Por Daniel B. Gallagher
Quando comecei a devorar ficção católica na universidade, não conseguia entender por que J. F. Powers conectou imediatamente comigo e Flannery O’Connor (este ano se cumpre o centenário de seu nascimento) não o fez. Não era que um fosse melhor que o outro. A julgar por sua prosa, ambos são estilistas extraordinários.
O que então não soube reconhecer hoje me parece evidente. Nasci em Pittsburgh, cresci em Chicago e me formei na Universidade de Michigan. Quando li pela primeira vez O’Connor, sabia muito mais de trens, fábricas e nevascas que de ondas de calor, camarões fritos e pavões. Tudo o que sabia sobre a segregação racial eu havia lido em livros, incluindo os de O’Connor.
O Meio-Oeste dista muito de ser uma utopia igualitária, mas certamente carece da estrutura de classes sulista sobre a qual giram tantos argumentos de O’Connor. Se eu tivesse sido um leitor mais imaginativo, relatos como Everything That Rises Must Converge me teriam ensinado algo sobre uma cultura e um lugar dos quais eu não tinha absolutamente nenhuma experiência.
No entanto, sim conhecia algo de padres alcoólatras e da robustez afetada de muitas instituições católicas do Meio-Oeste, desde Notre Dame até os Cavaleiros de Colombo. Os relatos de Powers me fizeram rir e me mostraram as possibilidades narrativas de um autor capaz de descrever com engenho a cultura católica e clerical do Meio-Oeste através dos olhos do gato da reitoria.
Desde que me mudei para Savannah há um par de anos e trabalho a poucas quadras da casa onde O’Connor passou sua infância, tudo isso começou a mudar para mim. Não demorei a conhecer pessoas como Manley, o astuto vendedor de Bíblias de Good Country People, e a avó autossatisfeita de A Good Man Is Hard to Find.
Tenho visto pavões desplegarem seu plumagem na fazenda Andalusia de O’Connor em Milledgeville e me ajoelhei no mesmo banco onde O’Connor rezava de menina, vivendo a tiro de pedra da catedral de São João Batista. Embora sempre serei um homem do Meio-Oeste, começo a compreender o que significava para O’Connor ser sulista.
Mas não creio que chegue muito longe, e não há problema. Porque se algo aprendi ao reler O’Connor neste centenário de seu nascimento é que nunca terei que compreender completamente sua condição sulista para entendê-la, pelo menos não do modo em que a entende um sulista.
Vá onde vá, não posso evitar ser do Meio-Oeste, do mesmo modo que O’Connor não podia evitar ser outra coisa que sulista, já fosse em Iowa, Nova York ou Connecticut. Sua única visita à Europa não fez senão reforçar seu desejo de ficar no Sul.
Enquanto reunia forças em Roma, brincou dizendo que ela e sua mãe Regina —sua única companheira de viagem— «provavelmente acabaríamos atrás da Cortina de Ferro perguntando o caminho para Lourdes por gestos», e acrescentava que «minha vontade parece feita de uma pluma». Seus catorze anos de luta contra o lúpus nos fariam pensar o contrário, mas se simplesmente queria dizer que lhe faltavam forças não só para suportar as incomodidades de viajar, mas para se adaptar às culturas às quais isso a levava, é uma observação muito acertada.
Na mente de O’Connor, minha casa de infância, Chicago —onde Powers situa a primeira parte de sua grande novela Morte d’Urban—, está tão longe de Milledgeville como Roma. Cada detalhe de sua estada de cinco dias na Universidade de Chicago em 1959, «ajudando» a jovens escritoras, lhe resultou insuportável. Vivendo na residência universitária, O’Connor se viu obrigada a dar uma conferência pública à qual não assistiu ninguém e depois a sentar-se com as garotas «para tomar chá todas as tardes enquanto tentavam pensar em algo para me perguntar. O ponto mais baixo se alcançou quando —após uns bons dez minutos de silêncio— uma menina disse: “Senhorita O’Connor, quais são os costumes natalinos na Geórgia?”».
O’Connor encontrou a maneira de aplicar também à sua alma esta feroz lealdade ao lar. Não tolerava a falta de integridade quando se tratava da oração, já fosse a sua ou a de outros. Em uma carta à sua boa amiga Janet McKane, descreve seu intento de abrir-se caminho através de On the Theology of Death, de Karl Rahner, encontrando cada frase como uma luta imensa, mas perseverando assim mesmo para que «de vez em quando» lhe «chegasse o impacto».
A seguir confessa uma verdade que a maioria de nós deve reconhecer em algum momento de nosso caminho espiritual: «Não se me dá bem meditar. Isso não significa que passe diretamente à contemplação. Não faço nem uma coisa nem a outra. Se tento manter a mente nos mistérios do rosário, logo estou pensando em outra coisa, completamente alheia à religião. Assim que rezo minhas orações lendo o livro, prime pela manhã e compline pela noite. Gosto da ideia de Teilhard da Mass upon the World.»
«Mass on the World» é uma oração impressionante composta por Teilhard de Chardin, na qual imagina a consagração de todo o cosmos —com todas suas partículas, sua energia, seu conflito e seu sofrimento— sobre o altar na Missa. A teologia vanguardista de Teilhard pode ter-lhe valido uma advertência da Congregação para a Doutrina da Fé em 1962, mas isso não impediu que o Papa Bento XVI elogiasse sua «grande visão» de uma «verdadeira liturgia cósmica na qual o cosmos se converte em uma hóstia viva».
Vens de onde venhas, essa é a única coisa que há que entender se queres compreender a ficção de Flannery O’Connor. De fato, é a única coisa que há que entender se queres compreender a teologia de Bento XVI.
Se todo o cosmos é colocado sobre o altar, não importa se és de Chicago ou de Milledgeville. Não importa se preferes a O’Connor ou a Powers. Só importa que —seja em tua disposição social ou em tua oração— estejas «em casa» e te coloques tu também sobre esse altar.
Sobre o autor
Daniel B. Gallagher imparte aulas de filosofia e literatura no Ralston College. Anteriormente foi secretário de latim dos Papas Bento XVI e Francisco.