Este Domingo de Ramos de 2026, as palmas agitam-se nas igrejas e comunidades enquanto a liturgia proclama Jesus Cristo como Rei. “Bendito o que vem em nome do Senhor!”, cantamos com o mesmo entusiasmo que os habitantes de Jerusalém há dois mil anos.
No entanto, mal iniciada a Semana Santa, o contraste entre essa aclamação e a realidade do nosso mundo ocidental resulta triste, desconcertante e desolador. A mesma sociedade que recorda o Rei da Vida tolera, normaliza e até celebra uma crucificação moderna, a eutanásia de uma jovem de pouco mais de vinte anos, empurrada ao suicídio assistido por um sistema que prefere matar a curar, que prefere a morte “digna” ao esforço de enaltecer a vida.
As razões pessoais de Noelia Castillo, sem dúvida, foram uma acusação de seu abandono que a levou a um profundo dilema existencial. O caso não é isolado, mas dói com especial crudeza pela idade da vítima e a frialdade legal com que se executou, inclusive isolada de qualquer forma de companhia de familiares ou amigos.
Uma jovem que, segundo o padre José Guillermo Gutiérrez Fernández, reconhecido sacerdote e acadêmico mexicano especialista em bioética, “não recebeu a ajuda adequada”. Em vez de oferecer-lhe acompanhamento integral —psiquiátrico, psicológico, espiritual e social—, o poder público e as clínicas da morte lhe apresentaram a eutanásia como solução rápida e “compassiva”. O egoísmo do sistema, disfarçado de autonomia e progresso, decidiu que era mais barato e mais limpo eliminar o sofrimento do que remediá-lo e aliviá-lo. Assim, a cultura da morte empaña o dom da Páscoa, enquanto recordamos a crucificação de Cristo inocente, consentimos a crucificação legal de inocentes desesperados.
O padre Gutiérrez Fernández o disse com clareza dolorosa, a jovem já não está em nossas mãos. Confianciando na misericórdia infinita que “já a está fazendo viver da vida em Deus”. Essa confiança não é ingenuidade nem relativismo. É a fé em um Deus que não abandona aquele que, em sua angústia, toma uma decisão desesperada. Mas essa misericórdia divina não exime a sociedade de sua culpa nem tampouco à Igreja católica. Alguns quererão condenar a moça por ter “escolhido” a eutanásia como fim último. Esquecem que a verdadeira responsabilidade recai sobre aqueles que criaram as condições para que essa “escolha” fosse a única porta aberta, legisladores, juízes, médicos e meios que converteram a morte em um direito e a vida em uma carga negociável.
Esta Semana Santa não pode se reduzir a procissões ou turismo religioso de puro espetáculo e sentimentalismo. É, ou deveria ser, uma oportunidade urgente de conversão pessoal e coletiva. O Ocidente atravessa uma crise antropológica profunda que nos afunda no sem sentido e no desespero. Temos esvaziado a vida de transcendência, reduzimos o ser humano a um conjunto de ‘direitos subjetivos’ e, quando o sofrimento aparece, em vez de redimi-lo como fez Cristo na Cruz, o eliminamos. A eutanásia não é um avanço; é a derrota moral de uma civilização que já não sabe defender a dignidade do mais fraco.
Diante disso, a Páscoa grita que a vida sempre vale a pena. Que a dor, por intensa que seja, não é o final. Que a verdadeira compaixão não mata o que sofre, mas senta-se ao seu lado, como o Cireneu com Jesus. A conversão que reclama esta Semana Santa passa por rejeitar a lógica utilitarista que mede as pessoas por sua “qualidade de vida” ou por seu custo para o Estado. Passa por exigir políticas que invistam em saúde mental, em cuidados paliativos reais e em acompanhamento integral. Passa, sobretudo, por recuperar a certeza de que cada vida humana é sagrada porque é imagem de Deus, mesmo quando essa imagem estiver ferida e quebrada.
Cristo entra em Jerusalém montado em um burrinho, não em um carro triunfal. Vem humilde, mas rei. Vem reinar desde a Cruz. Que esta Semana Santa de 2026 não seja apenas uma lembrança piedosa, mas um chamado à ação. Que o mesmo povo que hoje agita palmas tenha a coragem de gritar amanhã contra a cultura da morte porque se não defendermos a vida da jovem de vinte anos que foi abandonada à sua desesperação, então nossa aclamação de “Hosanna!” é pura hipocrisia.
A Ressurreição está próxima, mas só ressuscitaremos como sociedade se antes aceitarmos que crucificamos —uma e outra vez— o inocente. Que esta Semana Santa seja, de verdade, o começo de nossa conversão que é radicalmente distinta da transformação