Ao iniciar a Semana Santa de 2026, na Insigne e Nacional Basílica de Santa Maria de Guadalupe, coração mariano do México e um dos santuários mais visitados do mundo, prevalecem as suspeitas e o silêncio institucional. Os resultados definitivos das investigações preliminares sobre o reitor, o cânone Efraín Hernández Díaz, vigário episcopal de Guadalupe, continuam sem ver a luz. Enquanto milhares de peregrinos se preparam para viver a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor no lugar onde a Virgem apareceu ao índio Juan Diego, a ausência de respostas lastima a confiança de um povo que, geração após geração, tem depositado neste santuário sua devoção mais profunda.
Este 2026 marca um aniversário simbólico, os 50 anos da inauguração da nova Basílica, em 12 de outubro de 1976. Aquela obra moderna, projetada por Pedro Ramírez Vázquez, representou então um ato de renovação pastoral e arquitetônica para receber o México urbano e crescente do século XX.
Nunca antes uma Semana Santa na Basílica moderna havia estado marcada por este nível de incerteza, que não só questiona a gestão de um reitor e o dever de um arcebispo, mas que abre um debate que já tem antecedentes que valem a pena trazer à memória.
A partir da década de 1950, os bispos do México impulsionaram a criação de novas dioceses com um propósito eminentemente pastoral, respondendo ao explosivo crescimento demográfico do país. A criação da moderna Conferência do Episcopado Mexicano permitiu uma organização eclesiástica mais afiançada.
No que se refere à arquidiocese do México, que em outro tempo abrangia um território imenso que incluía grande parte do Vale do México e zonas adjacentes, tem experimentado um processo sustentado de redução. Nos últimos cinquenta anos, dividiu-se e subdividiu-se em distintas demarcações eclesiásticas, dando origem a dioceses como Toluca, Tula, Tlalnepantla, Texcoco, Cuautitlán, Atlacomulco, Nezahualcóyotl e, em tempos mais recentes, Azcapotzalco, Xochimilco e Iztapalapa.
Os bispos mexicanos têm defendido sistematicamente esta fragmentação sob o argumento da “maturidade pastoral”: um território que atinge certo nível de desenvolvimento eclesial, com clero formado, estruturas paroquiais consolidadas e capacidade para autogestionar-se, merece converter-se em diocese independente. Esta lógica tem sido aplicada em dezenas de casos ao longo do país.
Precisamente como parte dessa história de desmembramento da arquidiocese do México, em 1984 e 1989 apresentaram-se propostas formais de subdivisão, incluindo cartas dirigidas ao Santo Padre solicitando a criação de novas circunscrições.
Nesse contexto surgiu uma situação especial em relação à Basílica de Guadalupe. Existem precedentes documentados no Episcopado Mexicano segundo os quais o Santuário Nacional poderia converter-se em sede episcopal de uma demarcação pastoral conveniente. Chegou-se a plantear que existiam condições objetivas de maturidade para que o Tepeyac deixasse de ser uma abadia ou vicaria dependente e assumisse uma autonomia maior, acorde com sua dimensão nacional e internacional.
No entanto, em 1990 os bispos optaram por manter a unidade da Basílica com a arquidiocese do México. Em 11 de agosto daquele ano, o então secretário da CEM, arcebispo de Tlalnepantla, Manuel Pérez Gil, declarou publicamente que uma eventual modificação da arquidiocese primada “chegaria a modificar as condições do Santuário nacional da Basílica de Guadalupe”.
Essa afirmação da CEM durante a década de 90, reconhecia implicitamente que o santuário não era um templo mais, sua personalidade jurídica como Santuário Nacional o colocava em uma categoria singular, com obrigações e direitos que transcendem a mera dependência territorial.
Hoje, rumo aos 50 anos da inauguração da nova Basílica, resulta evidente que aquela decisão de 1990 não resolveu o fundo do problema. Basílica de Guadalupe não é uma paróquia ordinária nem deveria ser uma vicaria mais. Milhões de fiéis de todo o país e do continente a consideram “sua casa”. Exige, portanto, um tratamento especial como parte da “evolução pastoral” que o próprio santuário demanda. Mantê-lo subsumido sob a estrutura da arquidiocese do México, sem uma governança adaptada à sua realidade única, equivale a ignorar a maturidade que os próprios bispos haviam reconhecido do recinto em momentos de sua história.
A opacidade atual em torno ao reitor não é um incidente isolado. É o sintoma visível de uma estrutura que não tem evoluído ao ritmo que a história e a fé do povo exigem. Enquanto ainda não se derem a conhecer os resultados das investigações, a credibilidade do santuário se erode.
Reafirmando aqueles durante os anos 90, cabe questionar com severidade e peculiar crudeza: como é possível que, nestes 50 anos da Basílica moderna, nunca se tenha vivido uma Semana Santa com este grau de suspeitas e situações que lesionam e lastimam a fé, a confiança e a credibilidade dos católicos mexicanos? O arcebispo do México, em sua qualidade de custodio principal do santuário, tem falhado em colocar a verdade como primeiro compromisso que demonstre sua adesão ao Evangelho. Em lugar disso, tem privilegiado a opacidade, a mentira e o descrédito, que não são senão obras do pai da mentira.
Parafraseando as célebres palavras de Paulo VI, a fumaça de Satanás se meteu na Basílica de Guadalupe. A firmeza pastoral do Cabido se traduziu em uma valentia pastoral que o momento exige, mas a fumaça segue se colando. A Semana Santa de 2026 não só recorda a Paixão de Cristo; também revela, dolorosamente, a paixão de uma Igreja que, em seu santuário mais querido, merece viver de cara à Verdade.