Deixamos a seguir a carta encíclica de Leão XIV:
INTRODUÇÃO
1. A magnífica humanidade que Deus criou encontra-se hoje diante de uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou edificar a cidade onde Deus e a humanidade habitem juntos. Cada geração recebe como herança a tarefa de dar forma ao seu próprio tempo: fazer amadurecer a história como um lugar onde se proteja a dignidade de cada pessoa, se promova a justiça e se torne possível a fraternidade. Mas em cada época paira o risco de construir um mundo desumano e mais injusto. Ali onde a humanidade corre o perigo de perder seu rosto, nós, cristãos, erguemos os olhos para o Deus que se fez carne, sabendo que «o mistério do homem só se esclarece no mistério do Verbo encarnado». [1] Em Jesus Cristo, esta magnífica humanidade encontra o caminho, a verdade e a vida, abrindo a cada um de nós a via para crescer rumo à plenitude.
2. Fundamentados em Cristo, a pedra viva, experimentamos a ação poderosa e misteriosa do Espírito Santo, e cremos que todo esforço humano autêntico para cooperar com Ele em prol do bem será abençoado pelo Pai celestial, em quem depositamos nossa esperança. Por este motivo, podemos contribuir com determinação para todas aquelas iniciativas que constroem um mundo mais justo, e podemos convidar outros a colaborar conosco na promoção do desenvolvimento integral de cada ser humano. Desejamos entrar em diálogo com todos os homens e mulheres de nosso tempo, com os quais participamos juntos dos acontecimentos, das perguntas e das aspirações da humanidade. [2] Queremos identificar, junto com eles, novos caminhos para o bem comum e a promoção de uma vida digna para todos. Esta atitude de diálogo é parte integrante da vocação da Igreja, pois ela, constituída «em Cristo como um sacramento, […] da união íntima com Deus e da unidade de todo o gênero humano», [3] reconhece na história o lugar onde o Evangelho interpela e acompanha a experiência humana.
3. Com este espírito, em 1891 Leão XIII publicou a Encíclica Rerum novarum, cujo 135º aniversário celebramos este ano com profunda gratidão. Com esse documento, meu querido Predecessor impulsionou aquela reflexão sobre a sociedade, a economia e a política que hoje chamamos “Doutrina Social da Igreja”. E quando alguns objetavam que a Igreja não deveria desperdiçar energias em questões mundanas, mas preocupar-se em comunicar uma mensagem de vida eterna, ele respondia com realismo e sabedoria que o anúncio do Evangelho não pode esquecer a vida concreta dos povos. [4] Passaram-se muitas décadas desde então, e o Magistério, os pastores, os teólogos e os fiéis continuaram refletindo sobre as questões sociais à luz do Evangelho. Hoje, a Doutrina Social da Igreja é um patrimônio de sabedoria, no qual encontramos princípios para pensar, critérios para discernir e julgar, e orientações concretas para agir. Fundamenta-se na Sagrada Escritura e na Tradição e, em diálogo com as ciências, ajuda-nos a ler com lucidez os desafios do presente, identificando caminhos adequados para viver um testemunho cristão límpido, com alegria e a serviço do mundo. Não é um conjunto estático de conceitos, mas um corpus vivo de verdades, que custodia e interpreta a vocação da humanidade a uma vida plena e justa. A esta tradição viva desejo, portanto, somar minha voz, invocando a assistência do Espírito de sabedoria, que habita no mundo desde sua criação (cf. Pr 8,22-31).
4. Se em seu momento Leão XIII falava de “novos assuntos” ( rerum novarum), hoje não podemos limitar-nos simplesmente a repetir seus valiosos ensinamentos, mas devemos pedir a Deus a sabedoria para interpretar as grandes tendências de nosso tempo, em particular os avanços da técnica. Nos últimos anos tornou-se cada vez mais evidente quão rápida e profundamente a digitalização, a inteligência artificial (IA) e a robótica estão transformando nosso mundo. A técnica não deve ser considerada, em si mesma, como uma força antagônica à pessoa; pelo contrário, está enraizada em nossa história desde o princípio, na medida em que é «um fato profundamente humano, vinculado à autonomia e liberdade do homem». [5] Ao longo dos séculos, o desenvolvimento tecnológico contribuiu para uma melhoria significativa das condições de vida da humanidade; ao mesmo tempo, cada etapa do progresso também evidenciou o lado ambíguo de instrumentos capazes de causar dano quando não orientados para o bem. Hoje, contudo, encontramos-nos diante de uma situação nova, na qual o poder e a onipresença das tecnologias emergentes entrelaçam-se com o tecido da vida cotidiana, moldam os processos de tomada de decisão e incidem profundamente no imaginário coletivo: «Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma». [6]As novas tecnologias abrem um horizonte que se estende em direções que, embora intuíveis, ainda não podemos prever completamente. Isso torna mais complexo avaliar seu impacto e seus efeitos a longo prazo sobre a dignidade das pessoas e o bem comum.
