A designação do advogado José Ugaz como defesa do sacerdote e o atraso de 85 dias em separar o acusado de suas funções colocam o primaz do Peru sob a lupa da justiça.
Uma juíza do 21.º Tribunal de Instrução Preparatória de Lima rejeitou o pedido feito pelo Ministério Público de 9 meses de prisão preventiva contra o sacerdote Marco Agüero pelo delito de toques, atos de conotação sexual ou atos libidinosos.
Na audiência, surpreendeu a presença do renomado advogado José Ugaz, que, em representação à Arquidiocese de Lima, defendeu o sacerdote amigo do cardeal Carlos Castillo.
É notável que o doutor Ugaz, após ter representado seis vítimas no caso do Sodalício de Vida Cristã, encontre-se hoje no lado oposto. Embora seu trabalho anterior tenha sido louvável, sua decisão atual de defender o agressor gera uma contradição inevitável: em que ficamos? Cabe perguntar se a indenização que receberia da arquidiocese de Castillo é, simplesmente, mais próxima de suas expectativas econômicas do que a do Sodalício.
Mas neste caso, o que se busca? É a destreza de Ugaz ou sua habilidade para blindar a reputação de Castillo? A insistência neste contratação sugere que o arcebispo de Lima tem motivos para se inquietar pelo que Agüero possa dizer ou pelo conteúdo das conversas no celular apreendido (que diálogos haverá?). Claro, o silêncio e a estratégia têm um preço: conhecendo a trajetória de Ugaz, o custo para os cofres da Arquidiocese será, sem dúvida, monumental.
O certo é que a denúncia de cinco mulheres contra este sacerdote expôs a pouca empatia da Igreja de Lima com as vítimas e o sistema autoritário que se instalou na arquidiocese de Santo Toribio de Mogrovejo: “Para meus amigos, misericórdia e silêncio; para os demais, o rigor da lei”.
Além disso, a resposta da Arquidiocese de Lima, na sexta-feira 6 de março, por meio de um comunicado, não só foi tardia, mas contraditória, cheia de falácias que só buscam justificar o injustificável.
O pior é que, no marco do «mês da mulher», o arcebispo de Lima, Carlos Castillo Mattasoglio, não disse absolutamente nada sobre o tema, nem mesmo em seu programa de rádio aos sábados. Preferiu o silêncio e a cumplicidade do jornalista Fernando Carvallo, da RPP (Radio Programas del Perú), para não dizer nada. Em outras ocasiões, até lhe faltaria língua… é que agora é seu amigo o prejudicado… Acaso as mulheres que denunciaram o sacerdote não mereciam uma resposta de seu pastor?
Por enquanto, o Ministério Público, a entidade do Estado peruano encarregada de investigar os delitos, apelou da decisão da juíza e espera que, dentro dos prazos, a justiça reconsidere o pedido. Enquanto isso, Agüero ficará em liberdade, não poderá se aproximar das denunciantes e deverá se apresentar a cada 30 dias no tribunal.
¿Mas quem é Marco Agüero?
O sacerdote Marco Agüero é catedrático da Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP) desde 1987. Tem um mestrado em Sagrada Teologia pela Faculdade de Teologia Pontifícia e Civil de Lima. Formou-se no Seminário Santo Toribio de Mogrovejo e foi enviado à PUCP para ensinar teologia pelo então cardeal Augusto Vargas Alzamora. Ali conheceu Carlos Castillo, onde forjaram uma amizade que dura décadas.
Após um percurso por diversas dioceses, primeiro por Chosica e depois por Lurín, retornou a Lima por pedido expresso do cardeal Castillo, presumivelmente com a mira em um bispado auxiliar.
Os fatos falam por si sós
Os fatos que colocam Agüero no olho público incluem uma denúncia grave: cinco mulheres, entre elas três menores de idade, acusam o sacerdote diocesano de toques indevidos no sacramento da confissão, considerada uma falta gravíssima na Igreja católica. Mas o pior é que este aproveitamento teria se iniciado em um retiro espiritual.
Segundo a denúncia, tudo aconteceu na paróquia Nossa Senhora da Alegria, no distrito de San Borja, uma comunidade viva e cheia de fé que, com o esforço de todos os fiéis, tem um espaço importante na arquidiocese de Lima.
O amigo do cardeal primaz, Marco Agüero, era conhecido por seu caráter estranho e por problemas em outras dioceses. Apesar disso, Carlos Castillo o incardinou em Lima com todos os direitos e deveres, e depois o enviou para trabalhar em paróquias.
Não demorou muito para que surgissem os primeiros problemas, primeiro com a paróquia San Ricardo, em La Victoria, um distrito popular e com bastantes necessidades. Ali, Marco Agüero expulsou umas religiosas que por décadas apoiavam crianças e pobres da comunidade, talvez porque viviam muito perto e viam como ele se embriagava com o agora sacerdote recém-ordenado Yadir Candela.
