Intuído mil vezes

Intuído mil vezes
Adoration of the Shepherds by Philippe de Champaigne, c. 1645 [The Wallace Collection, London]

Por o P. Benedict Kiely

Há alguns meses tive a sorte de estar na capital da Eslováquia, Bratislava, antigamente Pressburg, hospedando-me no belo centro histórico para intervir em uma conferência. Dizer que é encantadora soa como uma criação de bolo de casamento; é porque permanece intacta e como deve ser, não sucedânea nem artificial, uma cidade católica, em sua criação e nos fatos.

Ao percorrer suas ruas, muito fáceis de caminhar (uma escapada de fim de semana seria ideal para ver tudo o necessário), percebe-se que múltiplas igrejas estão abertas e em uso, e que, no domingo, muitas famílias com numerosos filhos transbordam para as pequenas praças. Diferente de sua vizinha checa, na Eslováquia a fé parece saudável, um sinal de encorajamento para aqueles que acreditam que qualquer ressurgimento da fé na Europa virá, em grande medida, de suas nações centrais e orientais.

A catedral de São Martinho, no pleno coração do centro histórico, é uma pequena joia gótica do século XV, simples e devota, dedicada a São Martinho de Tours, a quem a população reivindica como próprio, o que é tecnicamente correto, pois partes da Eslováquia faziam parte do que se chamava Panônia.

Esta catedral viu erguer-se e cair reinos: ali foram coroados os reis da Hungria. E abriga um pequeno santuário dedicado ao último imperador dos Habsburgo, o beato Carlos. Na vida de um cidadão idoso, também foi testemunha dos horrores das duas ideologias ateias mais destrutivas jamais conhecidas: o nazismo e o comunismo. Ambos os sistemas cruéis tentaram, como Herodes, matar — e falharam — o rival de seu poder terreno, o verdadeiro Rei, cujo reino não terá fim.

Quando o Evangelho estava prestes a ser proclamado naquele domingo, o prelúdio do órgão trovejou como uma aclamação, no sentido mais autêntico, dirigida a uma pessoa de grande dignidade, uma pessoa real. Era um saudação ao Verbo, que ia se manifestar na Escritura e no Sacramento, de maneira ainda mais verdadeira em sua Presença Real: o pão e o vinho transformados em seu Corpo e seu Sangue. Continua sendo tão difícil discernir sua divindade nesses elementos como o foi reconhecê-la em uma criança em uma manjedoura, salvo pelo dom da fé, concedido aos pastores e aos Magos.

A catedral, como toda igreja, humilde capela ou mesmo, por necessidade, mesa ou pedra de Missa, é Belém, a Casa do Pão, o palácio real do Rei escondido.

Havia algo muito apropriado nesse órgão triunfal. Como escreveu o bispo Barron, durante o reinado de César Augusto, trombetas e aclamações saudavam quem era percebido como o rei do mundo conhecido. No entanto, no silêncio, na «plenitude dos tempos», aparece o verdadeiro Rei, não aclamado por trombetas nem órgãos, desconhecido, mas reconhecido e adorado por pastores rudes e sábios buscadores do Oriente.

Não tem um exército terreno, mas algo muito maior: o exército da Hueste Celestial. Os grandes e os bons, se é que chegam a ouvir falar do acontecimento, zombam dele, uma reação muito contemporânea ante o Evangelho. E, no entanto, a história, como dizia Chesterton, é «suficientemente clara para ser entendida pelos pastores, e quase pelas ovelhas».

Deus confunde a sabedoria mundana com sua tola sabedoria escondida. «Veio aos seus, e os seus não o receberam». Por que não o reconheceram, Àquele a quem todos os profetas haviam anunciado?

Em parte foi, é claro, o «mistério da iniquidade», e a extraordinária simplicidade de seu nascimento. Mas há mais: um Deus tão próximo, tão fraco, tão indefeso, resulta quase demais para ser aceito e, portanto, parece contraditório com a ideia da onipotência divina.

Ainda está na moda, entre certos críticos antiquados do cristianismo que ainda não se deram conta de que suas opiniões, outrora em voga, hoje estão passadas, afirmar que, posto que as lendas e mitos pagãos incluíam relatos de um nascimento virginal ou da aparição de um deus em forma humana, isso prova que a história do Natal não é mais que isso: um conto como os demais. Hilaire Belloc, que perfurava a pomposidade e a charlataneria intelectual com a arma de sua pena, observou com grande acerto que «não se trata de lendas pagãs transformadas. São pressentimentos pagãos herdados».

Como identificou São Paulo em sua evangelização no Areópago, o Deus desconhecido próximo havia sido revelado na pessoa de Jesus Cristo. As lendas, mitos e fábulas pagãs haviam preparado durante milênios o mundo para a realidade da Encarnação.

A Encarnação, como escreveu a teóloga alemã Ida Görres, havia sido «intuída mil vezes, pressentida, conjeturada» pelos pagãos e por aqueles que aguardavam o Messias, mas em sua humilde morada talvez até a realidade superasse toda expectativa.

Como ocorria com as imagens pagãs fabricadas, segundo dizia São Pedro Crisólogo, porque «queriam ver com seus próprios olhos o que adoravam», o desejo de conhecer na carne o Criador das estrelas da noite faz parte da culpa feliz de Adão. Ainda hoje não devemos ser demasiado duros com aqueles que buscam, embora de forma extraviada e muitas vezes no lugar equivocado, o Único a quem tocar e abraçar.

O relato glorioso que será proclamado nas Missas de Natal ao longo desta semana e nos dias seguintes — uma progressão tão necessária de festins e celebração — é que Aquele que foi intuído tem, como escreveu Görres, «entrado no visível, para ser ouvido com os ouvidos, para ser tocado com as mãos».

Esta é a Boa Nova, sempre antiga e sempre nova, que deve ser proclamada de novo pela Igreja com paixão e força, especialmente quando ouvimos falar de novos buscadores da verdade. Deus, além de nossos sonhos mais audazes, veio a nós, não em triunfo, inacessível, avassalador e inalcançável, mas no balbucio de uma criança em uma manjedoura.

Vem uma vez mais para ser visto, tocado, adorado e consumido na Sagrada Eucaristia, o Rei oculto em seu palácio. Como disse Bento XVI: «Não pode haver uma fonte mais luminosa de alegria» — uma alegria intuída e tão necessária, a essência mesma de qualquer Nova Evangelização — «para os seres humanos e para o mundo, que a graça que tem aparecido em Cristo».

 

Sobre o autor

O P. Benedict Kiely é sacerdote do Ordinariato de Nossa Senhora de Walsingham. É fundador de Nasarean.org, uma iniciativa de ajuda aos cristãos perseguidos.

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