Pbro. José Juan Sánchez Jácome / ACN.- Como o mês de fevereiro que se centra no amor que desperta a emoção, junho está sendo um mês de muito coração. A celebração dos Imaculados Corações de Jesus e de Maria nos fez sentir acolhidos pelo imenso amor de Deus, o que torna possível que cresça o desejo de nos consagrarmos ao Imaculado Coração de Maria, como têm nos acostumado as comunidades cristãs que buscam refúgio e fortaleza na mãe de Jesus.
De acordo com os benefícios e comodidades que oferecem os meios modernos, conseguimos filiações, assinaturas e algumas outras membresias, mas quanto se precisa pertencer a Maria. Nestes tempos de perigos e imensos desafios, como se precisa de um lugar seguro que não apenas nos proteja e acolha diante das dificuldades, mas ao mesmo tempo nos inspire para viver a fé de maneira perseverante, como fez a Virgem Maria.
Além dos imensos benefícios que nos concede a consagração ao Coração Imaculado de Maria, como destacam os santos, vão sendo muitas as reflexões que está deixando a celebração do coração de Jesus e de Maria.
Quanto gostaríamos de viver na paz, na bondade, na fé e na pureza, como contemplamos em Maria. Daí a nostalgia que se sente, em primeiro lugar, ao reconhecer nossa própria realidade de pecado. Não somos imaculados, como Maria, mas temos que lutar contra tantas paixões que mancham nosso olhar e envenenam nossa alma.
Nossa luta não é apenas contra a luxúria, mas também contra o egoísmo, a ambição, a soberba e o orgulho, que nos levam a tirar vantagem, a nos aproveitarmos dos outros e a viver na indiferença em relação às necessidades dos demais. Não queremos perder e somos capazes de dizer mentiras para manter nossos privilégios e afetar os outros.
Constando esta realidade, começamos a sentir nostalgia, já que não somos imaculados. Mas, em segundo lugar, sente-se o impulso de imitar Maria que, como destaca o santo evangelho, guardava todas as coisas em seu coração. Há muitas coisas na vida que não entendemos de imediato e não é que tenhamos que entendê-las imediatamente, de acordo com a tendência de nossa sociedade.
É claro que há coisas difíceis que não se entendem e não se aceitam quando se apresentam. Mas nossa tendência é resolver tudo de maneira imediata, sem nos dar tempo de meditar e repousar as coisas. Quando estamos diante de algo que é maior do que nós, nossa tendência é desesperarmo-nos, praguejar, blasfemar e rebelarmo-nos. Somos precipitados, tendemos a reagir de maneira primária e damos pouco espaço à reflexão.
Muitas coisas a Virgem Maria não entendia. Por isso guardava muitos episódios de sua vida em seu coração para esclarecer as coisas, para esperar a luz e para aprender a confiar na presença de Deus em sua vida, diante de acontecimentos e mensagens que praticamente a transbordavam.
Bastaria considerar o estupor de Maria diante do anjo que se ajoelha diante dela para anunciar-lhe o mistério da encarnação; ou sua atitude contemplativa diante de seu menino deitado em um presépio; ou sua surpresa diante de Simeão que se alegra ao ver o menino, mas que também lhe anuncia que uma espada atravessará sua alma; ou sua imensa dor ao ver seu filho morrer como um criminoso na cruz; ou sua angústia diante do adolescente Jesus que se perde naquela viagem a Jerusalém e, ao encontrá-lo, responde-lhes de maneira desconcertante.
Diante desses acontecimentos que ultrapassam sua capacidade, Maria não se questiona, não se rebela, não duvida, mas guarda no coração e espera a iluminação. Maria contempla, cala e ora. Ela mesma fala de sua dor e angústia quando, por exemplo, ao encontrar seu filho no templo diante dos doutores da lei, diz a Jesus: “Teu pai e eu te buscamos cheios de angústia”.
“Durante três dias, prelúdio de outros três que chegariam depois, o Coração de Maria se cobriu de trevas. Havia perdido a luz, o Menino havia desaparecido, e chorava por dentro antecipando o grito dilacerador do Calvário: «Meu Filho, meu Filho, por que me abandonaste?». Quando, passados esses três dias, voltou a luz, ela, que conservava tudo isso em seu coração, aprendeu uma lição que a iluminaria, como uma lâmpada, durante o Sábado Santo: jamais perderia seu Filho para sempre” (José F. Rey Ballesteros).
