E todos choravam

Os Reis presidem em Huelva o funeral pelas vítimas do acidente ferroviário de Adamuz

Invocação emocionante à Virgem no funeral por Adamuz

https://www.religionenlibertad.com/multimedia/260130/emocionante-invocacion-virgen-funeral-adamuz-huelva_116285.html

Texto da preciosa, sentidíssima e emotiva intervenção da filha de uma das falecidas no funeral:

«Majestades, excelentíssimas autoridades civis e eclesiásticas que nos acompanham. Hoje, quando o vendaval que percorre o nosso interior parece tentar acalmar-se, queremos começar estas palavras dando as graças.

Em primeiro lugar, graças à nossa Diocese por este funeral, o único funeral que cabia nesta despedida, pois a única presidência que queremos ao nosso lado é a de Deus que hoje aqui se fez presente no pão e no vinho sob o olhar de sua mãe, em sua advocação cinteña. Huelva é uma terra mariana, Andalucía é um povo crente e é abraçando sua cruz onde encontramos maior consolo. Graças aos que nos acompanham por amor, por compaixão, por empatia… Graças, inclusive, aos que o fazem por agenda.

Graças ao povo de Adamuz, esse pequeno rincão que nunca esqueceremos e que nunca esquecerá, assim como à cidade cordovesa, aos que nos sentimos e nos sentiremos unidos para sempre… sem pensar nas consequências, não duvidaram em mergulhar no caos dos ferros retorcidos, do sangue, da dor e das lágrimas. Acompanharam os nossos feridos até estarem seguros de que estavam a salvo e depois, nos acompanharam em nosso lamento. Puseram à nossa disposição o sustento e o abrigo daqueles dias amargos, mas acima de tudo, puseram todo o seu carinho, sua entrega e seu desejo de fazer com que aquele duro momento doesse um pouco menos.

Graças aos corpos de segurança e emergências que acorreram prestos, como sempre, ao chamado… fizeram o que puderam com a informação e os meios de que dispunham… graças pela vossa empatia, vossa proximidade e vosso afeto nos dias posteriores.

Graças ao sistema de saúde andaluz, sem dúvida sustentado pelos profissionais que o integram. Eu sei o que é voltar para casa após uma guarda ruim e abraçar os teus filhos porque sabes que alguém já nunca poderá voltar a fazê-lo com o seu. Eu sei o que é tentar curar o corpo de alguém que tem a alma ferida de morte… deve ter sido duríssimo, companheiros, graças. Graças ao pessoal e voluntários da Cruz Vermelha, que não largaram a nossa mão em nenhum momento… se não podes curar, alivia… se não podes aliviar, consola… se não podes consolar, acompanha.

Graças às nossas instituições autonómicas, que se puseram na frente desde o minuto zero, suportando o caos e os embates da nossa própria angústia… permiti-me, no entanto, uma crítica à lentidão da informação pois, crede-me, é melhor saber do que imaginar. Graças também, como não, às pequenas corporações locais cujos vizinhos iam correndo a voz de que algo grave estava açoitanto os alicerces da comunidade sentiram o nosso quebranto como o seu próprio… querida Pilar, queridos prefeitos… demonstrastes que há que ser grandes como pessoas para poder ser grandes como servidores públicos.

«Infinitas graças a Huelva»

E graças, infinitas graças a Huelva, a nossa querida cidade abençoada pelo sol, que não deixou de nos arropar de uma forma extraordinária, fazendo-nos chegar a grandeza do seu amor e a sua própria dor, tentando assim que a nossa fosse um pouco menos dilacerante. E assim foram passando os dias e a dor vai deixando passo aos recordos e o nosso coração, ainda com a mesma espada cravada, começa a esboçar pequenas e tímidas sorrisos quando mil estampas passadas irrompem continuamente na nossa mente.