5. Agora nos cabe assumir com lucidez e responsabilidade os desafios de nosso tempo. É necessário adotar instrumentos normativos adequados, capazes de salvaguardar a justiça e conter os efeitos distorcidos do poder tecnológico. Mas a questão não se limita à regulação. Como advertia o Papa Francisco, devemos perguntar-nos com realismo quem detém hoje esse poder e para que fins o orienta: «Não podemos ignorar que a energia nuclear, a biotecnologia, a informática, o conhecimento de nosso próprio DNA e outras capacidades que adquirimos […] dão a quem possui o conhecimento, e sobretudo o poder econômico para explorá-lo, um domínio impressionante sobre o conjunto da humanidade e do mundo inteiro». [7] No passado, eram principalmente os Estados que impulsionavam e orientavam a inovação. Hoje, em contrapartida, os principais motores do desenvolvimento são atores privados, muitas vezes transnacionais, dotados de recursos e capacidade de ação superiores aos de muitos governos. O poder tecnológico adquire assim um rosto inédito, predominantemente “privado”, e por isso ainda mais difícil de discernir, governar e orientar para o bem comum.
6. Por esta razão é preciso iniciar um discernimento compartilhado capaz de aprofundar as raízes espirituais e culturais das transformações que estão ocorrendo. Se nos limitarmos às circunstâncias contingentes, corremos o risco de deixar que a sucessão de emergências decida por nós a direção do caminho. Estamos vivendo uma rápida fase de transição, uma “mudança de época” na qual —enquanto alguns disputam o futuro das novas tecnologias e outros se dedicam a refletir sobre elas— a maioria das pessoas permanece à espera, observa de longe e simplesmente aguarda que tudo saia bem. Precisamente por isso impõem-se em nossa consciência perguntas decisivas, que já não podem ser eludidas: Para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que direção escolher como comunidade humana e como povos?
7. Para responder a estas perguntas e discernir como viver com responsabilidade na era da IA, gostaria de evocar duas imagens bíblicas: a construção da torre de Babel (cf. Gn 11,1-9) e a reconstrução dos muros de Jerusalém (cf. Ne 2-6). No livro do Gênesis, o relato de Babel situa-se nas origens da humanidade, imediatamente depois das genealogias dos filhos de Noé. Os seres humanos, tendo-se estabelecido na planície de Senaar, decidem construir uma cidade e uma torre «cujo cimo chegue até o céu» (Gn 11,4). Querem assim assegurar-se estabilidade e poder, e sobretudo “perpetuar um nome”, temendo ser dispersados pela terra. A empresa parece imponente: uma só língua, uma só tecnologia, uma só direção. Contudo, o projeto esconde um profundo engano: é uma obra concebida sem referência a Deus, sustentada por uma uniformidade que elimina a diversidade e que, em lugar da comunhão, escolhe a homogeneização. Quando a cidade se edifica sobre o orgulho e a pretensão de bastar-se a si mesma, a comunicação se rompe, as línguas se confundem e os seres humanos já não se compreendem. O resultado não é a unidade, mas a dispersão. Babel revela assim o limite de toda construção que, por grandiosa que seja, surge da absolutização do humano e de sua pretensão de autossuficiência, sacrifica a dignidade das pessoas em prol da eficiência e aspira a alcançar o céu sem a bênção de Deus.
8. O livro de Neemias, por sua vez, começa em um momento de grande vulnerabilidade na história do antigo Israel. Após o exílio babilônico, uma parte do povo retornou a Jerusalém, mas a cidade continua em ruínas, os muros desabaram e as portas foram queimadas (cf. Ne 1-2). Neemias, um judeu a serviço do rei persa Artaxerxes, recebe a notícia do estado desastroso da cidade de seus pais. Antes de agir, jejua, ora e intercede pelo povo; depois pede permissão ao rei para retornar a Jerusalém e, uma vez ali, examina em silêncio os lugares destruídos. Não impõe soluções de cima. Convoca as famílias, confia a cada uma um trecho de muro para reconstruir, escuta os temores, coordena os esforços e enfrenta as oposições. O relato mostra como a cidade renasce não graças à iniciativa de uma só pessoa, mas por meio da responsabilidade compartilhada de todo o povo: sacerdotes, artesãos, chefes de família, mulheres e jovens. É uma obra que tem Deus no centro e reconstrói os vínculos antes mesmo das pedras. A antiga Jerusalém recupera assim uma linguagem comum, não a da uniformidade, mas a da comunhão: a harmonia que nasce quando cada um assume sua parte e todo o povo reconhece que sua força vem do Senhor.
9. À luz destas duas imagens, o Espírito Santo hoje nos interpela sobre nossa relação com a tecnologia e com a revolução digital em curso. As descobertas científicas são um talento entregue à humanidade para que o faça frutificar (cf. Mt 25,14-30). A tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças. Em abstrato, ela, em si mesma, não é uma solução para os problemas da humanidade, assim como não é um mal em si; mas, concretamente, não é neutra, porque toma o rosto de quem a concebe, a financia, a regula, a utiliza. Por isso, a primeira escolha não é entre um “sim” ou um “não” à tecnologia, mas entre construir Babel ou reconstruir Jerusalém: entre um poder que pretende dominar o céu e um povo que, na presença de Deus, põe-se a trabalhar unido para levantar novamente os muros da convivência fraterna.