Quando as coisas são grandes demais, simplesmente calamos, como Maria e como São José. Guardamos as coisas para aprender a confiar e para esperar ser resgatados. Por isso é muito importante buscar o recolhimento e encontros íntimos com o Senhor para processar as coisas que enfrentamos, porque os mistérios da vida não se entendem de imediato e isso é algo que se deve aceitar para não desesperarmo-nos.
Imitando Maria, é preciso buscar o recolhimento, assim como momentos de silêncio e contemplação para ir filtrando as coisas que não podemos entender. Tantas coisas nos surpreendem e nos fazem tropeçar na vida: quando morre um ser querido, quando ficamos desempregados, quando adoecemos, quando o casamento fracassa, quando enfrentamos crises familiares, quando somos ameaçados, quando esperamos um ser querido sequestrado ou desaparecido, quando o médico nos revela que temos câncer ou outra doença grave.
É preciso guardar as coisas no coração em vez de acovardarmo-nos, blasfemar, amaldiçoar, desesperarmo-nos e protestar. Diante de situações desafiadoras, como Maria: contempla, cala e ora, para ser iluminado, para ser resgatado e para ter a convicção de que Deus jamais se afastará de ti.
Isso mesmo aprendemos do coração de Cristo. Pode-se chegar a enfrentar situações delicadas, mas às vezes a interpretação que fazemos do que nos acontece piora ainda mais a situação e nos afunda mais na vida. Nessas situações, a oração nos ajuda a evitar interpretações pessimistas e catastrofistas que não nos permitem perceber a presença de Deus. Esses pensamentos vêm do maligno e torturam a alma. Vão nos fazendo cair no pessimismo, na tristeza e no desespero.
A doença e os problemas podem ser muito duros, mas é pior a interpretação que fazemos deles. Nesses momentos de sofrimento e tristeza nos encontramos indefesos e fracos, não apenas no nível físico, mas também espiritual. Por isso, Jesus insiste na oração para não cair na tentação, para não cair no desespero, para que não lhe demos as costas a Deus, para que não nos sintamos rejeitados por ele.
O evangelho destaca que Jesus, quanto mais sofria, mais orava; quanto mais só se sentia, mais oração fazia; quanto mais dores chegavam à sua alma, mais se aferrava a Deus. Se aumentam os padecimentos, façam mais oração, como Jesus que, quanto mais sofria, mais orava.
Em definitivo, não se deve guardar rancores, vinganças e ódio no coração. O coração é para guardar, como Maria, os sinais e as bênçãos de Deus. São Manuel González nos exortava de maneira muito clara a proceder como Maria: “Muitos nos terão ensinado ou nos ensinarão a guardar as coisas na cabeça ou no cérebro. Na carteira ou no banco. No paladar ou no estômago… Ninguém como Maria nos ensinará a guardar tudo no coração”.
“Não tenham medo, não se turbe seu coração, confiem”. Recordando carinhosamente estas palavras de Jesus, é preciso pedir a Deus em nossa oração que estas doces palavras entrem em nossa cabeça e saibamos guardá-las no coração.
Digamos de maneira pessoal em nossa oração: “Maria, mãe minha, ajuda-me a ‘guardar em meu coração’ e em teu coração, os cansaços e as noites sem dormir e a adiantar, desde agora, minha ação de graças”. É preciso guardar tudo porque o Senhor chegará para nos iluminar e resgatar, mas também porque precisamos ser fortes para ajudar os outros e acompanhá-los nos momentos críticos que enfrentam.
Assim o expunha de maneira comovente Etty Hillesum: “Quero dizer isto: toda a força, todo o amor, toda a confiança em Deus que se possui, devem ser guardados em reserva para todos aqueles que se encontra no caminho e que precisam”.
Maria é a mulher do sim, a mulher que se abandona ao Senhor e a mulher que nos ensina que quando guardamos as coisas de Deus nos deixamos surpreender pelo que Deus pode fazer em nós.
Convém ficarmos com as palavras de Santa Faustina Kowalska para não deixar de fazer oração e para que, como Maria, guardemos tudo no coração. “Estou tranquila junto ao seu Imaculado Coração, já que sou fraca e inexperiente, por isso, como uma criança me abraço ao seu Coração”.