Quo vadis, SSPX? — O dos seis Lefebvres

Quo vadis, SSPX? — O dos seis Lefebvres

Padre Federico Highton, S.E. / ACN.- A Santa Sé promoveu um diálogo com a SSPX e esta respondeu aceitando o mesmo na Carta do Padre Pagliarani a Monsenhor Pozzo de 17/1/19 em que o superior da SSPX propõe como interlocutores por parte da Fraternidade a “los Padres Arnaud Sélégny, Guillaume Gaud e Jean-Michel Gleize”.

Esse diálogo ficou truncado e o Padre Pagliarani em 18/2/26 queixou-se culpando Roma, dizendo que “o Dicastério não mostrou realmente interesse por tal discussão, alegando –de forma oral– que era impossível chegar a um acordo doutrinal entre a Santa Sé e a Fraternidade São Pio X” (Resposta do Conselho Geral da Fraternidade São Pio X ao Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé). Por isso, ante o medo de postergar as consagrações (devido a que os dois bispos sobreviventes da SSPX são idosos), a SSPX cancelou o diálogo com a Santa Sé.

I.-Agora bem, podemos nos perguntar se a SSPX queria realmente dialogar com a Santa Sé. A resposta parece negativa já que depois de que vários apologistas católicos tivessem denunciado o cisma lefebvrista, o Padre Gleize (um dos três encarregados lefebvristas do diálogo com Roma) respondeu, com algum circunlóquio linguístico, dando a entender que SS Leão XIV é cismático.

Fez-no em seu artigo “Onde está o cisma?”[1], publicado em 19/3/26 em um site oficial da SSPX, no qual dá a entender que o Papa é cismático. Diz-no com estas palavras:

O cisma existe, certamente. Mas não está onde Mons. Eleganti crê vê-lo. E está onde ele não o vê. O cisma é esse ecumenismo descarado perseguido com obstinação pelo Papa Leão XIV.

Tendo em conta o dito pelo Padre Gleize e que este foi um dos três delegados pelo Padre Pagliarani para o diálogo com Roma (e visto que sua pertença ao elenco da “mesa dialogante” foi mencionada em um dos anexos de sua recente carta a DDF onde renuncia ao diálogo), procedemos a fazer três perguntas ao superior da SSPX:

 Visto e considerando que dialogar com cismáticos é ecumenismo, que a SSPX condena o ecumenismo como uma heresia vaticanosegundista e que o Padre Gleize considera que SS Leão XIV é cismático, por que a SSPX diz que quer dialogar com o Papa?

 Visto e considerando que, segundo a SSPX, não há nada a negociar com os cismáticos e que o Padre Gleize considera que SS Leão XIV é cismático, que sentido tem pretender conseguir uma permissão papal para consagrar bispos? Esta, de fato, foi, in nuce, a crítica do bispo Williamson contra a SSPX e por isso ele fundou “A Resistência”, grupo de lefebvristas que rejeitam a nível de princípio todo diálogo com o Papa[2].

Pode haver um “Papa cismático”? Não é isso um oxímoron? Se um Papa é cismático não é Papa mas antipapa e então a sede está vacante. Ergo o Padre Gleize (escolhido pela SSPX para dialogar com a Santa Sé) é implicitamente sedevacantista, e com ele parece sê-lo hoje toda a SSPX.

A escolha do Padre Gleize, como membro da tríade da SSPX para dialogar com Roma, demostra que a SSPX não quer dialogar, já que para o Padre Gleize o Papa é cismático. Alguém dirá que a posição do Padre Gleize é pessoal e não representa a SSPX, por mais que seu artigo tenha sido publicado em um site oficial da SSPX.