10. Evitemos, portanto, a “síndrome de Babel”: a idolatria do lucro que sacrifica os fracos, a uniformidade que nivela as diferenças, a pretensão de uma linguagem única —inclusive digital— capaz de traduzir tudo, inclusive o mistério da pessoa, em dados e rendimentos. Este é o risco da desumanização —construir o futuro excluindo Deus e reduzindo o outro a um meio—, uma tentação antiga e sempre nova, que hoje também assume um rosto técnico. Escolhamos, em contrapartida, o “caminho de Neemias”, que põe em relevo o valor do trabalho compartilhado para fazer da cidade de Deus um lugar seguro para os exilados que regressaram. Hoje, reconstruir significa reconhecer que, na pluralidade de vozes e visões que às vezes recorda a dispersão das línguas, existe, contudo, uma possibilidade luminosa: a de edificar juntos, transformando a diversidade em recurso e fazendo da escuta e do diálogo o terreno comum no qual fazer crescer a justiça e a fraternidade. E, nesta obra compartilhada, os cristãos encontram sua própria forma de construir: orientar a ação para Deus, para que, sob sua luz, o pluralismo não se disperse na desordem, mas, na prática da sinodalidade, se converta no espaço em que a humanidade recupere seus fundamentos sólidos e seu fim último. No Apocalipse, João vê a nova Jerusalém «que descia do céu e vinha de Deus» (Ap 21,2) como um dom para toda a humanidade. E esta visão de graça é para nós, cristãos, um chamado a trabalhar juntos, cultivando uma vida comum pacífica, justa e digna nas “cidades” de hoje.
11. Edificar uma cidade centrada no bem comum exige, antes de tudo, edificar sobre a rocha da relação com Deus. Significa reconhecer que a verdade de seu amor nos chama a uma vida «em abundância» ( Jn 10,10) e à comunhão com Ele. Junto com santo Agostinho, também nós podemos dizer: «Porque nos fizeste para ti e nosso coração está inquieto até que descanse em ti». [8] De fato, Deus inscreveu em nosso coração um desejo de felicidade que abarca todas as dimensões da vida; e a Igreja, no diálogo com os homens e as mulheres de nosso tempo, sente a urgência de custodiar e orientar essa aspiração para sua verdade mais profunda.
12. Em segundo lugar, edificar no bem significa aceitar os limites e a fragilidade da humanidade sem considerá-los um erro que deva ser corrigido. Hoje em dia, o desejo de plenitude do ser humano corre o risco de desviar-se para metas enganosas: a ilusão de uma tecnologia que promete libertar-nos de toda fragilidade ou modelos de bem-estar que “deixam para trás” povos inteiros. Não é raro que depositemos nossa esperança em um potencial ilimitado, em formas de progresso que podem aguçar as desigualdades, em soluções imediatas incapazes de curar as feridas dos povos. Assim, enquanto alguns perseguem a quimera de uma autoafirmação ilimitada, muitos carecem do necessário. A Igreja recorda, com voz humilde mas firme, que a verdadeira realização não nasce da eliminação das fragilidades, mas de um crescimento harmônico: ali onde a liberdade e a responsabilidade entrelaçam-se com o cuidado recíproco e a verdadeira solidariedade, e onde o progresso é medido pela dignidade de cada um e pelo bem dos povos.
13. Em terceiro lugar, edificar um mundo em que todos possam “florescer” exige uma corresponsabilidade corajosa. Nenhuma mão, por si só, basta para sustentar o peso dos desafios que o mundo atravessa; e nenhuma é tão fraca que não possa oferecer sua contribuição: «Meu poder triunfa na fraqueza» (2 Co 12,9). A cada um corresponde seu trecho de muro: cientistas e pesquisadores, empresários e trabalhadores, educadores e legisladores, sociedade civil, movimentos populares e comunidades de fé. Esta é a lógica da subsidiariedade, que valoriza a cooperação entre gerações, entre povos, entre disciplinas e culturas como o caminho privilegiado para fazer crescer a estabilidade, a prosperidade e a paz. As tensões e as diferenças não devem intimidar; podem converter-se em energias criativas quando orientadas por uma responsabilidade compartilhada.
14. Por último, edificar no bem requer uma linguagem evangélica. Evitemos as palavras que humilham ou enfrentam. Optemos pela clareza que ilumina e pela franqueza que abre caminhos. Não abençoemos entusiasmos ingênuos nem alimentemos medos estéreis. Antes, indiquemos critérios de discernimento —a dignidade da pessoa, o destino universal dos bens, a opção pelos pobres, o cuidado da Casa comum, a paz— e traduzamo-los em práticas: planejamento responsável, avaliações do impacto humano e social, inclusão dos mais frágeis, alfabetização digital, pesquisa e indústria orientadas à justiça e à paz.
15. No recente Jubileu ordinário de 2025, caminhamos como peregrinos da esperança e fomos cumulados de graças. Fortalecidos por estes dons, podemos avançar com ânimo confiante diante das árduas tarefas e dos exigentes desafios que se perfilam em nosso futuro. Na era da inteligência artificial, na qual a dignidade humana corre o risco de ser eclipsada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, custodiando com amor essa magnífica humanidade que nos foi dada e revelada em plenitude em Cristo, e que nenhuma máquina poderá jamais substituir em seu esplendor. O verdadeiro progresso nasce sempre de um coração aberto ao outro, de uma inteligência disposta a escutar, de uma vontade que busca o que une mais do que o que separa.
16. A todos os fiéis católicos, a todos os cristãos, a todos os homens e mulheres de boa vontade dirijo um veemente apelo: não temamos sujar as mãos na obra de nosso tempo. Como Neemias, oremos, projetemos com sabedoria, trabalhemos com perseverança, pondo Deus no horizonte de nosso atuar e o ser humano no centro de nossas decisões. Então as pedras rejeitadas —os pobres, os enfermos, os migrantes, os pequenos— converter-se-ão em pedras angulares, e sobre a terra surgirá um lar comum sólido e hospitaleiro, onde o amor e a verdade finalmente se encontrarão, e a justiça e a paz se beijarão (cf. Sl 85,11). Esta é a bênção que imploramos a Deus e a tarefa que temos pela frente: ser construtores de comunhão, não arquitetos de Babel; servos do Reino que vem, não donos de torres destinadas a desmoronar. E, com ânimo de pastor e de pai, peço a todos que detenham a construção da enésima Babel e que unam forças para edificar no bem, para que a humanidade nunca perca sua própria beleza e o mundo possa reconhecer mais uma vez, no coração do ser humano, o lugar onde Deus deseja habitar.
