A fraternidade, dom e responsabilidade: segunda pregação da Quaresma no Vaticano

A fraternidade, dom e responsabilidade: segunda pregação da Quaresma no Vaticano

O pregador da Casa Pontifícia, o capuchinho padre Roberto Pasolini, proferiu nesta sexta-feira, 13 de março, a segunda pregação da Quaresma na Aula Paulo VI, na presença do Papa Leão XIV. A meditação, intitulada “A fraternidade. A graça e a responsabilidade da comunhão fraterna”, faz parte do ciclo de reflexões quaresmais deste ano centradas no lema: “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura” (2 Cor 5,17).

De acordo com o Boletim da Santa Sé, as meditações estão inspiradas no tema da conversão ao Evangelho segundo são Francisco e continuarão nos próximos dias 20 e 27 de março.

A fraternidade como lugar de conversão

Tal como relata Vatican News, Pasolini sublinhou que a fraternidade não deve ser entendida como um elemento acessório da vida espiritual, mas como o espaço concreto onde se verifica a autêntica conversão cristã.

Em sua reflexão, explicou que a comunhão entre irmãos é ao mesmo tempo um dom de Deus e uma responsabilidade urgente, especialmente em um mundo marcado por divisões e conflitos que fazem a fraternidade parecer um ideal difícil de alcançar.

Para o pregador, a relação com os outros permite confrontar-se com as próprias limitações e superar a tentação de se considerar autossuficiente. Nesse sentido, apontou que a fraternidade “amolece o coração” e ajuda a reconciliar-se com a própria fragilidade.

O exemplo das primeiras comunidades franciscanas

Durante a pregação, Pasolini evocou a experiência das primeiras comunidades franciscanas. São Francisco de Assis —recordou— quis comunidades onde não existissem relações de poder ou superioridade, mas uma vida marcada pela igualdade entre irmãos.

Longe de serem lugares de refúgio para viver com tranquilidade, essas fraternidades concebiam-se como espaços onde cada pessoa se via confrontada com sua própria interioridade, com suas feridas e com seus limites.

Nesse contexto, os irmãos não estão apenas para se apoiarem mutuamente, mas para se tornarem instrumentos através dos quais Deus transforma a vida de cada um.

“Aquele que vem do mesmo seio”

O pregador deteve-se também no significado etimológico da palavra grega adelphós, que significa literalmente “aquele que vem do mesmo seio”. Dessa perspectiva, explicou que o irmão não está para confirmar o que alguém já é, mas para provocar uma transformação.

A diversidade, as limitações e até as dificuldades nas relações fraternas tornam-se assim o lugar onde Deus trabalha o coração humano, ajudando a superar rigidezes e a aprender um amor mais autêntico.

A história de Caim e Abel

Entre os exemplos bíblicos mencionados por Pasolini, destacou o relato de Caim e Abel, que descreveu como uma história que revela um “problema de olhar”.

Mais do que a qualidade material da oferta, apontou, o que diferencia os dois irmãos é a implicação pessoal no dom oferecido a Deus. Abel apresenta o melhor de seu rebanho, enquanto Caim oferece simplesmente alguns frutos da terra.

A rejeição da oferta de Caim, explicou, não busca humilhá-lo, mas provocar nele uma tomada de consciência: Deus quer ajudá-lo a descobrir que também sua vida pode se tornar um verdadeiro dom.

A fraternidade como caminho de misericórdia

Pasolini recordou que para são Francisco a fraternidade não era um problema que se devesse suportar, mas uma oportunidade para viver a lógica evangélica da misericórdia.

Nas situações de conflito ou ruptura, o Evangelho —sublinhou— não convida em primeiro lugar a reivindicar direitos ou defender posições, mas a buscar o bem possível que permita voltar a reconhecer no outro um irmão.

Um dom e uma responsabilidade para os cristãos

Na conclusão de sua meditação, o pregador da Casa Pontifícia recordou que a fé cristã não elimina as dificuldades das relações humanas, mas muda a perspectiva a partir da qual se vivem.

A ressurreição de Cristo —afirmou— liberta o crente não da fadiga de amar, mas do medo de que esse esforço seja inútil.

Por isso, em um mundo marcado por guerras, divisões e conflitos, os cristãos não podem limitar-se a falar de fraternidade como um ideal abstrato. Estão chamados a recebê-la como um dom e assumi-la como uma responsabilidade séria e urgente dentro da vida da Igreja.

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