O papa Leão XIV nomeou prefeito do Dicastério para os Textos Legislativos a monsenhor Anthony Randazzo, até agora bispo de Broken Bay (Austrália), a quem concedeu também o título pessoal de arcebispo.
O nomeamento, tornado público pela Santa Sé, coloca o prelado australiano à frente de um dos organismos chave da Cúria Romana, responsável pela interpretação do direito canônico e por garantir sua correta aplicação na Igreja universal.
Um canonista com experiência em Roma e nos tribunais eclesiásticos
Nascido em Sídney em 1966 no seio de uma família de origem italiana, Randazzo foi ordenado sacerdote em 1991 para a arquidiocese de Brisbane. Desde os primeiros anos de seu ministério, mostrou uma marcada inclinação pelo direito canônico, o que o levou a se formar na Pontifícia Universidade Gregoriana, onde obteve a licenciatura e o diploma em jurisprudência.
Ao retornar à Austrália, desempenhou funções relevantes no âmbito judicial eclesiástico, como vigário judicial adjunto e juiz do tribunal regional, além de fazer parte do tribunal de apelação nacional para a Austrália e Nova Zelândia. Paralelamente, assumiu responsabilidades na formação do clero, entre elas a de reitor do seminário “Santo Espírito” de Brisbane.
Entre 2004 e 2008, trabalhou na então Congregação para a Doutrina da Fé, uma experiência que lhe permitiu conhecer de primeira mão o funcionamento da Cúria Romana.
Um perfil com experiência em estruturas eclesiais específicas
Em 2016, foi nomeado bispo auxiliar de Sídney e, em 2019, passou a ser bispo de Broken Bay. Desde 2023, preside a Federação de Conferências Episcopais da Oceania.
Durante esse período, também exerceu como administrador apostólico do Ordinariato Pessoal de Nossa Senhora da Cruz do Sul, erigido para acolher fiéis provenientes do anglicanismo, o que lhe permitiu adquirir experiência em estruturas eclesiais particulares dentro da disciplina da Igreja.
Um dicastério chave no governo jurídico da Igreja
O Dicastério para os Textos Legislativos desempenha uma função central na vida da Igreja: interpreta as leis canônicas, revisa a coerência normativa e assessora na elaboração de novas disposições.
Nesse sentido, não se trata de um organismo meramente técnico, mas de um ator decisivo na configuração da ordem jurídica eclesial, com implicações diretas em âmbitos como os processos judiciais, a disciplina eclesiástica ou a organização interna da Igreja.
Um nomeamento em meio a tensões jurídicas
A chegada de Randazzo ocorre em um momento especialmente delicado para o sistema judicial vaticano. A recente nulidade do julgamento contra o cardeal Angelo Becciu por graves defeitos processuais —que obrigará a reiniciar o processo— evidenciou fraquezas na aplicação do direito.
Ao mesmo tempo, outros casos, como o do exjesuíta Marko Rupnik, continuam gerando inquietação pela lentidão dos procedimentos e pela falta de informação às vítimas, o que alimenta a percepção de opacidade e falta de transparência.
Nesse contexto, o Dicastério para os Textos Legislativos está chamado a desempenhar um papel chave para reforçar a clareza normativa, garantir a segurança jurídica e contribuir para recuperar a credibilidade dos processos na Igreja.
Direito, reformas e governo
O nomeamento de Randazzo enquadra-se também em um debate mais amplo sobre o papel do direito no governo da Igreja. Após a reforma da Cúria impulsionada pela Praedicate Evangelium, diversas vozes assinalaram a necessidade de que os organismos competentes em matéria jurídica tenham um peso real na tomada de decisões.
A escolha de um perfil técnico, com sólida formação canônica e experiência em tribunais, aponta nessa direção, em um momento em que a Santa Sé enfrenta reformas sensíveis, entre elas o desenvolvimento de uma normativa mais precisa em matéria de abusos espirituais e de poder.