UM PENSAMENTO DINÂMICO FIEL AO EVANGELHO
17. Neste primeiro capítulo minha intenção é percorrer, de maneira sintética, o caminho pelo qual a Doutrina Social da Igreja foi tomando forma no Magistério recente dos Papas e do Concílio Vaticano II, para pôr em relevo seu caráter dinâmico. Em cada época, de fato, as res novae instam este ensino a medir-se com as perguntas da história à luz da Verdade revelada. Por isso, também a IA deve ser entendida não como um apêndice temático, ou como uma emergência que deva ser gerida, mas como uma transformação que interpela desde dentro as categorias da Doutrina Social e exige um maior desenvolvimento da mesma, em fidelidade ao Evangelho.
18. Contudo, este itinerário não seria realmente compreensível se, antes de deter-nos na contribuição de cada um dos Pontífices e nos documentos mais relevantes, não esclarecêssemos algumas convicções fundamentais sobre a forma como a Igreja habita a história e se relaciona com o mundo. Sem este esclarecimento, a Doutrina Social correria o risco de parecer uma ingerência indevida em questões temporais ou um código ético externo que se aplica arbitrariamente. Na realidade, surge de uma Igreja que caminha com a humanidade, reconhece a autonomia das realidades terrenas e a distinção entre comunidade eclesial e comunidade política e, precisamente por isso, aspira a servir o bem comum.
Uma Igreja em caminho na história da humanidade
19. A Igreja, presente no mundo como sinal de unidade para toda a família humana, reconhece nos interrogantes e nos desafios da época atual o âmbito no qual exercer sua vocação à escuta, ao diálogo e ao serviço, deixando-se interpelar por tudo o que concerne à existência dos homens e das mulheres de hoje. Este entrelaçamento de vida com os povos faz-lhe compreender cada vez mais que sua missão tem um alcance histórico e implica uma responsabilidade quanto à forma como se tecem as relações sociais. Por isso não pode ser considerada alheia às dinâmicas que configuram o rosto da sociedade. Antes, participa com compromisso nos caminhos pelos quais a sociedade mesma cresce e se organiza, e oferece sua contribuição para o logro de uma convivência mais justa e fraterna. O Papa Francisco recordava com força esta dimensão histórica da missão eclesial, assinalando que «ninguém pode exigir de nós que releguemos a religião à intimidade secreta das pessoas, sem influência alguma na vida social e nacional, sem nos preocuparmos com a saúde das instituições da sociedade civil, sem opinar sobre os acontecimentos que afetam os cidadãos». [9]
20. O chamado e o compromisso de caminhar com a humanidade no concreto da história levam a Igreja a reconhecer que as realidades terrenas possuem uma consistência e uma ordem próprias. O Concílio Vaticano II expressou com especial precisão este princípio na Constituição pastoral Gaudium et spes, cujo 60º aniversário celebramos com grato recuerdo no passado 7 de dezembro de 2025: «Se por autonomia da realidade se quer dizer que as coisas criadas e a sociedade mesma gozam de próprias leis e valores, […] é absolutamente legítima esta exigência de autonomia». [10]Este ênfase põe de manifesto que a criação leva impressa uma bondade originária que o olhar humano deve custodiar, cultivar e fazer madurar. Neste horizonte, a Igreja oferece-se como uma presença que ajuda a ler em profundidade a realidade, sustentando com humilde firmeza aquelas decisões que promovem a dignidade de cada pessoa, a coesão das comunidades e o bem de todos. Assim, situa-se ao lado do mundo sem impor-se sobre ele, para que em cada acontecimento humano possa germinar a promessa de justiça e paz que o Espírito Santo continua suscitando no coração da humanidade.
21. Ao reconhecer que Deus acompanha a liberdade dos seres humanos no desenvolvimento da história, o Concílio Vaticano II afirmava a distinção entre comunidade eclesial e comunidade política, sublinhando que cada uma delas deve atuar com a mais plena autonomia. A presença da Igreja no mundo expressa-se assim também em sua relação com a sociedade civil e com as instituições públicas. Ao dialogar com elas, a Igreja reconhece o valor das realidades sociais e políticas e respeita sua própria responsabilidade, apoiando tudo o que protege a vida das pessoas e fortalece os alicerces do tecido social. Não pretende assumir as funções que competem ao Estado; pelo contrário, valoriza seu serviço ao bem comum e reconhece com convicção a responsabilidade que as instituições civis exercem na sociedade. Ao mesmo tempo, a missão que lhe foi confiada leva-a a não permanecer distante dos sofrimentos concretos dos homens e das mulheres de nosso tempo. Sua proximidade não nasce da intenção de suprir as instituições, nem muito menos de uma crítica implícita a seu labor, mas da caridade evangélica que a impulsiona a aproximar-se das feridas da humanidade nos momentos em que estas se manifestam com maior gravidade. Quando intervém, o faz imitando o bom samaritano, com discrição e proximidade, consciente de que o que surge de uma necessidade imediata não pode converter-se em norma, nem substituir as responsabilidades institucionais próprias da comunidade civil.
