Um novo relatório elaborado no âmbito do Sínodo sobre a Sinodalidade propõe abrir “novos espaços de responsabilidade” para as mulheres na Igreja, revisar a linguagem utilizada na catequese e superar o que descreve como uma mentalidade marcada pelo “clericalismo” e pelo “machismo”. O documento —por enquanto disponível apenas em inglês e italiano e divulgado por Vatican News— recolhe as conclusões do Grupo de Estudo 5, encarregado de analisar a participação feminina na vida e no governo eclesial.
Um relatório do grupo de estudo do Sínodo
O texto corresponde ao relatório final do Grupo de Estudo 5, um dos dez equipas criados em 2024 para aprofundar em questões surgidas durante o processo do Sínodo sobre a Sinodalidade.
De acordo com a informação publicada por Vatican News, o documento foi entregue à Secretaria Geral do Sínodo e tornado público por decisão do papa Leão XIV, que estabeleceu que os relatórios sejam publicados progressivamente “em espírito de transparência”. Este é o terceiro relatório publicado até o momento.
O grupo, coordenado pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, tinha como missão estudar questões teológicas e canónicas relacionadas com as formas de ministério na Igreja, entre elas a participação das mulheres em tarefas de responsabilidade.
Como tem sinalizado a própria Secretaria Geral, estes textos devem ser entendidos como documentos de trabalho, fruto de consultas e estudos realizados com conferências episcopais, universidades e organismos eclesiais. O relatório, portanto, não modifica nenhuma doutrina, embora introduza questões que afetam debates teológicos e canónicos de longo alcance.
“Nada impede que as mulheres assumam papéis de liderança”
Um dos trechos mais citados do documento afirma que “não há nada, no fato mesmo de ser mulher, que impeça assumir papéis de liderança na Igreja”. A partir desta premissa, o relatório propõe abrir “novos espaços de responsabilidade para as mulheres” e replanejar alguns âmbitos de participação dentro da vida eclesial.
O texto sustenta ainda que a participação feminina em tarefas de liderança não deveria ser considerada simplesmente uma concessão da autoridade hierárquica. Em palavras do relatório, “a participação ativa das mulheres na vida e na orientação da Igreja não deve ser entendida como uma concessão da autoridade hierárquica”, mas sim que deveria estar vinculada ao reconhecimento dos carismas e à dignidade do batismo.
O debate sobre a autoridade na Igreja
O relatório aborda também um dos debates clássicos do direito canónico: a relação entre o sacramento da Ordem e o poder de governo na Igreja.
O Código de Direito Canónico estabelece que aqueles que receberam a Ordem sagrada são capazes de exercer o poder de regime, enquanto os fiéis leigos podem cooperar no seu exercício. O documento recorda, no entanto, que a Constituição apostólica Praedicate Evangelium, que reformou a Cúria romana, permite que fiéis não ordenados presidam alguns dicastérios vaticanos.
A partir deste precedente, o relatório plantea a possibilidade de ampliar a participação dos leigos —e em particular das mulheres— em funções de governo exercidas por delegação da autoridade eclesial.
Mulheres da história da Igreja citadas no relatório
Para sustentar a sua reflexão, o documento repassa o papel de diversas mulheres que, ao longo da história, exerceram uma influência significativa na vida da Igreja sem terem recebido o sacramento da Ordem.
Entre as figuras mencionadas aparecem mulheres do Antigo e do Novo Testamento, como Maria Madalena, assim como figuras históricas como Joana d’Arc, Hildegarda de Bingen ou santa Francesca Cabrini.
O relatório também menciona exemplos mais recentes, como Dorothy Day, Maria Montessori ou Wanda Półtawska, apresentadas como mulheres que exerceram uma autoridade moral ou intelectual relevante na missão da Igreja.
Nomeações recentes no Vaticano
O relatório sinaliza também algumas nomeações recentes que considera significativas na reflexão sobre a participação feminina em responsabilidades de governo.
Entre elas menciona o caso de sor Simona Brambilla, designada em 2025 prefeita do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, tornando-se na primeira mulher a presidir um dicastério vaticano.
Da mesma forma, recorda a nomeação de sor Raffaella Petrini como presidente do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano, um dos cargos administrativos mais relevantes da Santa Sé.
De acordo com o relatório, estes precedentes mostram que já existem espaços nos quais mulheres exercem responsabilidades de governo na Igreja, particularmente em âmbitos onde a autoridade se exerce por delegação e não está vinculada diretamente ao sacramento da Ordem.
As propostas que aparecem no debate
O documento recolhe também diversas questões levantadas durante o processo de consulta sinodal. Entre elas mencionam-se propostas como a criação de novos ministérios, uma maior participação feminina em responsabilidades pastorais ou administrativas, ou a possibilidade de assumir tarefas de coordenação em comunidades locais.
No relatório aparecem até referências a debates mais amplos, como a oportunidade de pronunciar a homilia em celebrações comunitárias ou a eventual criação de novos ministérios estáveis.
No entanto, não aborda diretamente a questão do diaconato feminino, considerada pelo grupo como uma questão que ainda não está madura e que foi estudada previamente por comissões específicas.
O documento não formula estas propostas como conclusões, mas sim as recolhe como parte do debate teológico aberto no contexto sinodal.
Críticas ao clericalismo e ao machismo
Outro dos aspectos abordados no documento é a crítica ao que descreve como uma mentalidade eclesial marcada pelo clericalismo e pelo machismo.
O relatório afirma que estas atitudes podem gerar desconfiança e distância em algumas mulheres em relação à vida eclesial. Neste contexto, propõe prestar maior atenção à linguagem utilizada na pregação, na catequese e nos documentos oficiais da Igreja.
De acordo com o texto, em alguns contextos o discurso eclesial associou o feminino quase exclusivamente a traços como a doçura, a docilidade ou a maternidade, deixando em segundo plano outras capacidades como a liderança, o ensino ou o discernimento.
Releitura da figura de Maria
O relatório também propõe reconsiderar a forma como se apresenta a figura da Virgem Maria em relação ao papel da mulher na Igreja.
Os autores sugerem evitar uma interpretação centrada exclusivamente na maternidade e destacar outros aspectos presentes nos Evangelhos, como o seu papel como crente, testemunha e figura de referência na primeira comunidade cristã reunida em oração.
O método do relatório: partir da experiência
O documento sinaliza também que o seu método de trabalho partiu “de baixo”, ou seja, da escuta direta de mulheres que desempenham responsabilidades na Igreja, incluindo trabalhadoras da Cúria romana.
Esta abordagem apoia-se num princípio citado no próprio texto:
“a realidade é superior à ideia”.
No entanto, alguns teólogos têm sinalizado que este método levanta interrogações metodológicas, já que a teologia católica tradicional interpreta as realidades históricas à luz do depósito da fé e do magistério, e não ao inverso.
Um processo ainda aberto
As conclusões do relatório não têm caráter vinculante e não constituem uma decisão doutrinal. Caberá agora aos dicastérios competentes estudar as propostas surgidas destes grupos de trabalho e apresentar ao Papa eventuais orientações concretas.
Mais do que fechar o debate, o documento confirma que a questão da participação das mulheres na liderança eclesial se tornou um dos temas mais sensíveis do atual processo sinodal. As decisões finais, em qualquer caso, corresponderão ao papa Leão XIV.