Bolívia foi durante décadas o destino para o qual se enviavam padres jesuítas acusados de abusos sexuais na Catalunha, em um sistema que as vítimas descrevem como organizado para ocultar delitos e evitar a ação da justiça. Assim o sustenta a Comunidad Boliviana de Sobrevivientes (CBS), que reclamou ao Parlament de Catalunya e ao Síndic de Greuges a abertura de uma investigação institucional.
O relatório, apresentado recentemente pela associação de vítimas, situa na Provincia Tarraconense da Companhia de Jesus a origem do que consideram o maior caso de pedofilia na América Latina, com uma vintena de agressores identificados e cerca de mil vítimas na Bolívia.
Um sistema de transferências para eludir a justiça
Segundo explicou o jurista Alejandro Klock, representante das vítimas, em declarações recolhidas pela agência EFE, os abusos “nascem” na Catalunha, que atuava como província “mãe” da missão boliviana desde meados do século XX.
O padrão denunciado é reiterado: quando um padre era acusado ou descoberto abusando de menores em colégios catalães, seus superiores optavam por transferi-lo para a Bolívia em vez de denunciá-lo.
Ali, longe do foco judicial europeu, esses religiosos continuavam sua atividade em entornos especialmente vulneráveis. Menores em situação de desproteção ficaram expostos —segundo as vítimas— a novos abusos durante anos.
“O grande agraviado é a Bolívia; criaram um sistema delituoso que se perpetuou durante décadas”, afirmou Klock, em declarações difundidas pela Swissinfo.
As vítimas sintetizaram essa prática com uma expressão tão dura quanto reveladora: a Bolívia foi convertida em um “aterro de pedófilos”.
De os diários de Pedrajas a uma trama mais ampla
O caso adquiriu dimensão internacional após a investigação publicada pelo El País em 2023 sobre o diário do jesuíta Alfonso Pedrajas, no qual confessava abusos contra pelo menos 85 menores durante anos enquanto seus superiores o protegiam.
A partir desse momento, novas informações e documentos internos começaram a vir à luz, revelando que não se tratava de um caso isolado. A promotoria boliviana abriu então uma investigação sem precedentes que derivou no processamento de responsáveis da ordem por acobertamento.
O relatório da CBS, elaborado após anos de coleta de provas, inclui cartas internas, resoluções canônicas e documentação que evidenciaria que a Companhia conhecia os abusos há décadas e recebeu diretrizes da Espanha e de Roma para gerenciá-los sem recorrer à justiça.
Nomes, provas e acobertamentos prolongados
Entre os casos documentados figuram padres transferidos desde a Catalunha após denúncias prévias, como Francesc Peris ou Lluís Tó, além de outros implicados diretamente na Bolívia.
Especialmente grave é o caso de Lucho Roma, que abusou de mais de 70 meninas indígenas entre 1994 e 2005. Segundo revelou a investigação do El País, a ordem chegou a investigar internamente os fatos e a confiscar diários e material gráfico, mas optou por não transferi-los à justiça durante anos.
As vítimas denunciam que esses acobertamentos não pertencem apenas ao passado, mas se prolongaram até datas recentes, sem que os responsáveis tenham respondido penalmente.
Responsabilidade internacional e pressão institucional
O relatório sustenta que a Provincia Tarraconense exercia um controle total —administrativo, hierárquico e financeiro— sobre a missão na Bolívia, o que reforça a tese de uma responsabilidade estrutural nos fatos.
Além disso, as vítimas denunciam a falta de colaboração de autoridades eclesiásticas e a ausência de reparação efetiva, apesar do reconhecimento interno de muitos dos casos.
Nesse contexto, solicitaram ao Parlament de Catalunya a criação de uma comissão de investigação e ao Síndic de Greuges que esclareça como foi possível esse sistema durante décadas.
“A Catalunha deve saber que o que aqui se investiga não são casos isolados, mas a origem do maior caso de pedofilia institucional da América Latina”, afirmou Klock, segundo recolheu o El País.
Enquanto na Bolívia já se ditaram condenas por acobertamento contra antigos responsáveis jesuítas, na Espanha a responsabilidade institucional segue, por enquanto, sem ser depurada.