22. A partir deste duplo reconhecimento —a autonomia das realidades terrenas e a distinção de competências entre a comunidade eclesial e a política— compreende-se melhor a orientação que o Concílio Vaticano II deu à Igreja em sua relação com o mundo. Gaudium et spes recorda que «é próprio de todo o Povo de Deus, mas principalmente dos pastores e dos teólogos, auscultar, discernir e interpretar, com a ajuda do Espírito Santo, as múltiplas vozes de nosso tempo e avaliá-las à luz da Palavra de Deus, a fim de que a Verdade revelada possa ser melhor percebida, melhor entendida e expressa de forma mais adequada». [11] Escutar as “diferentes linguagens” não é uma mera atenção sociológica, mas implica um discernimento espiritual no qual, com a ajuda do Espírito, o Povo de Deus reconhece nas transformações culturais e sociais tanto os sinais da presença de Cristo, que vem e guia a história rumo à sua plenitude, quanto aqueles desvios que obscurecem seu rosto. Assim, a Verdade revelada não se modifica em seu núcleo essencial, mas se explicita e se assume como critério vivo para orientar escolhas concretas, inspirar caminhos de conversão pessoal e comunitária, promover reformas das estruturas e apoiar novas formas de testemunho evangélico na vida pública. A história é, portanto, um dos lugares nos quais a Igreja se deixa instruir pelo Espírito sobre o alcance humanizador do Evangelho e aprende a adaptar seu ensino ao serviço da dignidade de cada pessoa e do bem dos povos.
A sabedoria da Palavra e o diálogo com as ciências humanas
23.A Igreja considera companheiros de caminho todos aqueles que buscam sinceramente «a verdade, a bondade e a beleza», considerando-os «preciosos aliados» [12] na defesa da dignidade de cada pessoa e na custódia da criação. Assumindo o estilo pastoral do Concílio Vaticano II, que convida a escutar, discernir e interpretar os sinais dos tempos, a Igreja, iluminada pela sabedoria da Palavra, não teme o encontro com o saber humano. A Palavra de Deus oferece critérios fiáveis para orientar os caminhos da justiça e abrir vias de reconciliação e paz entre os seres humanos. Quando se trata de aplicar estes critérios às complexas situações de nosso tempo, resulta essencial a contribuição da filosofia e das ciências humanas e sociais, que ajudam a compreender e analisar mais a fundo as dinâmicas culturais, econômicas e políticas. São João Paulo II recordava que a Igreja acolhe a contribuição das ciências sociais «para extrair indicações concretas que a ajudem a desempenhar sua missão de Magistério». [13] O diálogo com esses conhecimentos não diminui a força do Evangelho; pelo contrário, permite identificar com maior clareza o que realmente promove a vida das pessoas e das comunidades. O Papa Francisco, em consonância com esta perspectiva, sublinhava que, em muitas questões específicas, a Igreja não pretende oferecer «uma palavra definitiva», [14] mas reconhece a importância de prestar atenção à pesquisa científica e de fomentar um diálogo sério e leal entre os acadêmicos, aceitando a diversidade de opiniões.
24. Alimentada por este diálogo fecundo entre o Evangelho e os conhecimentos humanos, a Igreja aprofundou progressivamente sua Doutrina Social, madurando com o tempo um patrimônio de sabedoria dotado de uma coerência teológica e antropológica enraizada na visão cristã da pessoa. Precisamente porque nasce da fé e de sua compreensão da realidade, este patrimônio não se traduz em um repertório de soluções técnicas nem em um modelo econômico ou político que se oponha a outros: tem uma categoria própria, [15] a dos princípios que orientam a leitura dos acontecimentos e sustentam uma interpretação evangélica dos processos históricos e das decisões que estes implicam. Daí surge a função própria da Doutrina Social, que não pretende substituir as responsabilidades da política e das instituições, mas se oferece como apoio ao discernimento comum, ajudando a reconhecer e promover o que contribui para a dignidade das pessoas, para a vitalidade das comunidades e para o bem de todos.
