A possível saída do cardeal Arthur Roche do Dicasterio para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos volta a colocar no centro do debate o rumo litúrgico da Igreja, e com ele uma parte vital de seu devir nos próximos anos. A informação, adiantada pelo jornalista britânico Damian Thompson, aponta —citando fontes vaticanas— para uma iminente transferência de Roche ao cargo de patrono da Soberana Ordem de Malta. Sem confirmação oficial, o movimento já é interpretado como uma possível reconfiguração de um dos dicastérios mais sensíveis da Cúria.
O perfil de Roche: executor de uma linha
Roche não foi um prefeito de transição. Desde seu nomeamento em 2021, após ter sido secretário do mesmo dicastério, ele se tornou o principal executor da política litúrgica impulsionada a partir de Roma nos últimos anos. Sua gestão tem sido marcada por uma aplicação estrita, mesmo expansiva, das diretrizes emanadas do motu proprio Traditionis Custodes.
Na prática, seu papel tem sido menos o de teólogo propositivo e mais o de garante disciplinar. Diversas intervenções públicas e respostas oficiais do dicastério sob sua direção consolidaram uma interpretação restritiva do uso do rito tradicional, limitando margens que em etapas anteriores haviam ficado abertas. Isso o converteu em uma figura altamente controversa, especialmente em setores eclesiais que haviam encontrado na liturgia tradicional um espaço de estabilidade doutrinal e pastoral.
Traditionis Custodes: uma ferida aberta
O eixo de sua prefeitura tem sido, sem dúvida, a implementação de Traditionis Custodes. O documento supôs uma ruptura com o quadro anterior estabelecido por Summorum Pontificum, revertendo a lógica de coexistência entre as formas litúrgicas e devolvendo o controle efetivo aos bispos sob supervisão romana.
A crítica não se centrou unicamente no conteúdo normativo, mas em sua aplicação. Sob Roche, o dicastério adotou critérios que, na prática, reduziram significativamente a presença pública do rito tradicional, impondo autorizações restritivas, limitações geográficas e controles adicionais. Para muitos, isso não foi uma simples regulação, mas uma estratégia de desgaste progressivo.
O resultado tem sido uma tensão persistente em múltiplas dioceses, com uma percepção crescente de que a questão litúrgica deixou de ser um âmbito pastoral para se converter em um terreno de controle disciplinar. Essa ferida, longe de se fechar, ficou institucionalizada.
A Soberana Ordem de Malta como retiro: precedentes
A possível transferência de Roche ao cargo de patrono da Soberana Ordem de Malta encaixa-se em um padrão já conhecido dentro da dinâmica curial. A Soberana Ordem de Malta tem servido em distintas ocasiões como destino para cardeais que, por diversas razões, saíam do núcleo de poder romano sem uma ruptura explícita.
O caso mais evidente é o do cardeal Raymond Leo Burke, que foi nomeado patrono após ter ocupado posições de maior peso na Cúria. Embora o contexto de Burke tenha sido diferente —marcado por tensões doutrinais mais visíveis—, o esquema institucional é comparável: uma transferência para um cargo honorável, com relevância formal, mas afastado do centro de decisão.
Nesse sentido, o movimento que agora se atribui a Roche pode ser interpretado como uma saída ordenada, sem desautorização explícita, mas com efeitos claros na redistribuição do poder interno.
O que está em jogo: o próximo prefeito
Além do relevo pessoal, a questão decisiva é quem ocupará o Dicasterio para o Culto Divino. O perfil do novo prefeito determinará se a linha marcada nos últimos anos se consolida ou se se introduz uma correção.
A margem real de mudança não dependerá unicamente do nomeamento, mas de se se revisa —explícita ou implicitamente— a aplicação de Traditionis Custodes. Sem esse elemento, qualquer relevo poderia ficar reduzido a um ajuste de estilo sem consequências de fundo.
Por enquanto, a informação segue sem confirmação oficial. Mas o simples fato de que tenha emergido com certa credibilidade coloca o foco neste Dicasterio onde se pode dirimir o futuro da Igreja e a primeira grande decisão do pontificado de Leão XIV.