O México afunda-se em um pântano de corrupção que já não se disfarça. De acordo com o Índice de Percepção de Corrupção 2025 da Transparência Internacional, o país obteve apenas 27 pontos de 100 e posicionou-se no 141º lugar entre 182 nações avaliadas. É o pior registro histórico na OCDE e um dos mais baixos do G20. Um ponto de “melhora” em relação aos 26 de 2024 não engana ninguém: a percepção de podridão institucional estagnou no mais baixo. O INEGI confirma com crueza: no primeiro semestre de 2025, 45,2 % dos mexicanos em zonas urbanas foram vítimas de algum ato corrupto ao lidar com autoridades. A corrupção já não é um problema, é o sistema em si.
O regime que chegou prometendo “transformação” e “república austera” construiu, em vez disso, uma corruptocleptocracia descarada e consentida. Chegaram com o lenço branco erguido e o lema “não somos iguais”. Hoje esse lenço está sujo e a frase soa como sarcasmo zombeteiro. Porque o que fizeram foi tomar o poder para se firmar nele e enriquecer-se dele, exatamente como aqueles que tanto criticaram.
O huachicol, aquele mal que se jurou erradicar com operações espectaculares, escassez de gasolinas e discursos triunfalistas, não desapareceu: mutou e sofisticou-se. Hoje falamos de huachicol fiscal, um esquema industrial de contrabando de combustíveis através de portos e alfândegas que gera perdas milionárias e opera com a complacência —quando não com a participação direta— de funcionários de alto nível e comandos das forças armadas. Personagens ligados a negócios turvos e a grupos criminosos são tolerados, protegidos e até associados em operações estratégicas. A mensagem é clara: certos delitos contra o patrimônio nacional são negociáveis se beneficiam o círculo do poder.
Pior ainda é o escândalo dos contratos diretos adjudicados sem licitação, amparados na fórmula da “segurança nacional”. Milhares de milhões de pesos são distribuídos a dedo a empresas favorecidas, muitas delas ligadas aos mesmos atores que aparecem em investigações por lavagem de dinheiro, faturamento falso ou nexos delituosos. Evade-se a transparência, burla-se a concorrência e rouba-se o povo sob o pretexto de protegê-lo. Enquanto isso, a classe política do regime exibe seu cinismo e regodeia-se em salários exorbitantes, pensões milionárias, mansões, jatos privados e festas de luxo e em meio à suposta austeridade. O despilfarro é a norma; o escândalo, o costume.
Neste pântano moral ressoa a voz dos bispos do México. Em seu Projeto Global de Pastoral 2031-2033, os pastores denunciam sem ambiguidades “a corrupção que corrói as entranhas da nossa sociedade”, junto com a impunidade, a violência e o narcotráfico que a acompanham. Chamamm a uma conversão profunda, a recuperar a honestidade como valor irrenunciável e a construir, a partir da fé e da ação cidadã, um México onde a dignidade das pessoas não seja moeda de troca. Sua denúncia não é política; é moral. E dói mais porque é verdade.
A corrupção no México já não é um mal endêmico, é um projeto de poder. Tolera-se, protege-se e premia-se porque sustenta o regime e seus aliados. Permite-se que certos personagens continuem operando porque seus negócios —legais e ilegais— alimentam e lubrificam a maquinaria do movimento. Concedem-se contratos multimilionários porque garantem lealdade. Mantêm-se salários e privilégios obscenos porque a elite política decidiu que o povo pague suas orgias e indecências.
Chegou a hora de dizê-lo sem eufemismos: as promessas de lencinhos brancos e de “não somos iguais” foram o álibi perfeito para fazer o mesmo —e pior— que os anteriores. A corrupção não se combateu; capturou-se. Não se reduziu; institucionalizou-se. E enquanto a sociedade continuar calando ou resignando-se, esta cleptocracia continuará devorando o futuro de milhões de mexicanos.
A luta contra a corrupção não é um assunto de partidos nem de governos. É um imperativo ético, cristão e republicano. Os bispos o disseram. A realidade o grita. Só falta que o povo, farto de tanto cinismo, exija com força o que lhe roubaram: um país decente.