A Doutrina Social como discernimento comunitário
25. A compreensão da verdade como um dom que deve ser compartilhado e não como uma posse que se deve reclamar, liberta a Igreja da tentação de anelar formas de presença baseadas no poder. São João Paulo II convidava a olhar com sinceridade para aqueles tempos em que se cedeu a «métodos de intolerância e mesmo de violência no serviço à verdade», [16] para reencontrar o caminho evangélico do anúncio apaziguado e da verdade que não se impõe. Na mesma linha, reiterei que a Igreja «não quer levantar a bandeira da posse da verdade», [17] porque a verdade não é um território que se deve defender, mas um bem que se deve compartilhar. Esta mesma perspectiva resumiu o Papa Francisco em suas famosas palavras, segundo as quais «o tempo é superior ao espaço»: [18] o importante não é, antes de tudo, ocupar postos de poder ou controlar bastiões culturais, mas iniciar processos de bem e deixar que amadureçam; assim, a verdade do Evangelho não se impõe de cima, mas cresce com o tempo, no entrelaçado concreto das vidas, das comunidades e das culturas. É uma verdade que não teme a diversidade, mas a acolhe e a ordena; que não elimina os conflitos, mas os transfigura; que recompõe o que a história tende a dispersar. Daí também a imagem do poliedro, uma figura de muitas faces onde se reflete, desde diferentes ângulos, a mesma verdade do Evangelho. [19]
26. Esta atitude de abertura à verdade, única e ao mesmo tempo multifacetada, expressa no mais profundo a catolicidade da Igreja, que abarca toda a família humana e, ao mesmo tempo, vive imersa nas condições concretas dos povos e das culturas. O Concílio Vaticano II recorda que, precisamente em virtude desta catolicidade, «cada uma das partes colabora com seus dons próprios com as restantes partes e com toda a Igreja», [20] e que, deste modo, tanto no conjunto como em cada comunidade individual, cresce graças a um intercâmbio recíproco e a um esforço mútuo rumo a uma comunhão cada vez mais plena. Disso se depreende que o Povo de Deus não só é composto por muitos povos, mas em seu interior está tecido de funções, vocações, culturas e tradições diversas, chamadas a apoiar-se e enriquecer-se mutuamente. Nesta perspectiva, são Paulo VI reconhecia que, dada a grande variedade de situações históricas, não é realista pensar que a Doutrina Social possa «pronunciar uma palavra única», [21] uma resposta exclusiva e válida para todos os contextos; por isso convidava cada comunidade cristã a ler com lucidez e responsabilidade a realidade de seu próprio país. A tensão fecunda entre a universalidade da missão e o enraizamento local faz parte íntima da vida da Igreja: ela leva em seu alento o horizonte do mundo inteiro, mas assume as perguntas de cada contexto como o lugar real no qual o Evangelho ganha vida.
27. À luz do dito até agora, a Doutrina Social da Igreja mostra-se em sua faceta mais autêntica: não é um manual de princípios e normas que se devem aplicar, mas um caminho de discernimento comunitário. Nasce do encontro entre a verdade eterna do Evangelho e as perguntas da história, deixa-se interpelar pelos sinais dos tempos; nutre-se da contribuição das ciências, das culturas e das experiências humanas. Por isso, quando a dignidade dos irmãos é desfigurada, quando a política não responde aos dramas da humanidade, quando a economia se volta contra a pessoa ou a ciência ultrapassa os limites de seu método, [22] a Igreja —junto com as demais confissões cristãs e os crentes de outras religiões— deve fazer ouvir sua voz não para dominar, mas para servir à comunhão. Entendida assim, a Doutrina Social converte-se em uma teologia da comunhão; um lugar no qual a Palavra, feita carne, continua convertendo-se em diálogo, memória e profecia.
O desenvolvimento do Magistério social desde Leão XIII até hoje
28. Após ter recordado a forma como a Igreja se situa na história e entabula diálogo com o mundo, desejo agora deter-me no desenvolvimento da Doutrina Social no Magistério, que, desde o século XIX até nossos dias, acompanhou as grandes transformações sociais. Evidentemente, não poderei dar conta de toda a riqueza deste ensino, cujos princípios fundamentais se apresentam no Compêndio da doutrina social da Igreja e se aprofundam ainda mais no Magistério recente. Tampouco poderei retomar de maneira sistemática o que foi elaborado nas Encíclicas de meus últimos venerados Predecessores, em particular em Laudato si’ e em Fratelli tutti. Contudo, quero recordar algumas linhas essenciais, para mostrar que o que escrevo se coloca em continuidade com esta tradição e, ao mesmo tempo, para destacar como nela o núcleo estável das verdades reveladas sobre a pessoa e a convivência humana entrelaça-se com uma capacidade sempre renovada de escutar as situações históricas e de deixar-se interpelar pelas perguntas que surgem do presente. Percorrerei, portanto, algumas etapas decisivas deste desenvolvimento, começando pela etapa inaugurada pela Encíclica Rerum novarum.
Os primeiros passos da Doutrina Social da Igreja
29. O que hoje chamamos “Doutrina Social da Igreja” não surge de improviso na era contemporânea, mas recolhe e organiza uma longa tradição de reflexão eclesial sobre a vida social, que afunda suas raízes na Sagrada Escritura, nos Padres da Igreja e nas elaborações teológicas e jurídicas da Idade Média e da Idade Moderna. A expressão “Doutrina Social da Igreja” foi empregada pela primeira vez por Pio XII em 1950, [23] mas o conteúdo que encerra, entendido como um corpus orgânico de ensinamentos sociais, começou a perfilar-se com a Encíclica Rerum novarum de Leão XIII. Diante dos “novos assuntos” de seu tempo —o conflito entre o capital e o trabalho, a questão operária, as transformações econômicas e sociais—, Leão XIII não se limitou a constatar o mal-estar, mas assumiu essas situações como âmbito da missão pastoral da Igreja, submeteu-as a um discernimento rigoroso e iluminou suas causas e as possíveis vias de saída à luz do Evangelho e de uma visão integral da pessoa, criada à imagem de Deus. São João Paulo II viu nesta forma de proceder um «paradigma permanente» [24] da Doutrina Social: uma práxis exemplar mediante a qual a Igreja, diante de situações históricas, exerce seu direito e dever de examinar as realidades sociais, pronunciar-se sobre elas e indicar caminhos para uma solução justa. Deste modo, os conteúdos perenes da fé e da antiga sabedoria eclesial articulam-se em uma doutrina viva que, permanecendo fiel ao Evangelho, cresce no diálogo com os “novos assuntos” de cada época.