II.- Alguém talvez dirá que quando o Padre Gleize foi nomeado delegado para o diálogo (lá em 2019) talvez não acreditasse que o Papa fosse cismático e que não necessariamente agora a SSPX o ia nomear a ele como delegado em uma eventual nova mesa de diálogo. Estas são objeções que pareceriam razoáveis mas a realidade é que o P. Gleize não faz mais que seguir a posição que em 1976 tinha Mons. Lefebvre, quem em 29/6/76, com ocasião de sua suspensão a divinis, declarou que SS Paulo VI era cismático:

Estamos suspensos a divinis por e para a igreja conciliar, à qual não desejamos pertencer. Esta igreja é cismática, pois rompe com a Igreja católica de sempre. Tem novos dogmas, um novo sacerdócio, novas instituições, um culto novo. Tudo isso já foi condenado pela Igreja em muitos documentos oficiais e definitivos…

 A Igreja que afirma tais erros é ao mesmo tempo cismática e herética. Esta igreja conciliar não é, portanto, católica. Na medida em que o papa, os bispos, os sacerdotes ou os fiéis se adiram a esta nova igreja, assim se separam da Igreja católica (Reflexões sobre a Suspensão ‘a divinis’).

Alguém nos objetará que o P. Gleize não representa a Mons. Lefebvre já que depois de ter dito o que disse, depois do abraço que lhe deu SS João Paulo II (que teve lugar em 18/11/78[3]), Mons. Lefebvre mudou de opinião e se abriu ao diálogo com Roma aprovando o Vaticano II e a Reforma Litúrgica ao declarar em 8/3/80, o seguinte:

Santo Padre:

 Para pôr fim a algumas dúvidas que agora circulam em Roma e em certos círculos tradicionalistas da Europa e América no referente à minha atitude e pensamento respecto do Papa, o Concílio e a Missa do Novus Ordo e temendo que estas dúvidas cheguem até Vossa Santidade, permiti-me de novo dizer o que sempre expressei…

 Que estou completamente de acordo com o juízo de Vossa Santidade sobre o Concílio Vaticano Segundo, feito em 6 de novembro de 1978 na reunião do Sagrado Colégio. Que o Concílio deve entender-se à luz de toda a Sagrada Tradição e em base ao constante magistério da santa Igreja.

 Respecto à Missa do Novus Ordo, apesar de todas as reservas que se tenham, eu nunca disse que em si seja inválida ou herética.

Isso nos põe em uma disjuntiva: a qual Lefebvre segue a SSPX? Ao “Lefebvre-pré-abraçado” que declarou o “cisma papal” em 29/6/76 ou ao “Lefebvre-pós-abraçado” que, menos de quatro anos depois, aprovou o Vaticano II e a Missa “Nova” em 8/3/80? Qual é, então, a postura lefebvriana pura? A questão não é fácil já que há pelo menos “cinco Lefebvres”.

 

Inicialmente (esta é a primeira época) Mons. Lefebvre aprovou o Vaticano II, como se vê no fato de que assinou todas as atas conciliares e exortou a seguir íntegramente o Vaticano II (cf. Carta de 6/1/66[4]).

A segunda época é o “primeiro Lefebvre duro”: o da declaração de 21/11/74, que é a das “Duas Romas” (há pouco celebrada pela SSPX) e a oximorônica denúncia do “Papa Cismático” feita em 29/6/76. Esta época terminou quando SS João Paulo II surpreendeu a Mons. Lefebvre abraçando-o em 18/11/78.

O abraço pontifício deu começo à terceira época que é a de um Mons. Lefebvre sãmente conciliador que aprovou o Vaticano II e a Reforma Litúrgica e dialogou com Roma para obter a regularidade canônica.

Passado um tempo, começou a época ambivalente onde seguia dialogando e negociando com Roma mas se registram declarações violentas que configuram um sedevacantismo virtual, como se vê nesta declaração da Carta aos futuros bispos de 29/8/87:

 

Meus queridos amigos:

 Estando a Sé de Pedro e os postos de autoridade em Roma ocupados por anticristos, está-se levando a cabo rapidamente a destruição do reino de Nosso Senhor ainda dentro de seu Corpo Místico aqui embaixo, especialmente através da corrupção da santa Missa, a qual é magnífica expressão de triunfo de Nosso Senhor sobre a cruz — Regnavit a Ligno Deus — e fonte da extensão de seu reino sobre as almas e as sociedades.

