bibliográficas

Crowley, R., 2005. “El mar sin fin”, ed. Ático Libros.

Elías de Tejada, F., 2021. “Le radici della modernità”, Collana di Studi Carlisti, Solfanelli.

Olivera Ravasi, J.,2018. “Que no te la cuenten. La falsificación de la Historia”. Vol III. Ed. Katejon

Pearce, J., 2013. Por los ojos de Shakespeare. Madrid: Rialp.

Robinson, R., 1998, Conversion, continuity and change: lived Christianity in Southern Goa. New Delhi: Sage Publications.

Shirodkar, P. P., 1997. “Socio-cultural Life in Goa during 16th Century”. En: Borges, Charles J.  (ed.), Goa and Portugal. Their cultural Links. Pp. 23-40. Concept Publishing House. A/115-116, Commercial Block, Mohan Garden, New Delhi 110059.

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