Pelo P. Paul D. Scalia
Toda a Quaresma é um exercício de santo sofrimento. Não sabemos como chorar como se deve, especialmente por nossos pecados. Por isso, precisamos desses 40 dias de penitência: para nos treinarmos em como estar tristes da maneira adequada. Precisamos aprender a verdadeira contrição. Como não passar por alto a gravidade de nossos pecados, nem catastrofizar sobre eles como se não houvesse Redentor. Sentir pena por nossos pecados, não porque nos envergonhem («Não posso acreditar que eu tenha feito isso!»), nem só por medo do inferno, mas porque feriram a Ele, que nos ama perfeitamente e que, portanto, merece ser amado.
Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados. Essa é a bem-aventurança quaresmal. Queremos saber como chorar nossos pecados, os pecados dos outros, o mundo caído e, acima de tudo, o próprio Cristo. Queremos experimentar a alegria desse tipo de choro que nos liberta do pecado.
Bem-aventurados os que choram… Jesus exemplifica essa bem-aventurança. Ele é quem chorou primeiro e perfeitamente. Na semana passada, ouvimos que chorou diante do túmulo de Lázaro. Fez isso porque havia perdido um amigo, porque o pecado entrou no mundo e, com ele, a morte. Mas também chorou para nos dar o exemplo de luto.
Porque eles serão consolados. Jesus mostra também a recompensa da bem-aventurança. Ao chorar diante do túmulo de Lázaro, nos mostra como chorar. Ao ressuscitar Lázaro dos mortos, oferece uma imagem e um anticipo da recompensa prometida a todos.
O choro do Senhor por Lázaro e sua ressurreição nos preparam para o relato de hoje de sua Paixão, no qual encontramos a perfeição de seu choro e a santificação do nosso. No Horto, Jesus anuncia o início de sua Paixão dizendo: «Minha alma está triste até a morte». Deus se fez homem, assumiu nossa natureza passível, para poder sofrer e morrer por nossos pecados. É significativo que o primeiro sofrimento que experimenta seja a tristeza da alma. «Sua paixão começou de dentro», disse John Henry Newman.
A causa de sua dor são nossos pecados. Está em agonia, sim, porque antecipa os sofrimentos físicos que virão. Mas sua maior agonia é interior, na dor que permite que se abalance sobre Ele por causa de nossa rebelião contra Deus. É a dor do Santo, que não conheceu pecado, mas foi feito pecado. É uma dor exacerbada por nossa falta de dor: por nossa tendência a justificar, minimizar ou simplesmente negar o pecado.
Bem-aventurado o que chora. Jesus é o Varão das Dores. Também é bem-aventurado —feliz— porque está fazendo a vontade do Pai. De fato, a razão pela qual chora é porque assume a culpa e o castigo por nosso pecado em obediência ao Pai. Seu choro mostra sua unidade com o Pai, sua participação no plano do Pai para confrontar e extirpar o pecado.
Porque Ele será consolado. Jesus promete consolo aos que choram. Assim também, a Ele se concede um consolo mesmo em sua Paixão. O Sumo Sacerdote o coloca sob juramento e lhe ordena dizer se é «o Messias, o Filho de Deus». É a pergunta crucial, o mesmo que veio revelar e proclamar.
Talvez em meio a toda a sua dor e tristeza, Jesus experimenta um leve consolo nesta oportunidade de afirmar solenemente sua identidade. Confirma com alegria sua filiação e, portanto, revela também o Pai: «Tu o disseste. Mais ainda, eu vos digo: de agora em diante vereis que o Filho do homem está sentado à direita do Todo-Poderoso e que vem sobre as nuvens do céu».
Toda a Quaresma é um exercício de santo sofrimento. A dor que desejamos se resume belamente na décima terceira estrofe do Stabat Mater:
Faze que chore com sinceridade
e que compartilhe tua dor,
enquanto viver, pelo Senhor.
Chorar por Aquele que chorou por mim… Bem-aventurados os que choram porque o Bem-Aventurado já chorou. Somos felizes por poder compartilhar a dor Daquele que se entristeceu por nós. Devemos chorar por Ele porque sua alma se entristeceu primeiro até a morte.
Todos os dias que puder viver. Não, nosso choro não pode ser sempre tão intenso como o é durante a Quaresma. Mas tal dor deveria ser uma constante na vida católica. De fato, quanto mais nos aprofundamos nesta dor pelo pecado, mais nos alegramos —somos consolados— pelo perdão do Senhor.
É claro, esta estrofe começa com um lembrete de que já existe alguém cujo sofrimento foi aperfeiçoado pelo Dele. É a Maria a quem cantamos: Faze que chore com sinceridade. Queremos estar unidos a ela em sua dor, aprender dela como chorar pela agonia de Cristo, o que é chorar pelo pecado.
Na Forma Extraordinária, na sexta-feira da Semana da Paixão (a sexta-feira anterior ao Domingo de Ramos) se comemora Nossa Senhora das Dores. Permanece um vestígio dessa missa na coleta alternativa para a sexta-feira da Forma Ordinária: Senhor, Deus nosso, que neste tempo dás à tua Igreja a graça de imitar devotamente a santíssima Virgem Maria na contemplação da paixão de Cristo.
Tal é o sentir da Igreja: que o sofrimento de Maria foi aperfeiçoado e que esta semana devemos nos aproximar para aprender dela.
Sobre o autor
O P. Paul Scalia é sacerdote da Diocese de Arlington, Virgínia, onde exerce como Vigário Episcopal para o Clero e Pároco de Saint James em Falls Church. É autor de That Nothing May Be Lost: Reflections on Catholic Doctrine and Devotion e editor de Sermons in Times of Crisis: Twelve Homilies to Stir Your Soul.