Apesar desta violência filo-vacante, graças à paciência de SS João Paulo II, esta época quase culminou na conversão e regularização já que Mons. Lefebvre em 5/5/88 ratificou um “Protocolo de acordo” com o Card. Ratzinger que dizia o seguinte:

Eu, Marcel Lefebvre, Arcebispo-Bispo Emérito de Tulle, assim como os membros da Fraternidade São Pio X fundada por mim: Prometemos ser sempre fiéis à Igreja Católica e ao Romano Pontífice, seu Pastor Supremo, Vigário de Cristo, Sucessor do Beato Pedro em seu primado como cabeça do corpo dos bispos. Declaramos nossa aceitação da doutrina contida no § 25 da Constituição Dogmática Lumen gentium do Concílio Vaticano II sobre o Magistério eclesiástico e a adesão que lhe é devida. Sobre certos pontos ensinados pelo Concílio Vaticano II ou concernentes a posteriores reformas da liturgia e do direito, e que não nos parecem facilmente conciliáveis com a Tradição, nos comprometemos a ter uma atitude positiva de estudo e comunicação com a Sé Apostólica, evitando toda polêmica. (…)[5].

 

Infelizmente, no dia seguinte à assinatura mudou radicalmente de opinião rejeitando o Papa, dando assim começo à seguinte época.

A quinta e última época é a do “segundo Lefebvre duro”, que não só rejeita o diálogo com o Papa mas exorta a todos os fiéis a se afastarem do Papa como quem se afasta do HIV. É o Lefebvre das consagrações do ’88. Esta foi a última época já que acabou com sua morte excomungado. De fato, nesta época a virulência foi tal que Mons. Lefebvre chegou a acusar ao Card. Ratzinger e a toda Roma de terem “perdido a fé”, de ter “SIDA espiritual” e não ter a graça de Deus” (Carta aos eleitos do bispo, 13/6/88). Uns meses depois, Mons. Lefebvre retoma a analogia do SIDA pedindo um afastamento total de Roma:

É em Roma que a heresia se instalou. (…) Se nos distanciamos deste tipo de gente, é com a mesma precaução que se toma para com as pessoas que estão com sida. Não nos queremos contaminar. Agora, eles estão com sida espiritual, é uma doença contagiosa. Se queremos guardar a saúde, não devemos aproximar-nos deles… É por isso que não nos podemos relacionar com Roma (Conferência aos Sacerdotes em Ecône, Fideliter 66, nov.-dez. 1988, pp. 27-31).

 

Esta última época foi tão dura que Mons. Lefebvre aceitou como co-consagrante dos quatro bispos a Mons. Castro Mayer, que já pouco antes do ’88 professava um cripto-sedevacantismo, como se desprende esta declaração sua em uma entrevista concedida ao Jornal da Tarde:

A igreja que se adere formal e totalmente ao Vaticano II, com suas heresias, não é nem pode ser a Igreja de Jesus Cristo. A fim de pertencer à Igreja católica, a Igreja de Cristo, é necessário ter a fé, isto é, não duvidar de ou negar um só artigo da Revelação. Agora, a igreja do Vaticano II aceita as doutrinas heréticas, como vimos (O Católico Romano, agosto de 1985).

 

Alguém poderia aportar uma objeção tirada pelos cabelos e dizer, como fazem alguns sacerdotes lefebvristas, que Mons. Lefebvre não aprovou as atas conciliares. Mas, se é assim então, há pelo menos seis Lefebvres: 1) primeira época dura; 2) época obediente (expressada na carta de 6/1/66); 3) segunda época dura (até 18/11/78); 4) época conciliadora; 5) época ambivalente e 6) terceira época dura.

III.- O dito nos leva a enunciar três conclusões que mostram que o dinamismo de a SSPX é errático, contraditório e messiânico.

Primeiro, o dinamismo da SSPX é errático já que Mons. Lefebvre aprovou pelo menos três vezes o Vaticano II: (a) ao assinar as Atas Conciliares e na Carta de 6/1/66; (b) depois do abraço papal ao declarar-se “completamente de acordo com o juízo de Vossa Santidade sobre o Concílio” (8/3/80) e (c) em 5/5/88 ao assinar a proposta de acordo feita pela Igreja aprovando basicamente o Vaticano II. Isso desmonta a narrativa simplista que apresenta a um Mons. Lefebvre sempre oposto ao Vaticano II.

