Proclamada na Missa da Quarta-Feira Santa, adquire uma força avassaladora uma visão de Isaías: uma figura misteriosa avança, majestosa e terrível, com as vestes tingidas de vermelho, como quem vem de pisar o lagar. E a pergunta surge espontânea: «Quis est iste?» «¿Quem é este?» A Igreja não hesita em responder: é Cristo. Mas não o Cristo adoçado que às vezes imaginamos, mas ¡Cristo!, o que entra em Sua Paixão com toda a gravidade do Redentor. «Quare rubrum est indumentum tuum?» «¿Por que estão vermelhas as tuas vestes? ¿Por que pareces um lagareiro?» E a resposta é tremenda: «Torcular calcavi solus»: «Eu pisei o lagar sozinho».
O lagar é o lugar onde a uva é triturada para dar vinho. Isaías contempla alguém que foi esmagado, prensado, desfeito… e cujo sangue —porque aqui já não é só vinho— salpicou suas vestes. É uma imagem de juízo, sim, mas a liturgia a coloca nestes dias para que entendamos algo mais profundo: esse lagar é a Paixão. Cristo entra no lagar da dor, do abandono, do pecado do mundo. E o pisa sozinho. «De gentibus non est vir mecum»: não há ninguém com Ele. Os discípulos fogem, os amigos desaparecem, ninguém daquela humanidade por que Ele sofre O acompanha nessa hora. A Quarta-Feira Santa é o ante-sala da solidão. Judas já decidiu, o cerco se estreita, a noite está prestes a cair sobre a alma do mundo. E Cristo, sabendo tudo isso, avança.
Mas um matiz decisivo transforma completamente a cena: esse lagar não é de ira, mas de redenção. «Annus redemptionis meae venit»: «Chegou o tempo da minha redenção». Aqui está o coração do mistério: Cristo não é esmagado por forças que O superam; Ele mesmo entra no lagar. Não é uma vítima passiva; é o Redentor que Se oferece. O sangue que empapa Suas vestes não é só sinal de castigo, mas preço de resgate. Então ouvimos a música de fundo, como um motete docemente eucarístico: o lagar e o cálice estão unidos. O vinho que se exprime no lagar é o mesmo que será oferecido na Última Ceia como Sangue da nova aliança. O que Isaías vê em uma cena terrível, a Igreja o contempla, confessa e adora na Missa de forma sacramental: Cristo foi prensado para se tornar nossa bebida de salvação.
Dizia São João da Cruz que duas coisas servem à alma de asas para subir à união com Deus: a compaixão afetiva da morte de Cristo e a dos prójimos. E acrescentava que «quando a alma se detiver na compaixão da Cruz e Paixão do Senhor, se lembre de que nela esteve Cristo sozinho operando nossa redenção, segundo está escrito: ‘Torcular calcavi solus’ (Is 63, 3); donde tirará e se lhe oferecerão proveitosíssimas considerações e pensamentos». Ou seja, não basta olhar a Paixão: há que deter-se nela, deixar que nos afete, entrar nessa solidão de Cristo. Porque só assim a Cruz deixa de ser um fato externo e se converte em caminho interior, experiencial, de união com Deus.
Há outra frase que não podemos passar por alto: «Circumspexi, et non erat auxiliator»: «Olhei, e não havia quem ajudasse». Deus feito homem buscando um olhar, uma companhia, um consolo… e não encontrando ninguém. Nós também estamos aí. Porque o drama da Quarta-Feira Santa não é só o de Judas, que trai; é também o dos que não estão, o dos que não velam, o dos que deixam Cristo sozinho. E isso não é só história: é possibilidade sempre atual. Cada vez que nossa fé esfria, cada vez que deixamos Deus nas margens de nossa vida, cada vez que não queremos entrar em seu mistério de Cruz, repetimos esse abandono.
Mas Isaías não termina na escuridão, mas com um ato de memória agradecida: «Miserationum Domini recordabor». «Recordarei as misericórdias do Senhor». Este é o passo que a Igreja nos convida a dar: contemplar o lagar, sim; não apartar o olhar do sangue, da dor, da solidão de Cristo… mas para descobrir em tudo isso a misericórdia. Não uma misericórdia de esmola, que é uma caricatura quase blasfema de si mesma, mas uma misericórdia que custa sangue.
Nesta contemplação não estamos sozinhos: ao pé do lagar da Cruz está a Virgem Dolorosa. Se Ele pisa o lagar sozinho na obra da redenção, Ela permanece na compaixão perfeita, unida sem confusão, firme sem ruído, fiel sem desfalecer. Ela não redime, mas acompanha; não substitui, mas participa com um coração traspassado que faz seu, de um modo único, a solidão do Filho.
Esta Quarta-Feira Santa, às portas do Tríduo Sacro, nos pede não deixar Cristo sozinho, mas acompanhá-Lo em Seu lagar, velar com Ele, entrar tremendo no mistério de Sua Paixão, e fazê-lo de mão dada com Maria. Porque só quem entra no lagar com Cristo, e permanece junto à Mãe Corredentora, poderá beber o vinho novo da redenção.