Eu teria algo mais de poucos anos quando um dia perguntei à minha mãe… «mamãe, quanto dinheiro ganhas?»… suponho que seria algo que falávamos entre crianças… «o justo, carinho» -disse ela- «porque o que fica na minha conta no final do mês, não é meu»… «e de quem é, mamãe?», perguntei porque não o compreendia… «dos demais», disse ela. Assim era a minha mãe… generosa com tudo o que tinha, generosa com as suas vontades, generosa com o seu tempo, generosa com os seus sorrisos… assim era ela.

E é que o que perdemos aquele fatídico domingo 18 de janeiro não era só uma cifra… eram vagões cheios de virtudes e defeitos, eram vagões cheios de triunfos e derrotas, eram vagões cheios de anseios e silêncios… eram vagões cheios de esperança. Porque eles não são só os 45 do trem… eles eram os nossos pais, mães, irmãos, filhos ou netos. Eles não são só os 45 do trem… eles eram a alegria dos nossos despertares e o refúgio das nossas penas. Eles não são só os 45 do trem… eles eram a ilusão de buscar um futuro melhor, a alegria de desfrutar momentos em família ou o desejo de voltar com os nossos seres queridos… eles eram isso que já nunca serão. Porque eles não são só os 45 do trem, eles eram parte de uma sociedade tão polarizada que começou a resquebrajar-se há muito tempo e não nos estamos a dar conta. Eles não são só os 45 do trem… mas são os 45 do trem.

E nós… nós somos as 45 famílias a que se lhes parou o relógio às 7:45 daquela fatídica tarde. Somos as 45 famílias que se abraçaram naquele centro cívico, onde o passo do tempo se ia inundando de silêncio e o silêncio ia deixando passo ao choro quando começámos a compreender no lento avanço das horas que voltaríamos sem eles. Somos as 45 famílias que aprenderam com demasiada crueldade que a chamada que não se faz fica sem fazer e o beijo que não damos é o que mais recordamos. Somos as 45 famílias que trocariam todo o ouro deste mundo, que agora não vale nada, por poder mover os ponteiros do relógio tão só 20 segundos. E também somos as 45 famílias que lutarão por saber a verdade porque só a verdade nos ajudará a curar esta ferida que nunca fechará. Saberemos a verdade, lutaremos para que nunca haja outro trem, mas o faremos desde a serenidade, desde o alívio, desde a paz de saber que nos braços da Virgem agora dormem e o regaço de uma mãe que os quer é quem os embala.

Somos as 45 famílias que lutarão por saber a verdade porque só a verdade nos ajudará a curar esta ferida que nunca fechará

Virgencita de la Cinta, padroeira deste grande povo, dá-lhes paz, serenidade, descanso eterno. Virgem bela, virgem bonita, não os largues da tua vera, que não sintam a dor, que não sintam a miséria. Que o amor e a verdade os cubra para sempre e no abraço de Deus a vida vença à morte. Mãe da Almudena, virgem que guia o caminho, leva-lhes o beijo mudo, esse adeus que não lhes demos. Remédios, mãe querida, rainha do Aljaraqueño, oferece-lhes as tuas firmes mãos que já nunca tenham medo. Mãe do amor hermoso, rainha da Vitória, Dolores do negro luto, concede-lhes tu a glória. E guia também as nossas vidas, humilde Virgem do Sol, e que a misericórdia lata no nosso coração. Faz que cesse esta dor, Virgem morena do Carmen, leva-te esta cruel espada com a espuma dos mares.

E tu, Virgem do Rocío, a que ilumina os meus desvelos, a que sempre me acompanha quando me rompo por dentro, abraça os seus corações e leva-lhes um suspiro com uma canção de amor pelos anos compartilhados. Diz-lhes que temos paz e que seremos valentes, que o ódio não nascerá na raiva que nos cresce. Que voltarão os sorrisos e seguiremos vivendo e este amor não morrerá, viverá dos seus recordos. Diz tu, Blanca Paloma, Pastora da Rocina, que sempre os sentiremos com o sol ou com a brisa, e que com fé esperaremos que chegue esse momento em que Deus nos abrace e assim voltemos a ver-nos. Descansem em paz.»

E todos choravam

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