Segundo, o dinamismo da SSPX é contraditório e o é não só pelo anterior, mas também porque o diálogo da SSPX com a Santa Sé é impossível já que atualmente, a tenor das declarações do Padre Gleize, a SSPX considera que o Papa é cismático (recordemos que na SSPX ninguém fala a título pessoal, menos ainda em um assunto tão grave[6]).

Terceiro, o dinamismo da SSPX é messiânico já que se a SSPX declara que o Papa é cismático, implicitamente está afirmando que a Igreja subsiste na SSPX (e em uma constelação de indivíduos soltos por aqui e por ali afins às suas teses quomodo subordinada à SSPX).

O mesianismo lefebvrista vai tão longe que depois da consagração sacrílega dos quatro bispos para a SSPX em 1988, Stefano Paci, um repórter para 30 Days sustentou uma entrevista com Mons. Lefebvre, e o seguinte extrato se encontrava em sua edição de julho/agosto:

 PACI: E agora, que prevê Vd. para o futuro da Fraternidade em suas relações com a Igreja de Roma?

 LEFEBVRE: Espero que dentro de uns anos, máximo quatro ou cinco anos, Roma terminará fazendo um acordo conosco.

PACI: E se isso não ocorrer?

LEFEBVRE: Roma permaneceria longe da Tradição, e seria o fim da Igreja.

O dinamismo da SSPX é messiânico pelo menos por um motivo ulterior: se a SSPX declara que o Papa é cismático, a única solução para a Igreja é que Ela se converta ao lefebvrista e eleja um Papa da SSPX (o qual não só implica que seja um Papa de impecável currículo teológico mas que tenha sido consagrado, absolute ou sub conditione, pela SSPX). De todos os modos, se isso chegasse a suceder, quase seguramente uma parte da SSPX estará descontente com o Papa lefebvrista já que o acusará de liberal, posto que sempre haverá algum ponto (real ou aparente) para acusar ao próximo de modernista (veja-se se não a veemente disputa do pós-williamsoniano Padre Cardozo -um dos quatro fundadores de “A Resistência” no Brasil- contra os williamsonianos) e assim se repetirá o “ciclo lefebvriano”: protesto – desobediência – cisma – excomunhão – ramificações internas – novos cismas.

Terminemos assinalando que o lefebvrista encerra uma série de dilemas concatenados impressionante que termina entretendo e até fascinanto o intelecto já que lhe dá abundante matéria para a descoberta de absurdos, paradoxos e contradições, que nos deram matéria de reflexão, que originou estas linhas, escritas em boa parte durante um engarrafamento em terra de mouros e medialunas causado pelo “ano novo persa”, como aqui o chamam. Terminemos aqui já que me resta 2% de bateria.

Quo vadis, SSPX?

Padre Federico Highton, S.E.

21/III/26 (São Bento Abade), Qharga, Afeganistão.

 

[1] https://fsspx.news/es/news/donde-esta-el-cisma-57949. Os destacados das citações são nossos.

[2] Houve uma concausa da escisão williamsoniana que foi “a questão dos seis milhões de judeus”, sobre o qual há numerosos escritos, entre os quais está o do Dr. Antonio Caponnetto, mas deixemos, por esta vez, essa questão de lado.

[3] https://elpais.com/diario/1978/11/21/sociedad/280450809_850215.html

[4] https://www.infocatolica.com/blog/maradentro.php/2602280501-mons-lefebvre-apoyo-el-vatica

[5] https://laportelatine.org/formation/crise-eglise/rapports-rome-fsspx/protocole-daccord-etabli-entre-le-cardinal-ratzinger-et-mgr-lefebvre-du-5-mai-1988

[6]“Em nossa congregação os sacerdotes não atuam de maneira autônoma, expressando opiniões privadas, mas que são eco da posição da Fraternidade São Pio X, que, em definitiva, é a posição católica pura” (https://centroamerica.fsspx.org/es/news/comunicado-distrito-america-del-sur-respuesta-padre-federico-highton-27383).

Ajude a Infovaticana a continuar informando