30. A Encíclica Rerum novarum de Leão XIII constitui um marco na evolução do Magistério social. O documento situa no centro de sua reflexão a dignidade do trabalho e do trabalhador, afirma o direito a um salário justo para si mesmo e para a própria família, reconhece nas pessoas um valor essencial que prevalece sobre o capital e o benefício, defende a propriedade privada junto com sua indispensável função social, aprecia as associações de trabalhadores e propõe formas de colaboração entre os diversos componentes da sociedade como alternativa à lógica da “luta de classes”. Não surpreende, portanto, que Pio XI a tenha definido como a « Magna Charta» [25] da ação social dos cristãos: em Rerum novarum, a sabedoria ancestral da Igreja sobre a pessoa e a vida em sociedade adquire uma nova forma, capaz de enfrentar a era industrial e de oferecer o primeiro grande marco sistemático daquela Doutrina Social que as décadas seguintes desenvolveriam ainda mais. Embora muitas das condições históricas descritas por Leão XIII tenham mudado, pelo menos dois de seus princípios continuam sendo de grande atualidade: a primazia do trabalho humano sobre qualquer lógica puramente produtiva ou financeira, com a consequente atenção às pessoas e às famílias mais expostas à exploração, e o vínculo indissolúvel entre o anúncio evangélico e a busca de uma ordem social mais justa. Assim, Rerum novarum continua recordando-nos que não há autêntica evangelização que não toque também as estruturas da convivência humana.
31. A Encíclica Quadragesimo anno de Pio XI, publicada em 1931 por ocasião do 40º aniversário de Rerum novarum e no auge da grande crise econômica mundial, dá um passo a mais no desenvolvimento do Magistério social. Não se limita a retomar a “questão operária”, mas amplia seu olhar para a configuração geral da ordem econômica e política. Denuncia a concentração do poder econômico nas mãos de poucos; critica tanto a competição sem limites quanto aqueles projetos coletivistas que anulam a liberdade e a responsabilidade das pessoas; recorda com força o direito de associação dos trabalhadores e reitera a exigência de que o salário seja proporcional não só ao rendimento, mas às necessidades do trabalhador e de sua família. Neste marco, formula de maneira sistemática o princípio da subsidiariedade, destinado a converter-se em um dos referentes fixos da Doutrina Social, segundo o qual o que pode ser realizado pelas pessoas, pelas famílias, pelos organismos intermediários e pelas comunidades locais não deve ser absorvido por instâncias superiores. Junto a estas contribuições, Pio XI recorda com clareza a função social da propriedade e, com diversas intervenções de seu Magistério —desde as Encíclicas Non abbiamo bisogno e Mit brennender Sorge até a Divini Redemptoris—, denuncia os totalitarismos que atropelam a dignidade da pessoa, sufocam a vida social, exaltam o Estado acima de seu justo valor e adotam a categoria discriminatória da raça. Para nossa época continuam sendo particularmente atuais pelo menos três intuições de seu ensino social: a consciência de que as injustiças não se referem só aos comportamentos individuais, mas também às estruturas econômicas e institucionais; o valor do princípio da subsidiariedade, que convida a fortalecer o tecido associativo e comunitário, evitando novas concentrações de poder; e o vínculo entre a dignidade do trabalho, a justa remuneração e a possibilidade real para as famílias de levar uma vida humana digna.
32. No contexto dramático da Segunda Guerra Mundial e dos anos da reconstrução, o Magistério de Pio XII oferece uma contribuição significativa ao desenvolvimento da Doutrina Social, sobretudo por meio das Mensagens radiofônicas natalinas, nas quais esboça as linhas gerais de uma ordem internacional baseada no reconhecimento da dignidade humana, na justiça e na paz. Nessas ocasiões, o Papa propõe um diálogo com a sociedade a partir de uma exigente referência ao direito natural, entendido como um conjunto de princípios objetivos que precedem os interesses dos indivíduos e dos Estados e que devem regular a vida interna das nações e suas relações recíprocas. Pio XII atribui ademais um papel decisivo às associações profissionais, aos sindicatos de trabalhadores e aos diversos corpos intermediários da vida econômica e social, reconhecendo nestas formas organizadas da sociedade um baluarte essencial para o equilíbrio civil e para a tutela do bem comum. Ele sustenta a necessidade de um Estado de direito sólido para prevenir os abusos de poder e reconhece na democracia um instrumento adequado para favorecer o exercício correto da autoridade. Ao mesmo tempo, adverte contra toda pretensão de fundar o direito no interesse ou na força, recordando que uma ordem internacional regulada pelo benefício dos mais fortes expõe os povos mais fracos à opressão e solapa pela raiz a confiança entre as nações. Por último, identifica nos profundos desequilíbrios econômicos entre os países um dos fatores que alimentam os conflitos. [26] Em nossa época, marcada por novas formas de poder global e por desigualdades crescentes, continuam sendo especialmente significativos três princípios: a exigência de que o direito prevaleça sobre o interesse, a consciência de que as disparidades econômicas são terreno fértil para as tensões e a violência, e o valor de um tecido associativo capaz de mediar entre o indivíduo e o Estado. Estes continuam oferecendo à Doutrina Social critérios importantes para interpretar as dinâmicas da globalização e para promover uma ordem internacional mais justa e pacífica.