A gente não aguentou mais e não demorou a se levantar e reclamar ao arcebispo sua mudança. A Castillo não restou outra que tirá-lo de La Victoria e, apesar dos antecedentes, enviá-lo a San Borja.
O comunicado de Pilatos
Embora o escândalo tenha atingido seu ponto de ebulição na passada terça-feira 3 de março —quando os pais das menores, exaustos pela indiferença, decidiram confrontar o sacerdote em sua própria paróquia—, a Arquidiocese de Lima levou seu tempo. Fiéis a essa parsimônia que confundem com prudência, reagiram dois dias depois do escândalo com um comunicado tão contraditório que parece projetado para gerar mais sombras do que luzes.
O primeiro que salta aos olhos é que reconhecem sua própria inação ao confirmar a recepção de denúncias por toques não consentidos no sagrado âmbito da confissão contra o sacerdote Marco Agüero em 11 de dezembro às 13:55 horas.
No entanto, em um jogo de palavras, dizem que faltaram os anexos e omitem convenientemente o nome do funcionário que recebeu a documentação, assegurando que a informação passou para a “Comissão de Escuta”, que, ao que parece, padece de surdez sazonal.
Entre o panettone natalino e as férias de verão, o comunicado afirma que o cardeal Castillo teria imposto um “remédio penal formal” do qual ninguém soube dar razão. E que o “preocupado” cardeal estabeleceu uma comissão de investigação que nunca chamou os denunciantes e que ficaram cegos ante o delito, surdos ante o clamor e, acima de tudo, mudos ante a justiça.
É inaudito que, enquanto os protocolos atuais exigem a suspensão imediata de qualquer clérigo sob suspeita, Marco Agüero continuasse em suas funções como se nada tivesse acontecido até 3 de março, o dia em que explodiu o escândalo. Ou seja, o sacerdote não foi retirado de suas funções pela Igreja sinodal de “escuta” que tanto proclama Castillo, mas pela polícia.
Tiveram que passar quase 85 dias de um silêncio sepulcral antes que a cúria movesse um dedo, demonstrando que para Castillo a “medida cautelar” é um conceito elástico que se estica segundo a proximidade do implicado.
A dupla vara e o esquecimento das vítimas
A advogada das denunciantes, Valeria Cabrera, foi lapidar: nenhum representante da Arquidiocese se aproximou das vítimas. Não houve vontade de investigar, só de gerenciar o dano reputacional. Além disso, afirmou que a Arquidiocese, se tivesse tido vontade de considerar as primeiras denúncias, teria cessado o sacerdote de suas funções em dezembro do ano passado.
Parece que nem o mandato do Papa Leão na última visita ad limina —pedindo uma Igreja unida e voltada para seus fiéis— conseguiu penetrar no arcebispo de Lima. Tampouco parece ter feito mossa o recente e firme lembrete do Santo Padre aos bispos do mundo sobre estes casos: “Escutar as vítimas é um ato de justiça e verdade. A reparação, na Igreja, não pode se separar nem da misericórdia nem do respeito à lei, mas tampouco se reduzir só a eles. Requer uma visão eclesial clara, fundada na verdade…”. Ante este cenário, a pergunta é inevitável: onde fica essa verdade na estratégia atual da Igreja de Lima?
Aqui não cabem as etiquetas ideológicas nem os contos de “instrumentalização” que pregam alguns por aí. Aqui falamos de omissões flagrantes, que dentro do marco canônico têm um protocolo e que em Lima só se aplicam para aqueles que Castillo considera seus inimigos.
Os preferidos de Castillo
Os fatos, no entanto, terminam por marcar o compasso. A lista dos “preferidos” de Castillo com expedientes abertos começa a parecer uma procissão: Marco Agüero se soma hoje à de Nilton Zárate e ao exreitor do Seminário Santo Toribio, Luis Sarmiento, que —em um giro digno de um romance de mistério— hoje “estuda” em Roma após ser acusado por seus próprios seminaristas.
Dizem as más línguas que na Casa do Clero (a famosa “Sibéria”) há mais esqueletos no armário esperando seu turno de sair à luz; haverá que perguntar a César Mesinas que outros segredos guarda o frio dessa casa.
No entanto, este caso termina por desnudar a dupla moral daqueles que se ergueram, durante anos, como os guardiões morais dos vulneráveis. O silêncio dos jornalistas Paola Ugaz, Pedro Salinas e Rosa María Palacios não é só estranho; é ensurdecedor. Ao que parece, a indignação tem filtros ideológicos e a justiça só se exige quando a causa vem com indenização; mas quando o señalado é “o amigo do amigo”, a ética se guarda em uma gaveta e a voz das vítimas se apaga. Para eles, a coerência termina onde começa a lealdade ao grupo… graças a Deus que o Papa Leão os conhece muito bem.