Os anos do Concílio Vaticano II
33. Com são João XXIII abre-se uma nova etapa do Magistério social, marcada por uma atenção mais explícita à dimensão mundial das questões sociais e à linguagem dos direitos. Em Mater et magistra apresenta a fé cristã como uma luz capaz de unir o céu e a terra, recordando que a Igreja, embora tenha como missão principal a santificação e o anúncio dos bens eternos, não por isso descuida as necessidades concretas da vida cotidiana das pessoas, mas interessa-se por todo autêntico bem humano. [27] Partindo desta visão unitária do ser humano, sublinha que a vida social exige um equilíbrio entre a iniciativa dos cidadãos e dos grupos, chamados a autoorganizar-se e colaborar, e a ação do Estado, que deve coordenar e sustentar sem sufocar a liberdade e a responsabilidade dos sujeitos; por isso, presta atenção à justa remuneração do trabalho, à participação dos trabalhadores e às crescentes disparidades entre os países. Poucos anos depois, com Pacem in terris, dirigindo-se pela primeira vez não só aos fiéis mas a todos os homens de boa vontade, são João XXIII vincula de maneira orgânica a dignidade da pessoa com o reconhecimento dos direitos e deveres fundamentais e propõe uma ordem de convivência —também no plano internacional— fundada na verdade, na justiça, no amor e na liberdade. [28] Em nossa época, marcada por conflitos generalizados e novas formas de interdependência global, continuam sendo especialmente significativos o alcance universal de seu chamado, a referência aos direitos humanos como língua comum e a convicção de que uma paz duradoura requer instituições e relações entre os povos inspiradas na dignidade de cada pessoa.
34. O Concílio Vaticano II marcou um ponto de inflexão na forma como a Igreja entende a si mesma no mundo contemporâneo. Na Constituição pastoral Gaudium et spes apresentou-nos a imagem de uma Igreja próxima à humanidade, comprometida com o mundo e dedicada a refletir não a partir de esquemas abstratos, mas da realidade concreta das situações históricas. O texto aborda as grandes questões do matrimônio e da família, da vida econômica e social, da comunidade política, da guerra e da paz, insistindo em que as estruturas econômicas e institucionais são justas só na medida em que servem ao desenvolvimento integral da pessoa e favorecem a participação responsável de todos. [29] A importância deste documento conciliar para a Doutrina Social da Igreja radica não só em ter aberto perspectivas de reflexão temática, mas também em ter proporcionado um método de discernimento que convida a interpretar as transformações históricas com um olhar evangélico e competência humana. Este estilo mostra que o diálogo com o mundo não é para a Igreja uma opção tática, mas uma forma concreta de sua missão, porque o Evangelho, como fermento, pode transformar desde dentro as estruturas da convivência e abrir caminhos para uma maior humanidade. Neste horizonte inscreve-se também a Declaração Dignitatis humanae, na qual o Concílio reconhece que a liberdade religiosa é um direito fundamental enraizado na dignidade da pessoa, que deve ser garantido pela ordenação jurídica para que ninguém seja obrigado a atuar contra sua consciência nem impedido de buscar e professar a verdade em privado e em público. [30] Este princípio, de grande relevância para nosso tempo, continua oferecendo à Doutrina Social critérios decisivos para a proteção da pessoa e para a construção de sociedades pluralistas e pacíficas.
35. No Pontificado de são Paulo VI surgem uma concepção da paz que não se reduz à ausência de guerra, mas se concretiza no caminho para um desenvolvimento humano integral. Em Populorum progressio, descreve o desenvolvimento como a passagem de condições de vida menos humanas a condições mais humanas e entende-o como um processo que diz respeito a «todos os homens e a todo o homem», [31] isto é, a todas as dimensões da pessoa e a todos os povos, sem exceção. Sobre esta base, Paulo VI pode afirmar que um desenvolvimento assim concebido é, na realidade, «o novo nome da paz», [32] porque tem como objetivo eliminar as raízes da injustiça e do conflito e abrir espaços para uma vida mais digna para todos. Também a criação da Pontifícia Comissão Iustitia et Pax deve ser interpretada neste sentido, como uma tentativa de dar uma forma estável, em nível eclesial e internacional, a esta intuição, mantendo viva a consciência sobre a brecha crescente entre países ricos e países pobres e sobre a necessidade de políticas que promovam condições de vida realmente mais humanas para todos.
36. Com a Octogesima adveniens, escrita por ocasião do 80º aniversário de Rerum novarum, Paulo VI translada esta perspectiva para a sociedade pós-industrial, marcada por transformações urbanas, novas formas de pobreza, mudanças no mundo laboral e rápidas mudanças culturais que põem em xeque o futuro das pessoas e das comunidades. Para Paulo VI, o Evangelho, apesar de ter sido anunciado, escrito e vivido em um contexto histórico-cultural muito diferente do nosso, não se trata de uma mensagem “superada”, mas de uma visão da pessoa humana, das relações, da autoridade e do bem comum capaz de orientar também hoje as decisões econômicas, políticas e culturais. [33] Em outras palavras, o Evangelho continua sendo atual porque proporciona os critérios para reconhecer o que humaniza ou desumaniza, o que liberta ou oprime, em situações sempre novas. Para a Doutrina Social da Igreja, o legado mais exigente de Paulo VI é precisamente este: enquanto no mundo houver povos excluídos de um desenvolvimento digno do ser humano, a comunidade cristã não poderá contentar-se com proclamar a paz em abstrato, mas deverá deixar que o Evangelho julgue, a partir de quem fica à margem, aquelas estruturas econômicas e políticas que, como recordaria João Paulo II, podem converter-se em autênticas «estruturas de pecado», [34] para que nenhuma pessoa nem nenhum povo seja tratado como prescindível nos processos de desenvolvimento.
37. O fecundo Magistério social de são João Paulo II situ<|eos|>