Há bispos que ainda acreditam que sua missão consiste em salvar almas. E há outros que, ao que parece, entendem seu ministério como uma variante eclesiástica do gabinete de comunicação de um ministério progressista. Nesta segunda categoria acaba de se inscrever com letras de escândalo o Arzobispado Castrense de Espanha, ao confirmar que negou a celebração de uma Missa pela alma de Antonio Tejero na Catedral Castrense por “risco de conotações”.
A frase merece ser conservada. Não por brilhante, mas por infame. Porque em poucas palavras resume toda uma claudicação. Já não se trata de discernir se um batizado pode receber sufrágios por sua alma. Já não se trata de aplicar o direito da Igreja. Já não se trata de atuar como pastor. Trata-se de calcular o possível ruído exterior, de antecipar o julgamento da imprensa, de se curvar ante o que dirão, de submeter a liturgia ao filtro do medo. A Missa, que é o sacrifício de Cristo oferecido também pelos defuntos, fica assim reduzida a um ato submetido a controle de danos reputacional. Não é uma decisão pastoral: é uma rendição.
O mais revelador do comunicado não é só que confirme a negativa, mas a razão escolhida para justificá-la. O Arzobispado não sustenta que o falecido estivesse privado de exéquias eclesiásticas. Não afirma que pesasse sobre ele censura canônica alguma. Não diz que existisse impedimento doutrinal ou moral intrínseco para oferecer uma Missa por seu eterno descanso. Nada disso. Reconhece implicitamente que o problema não era religioso. O problema era político. Ou mais exatamente: midiático. O problema era o olhar alheio. A possibilidade de que alguém interpretasse a Missa de uma forma inconveniente para os guardiões do consenso. E então, para evitar incômodos, sacrifica-se o único que a um bispo deveria importar de verdade: o caráter sagrado da liturgia e os direitos dos fiéis.
Aqui está a doença inteira de uma parte notável da hierarquia eclesiástica espanhola. Não acreditam já que a Igreja deva ensinar ao mundo, mas que deve se justificar constantemente ante ele. Não acreditam que devam governar com critérios sobrenaturais, mas com a covardia do funcionário que teme sair mal na fotografia. Não acreditam que a verdade e o culto devam prevalecer, mas que devem ser dosificados, rebaixados e submetidos à sensibilidade dominante. O resultado é uma Igreja domesticada, trêmula, servil, mais preocupada em evitar manchetes que em exercer a autoridade espiritual que diz ter recebido.
E tudo isso, além disso, com esse tom untuoso e burocrático com o qual hoje se costuma envolver as piores indecências. Fala-se de “alternativas”, de “propor outras paróquias”, de evitar “conotações alheias ao estrito significado religioso”. Que linguagem tão limpa para encobrir uma sujeira moral tão evidente. Porque o que se está dizendo, na realidade, é isto: a Igreja admite celebrar Missas pelos defuntos, sim, mas não se o morto incomoda ao regime sentimental vigente; não se seu nome ativa reflexos pavlovianos em jornalistas, tertulianos ou políticos; não se o bispo teme que lhe chamem algo feio no dia seguinte. A pastoral degenerou em relações públicas.
Convém dizê-lo sem rodeios: um bispo que pensa assim já não raciocina como bispo. Raciocina como um gestor acobardado pelo ambiente. Aceitou a tese de que o decisivo não é o que a Igreja faz, mas como será lido pelos inimigos da Igreja. Interiorizou completamente a censura prévia do mundo. E uma vez aceito esse princípio, já não há limite. Hoje são as “conotações” de uma Missa por um militar incômodo. Amanhã será a supressão de uma conferência, a cancelamento de um sacerdote, a marginalização de uma comunidade ou a proibição prática de qualquer gesto católico que não caiba no estreito corredor ideológico permitido. O mecanismo é sempre o mesmo: não se nega pelo que algo é, mas pelo que outros poderiam dizer que significa.
A gravidade do caso aumenta quando se sabe, além disso, que até oito igrejas teriam rejeitado acolher a Missa e que o templo finalmente disposto a celebrá-la teria imposto condições tão grotescas como proibir o hino da Espanha e o da Guardia Civil e submeter o sermão a revisão prévia. Isso já não é só covardia: é humilhação. É a Igreja se tratando a si mesma como se fosse uma entidade suspeita, incapaz de celebrar uma liturgia sem tutela política implícita. É a substituição do altar pelo protocolo, do pastor pelo censor, do sacerdote pelo comissário preventivo. E tudo isso por um falecido cuja alma, em teoria, deveria mover à oração e não à engenharia de imagem.
Dir-se-á que não se negou uma Missa, mas só um lugar. É uma defesa miserável. Porque precisamente o argumento oficial reconhece que o problema não era logístico nem acidental, mas simbólico. Não se objetou uma questão de agenda ou de organização. Vetou-se a Catedral Castrense pelo que representava. E ao fazê-lo, o Arzobispado deixou claro que considera legítimo restringir a expressão litúrgica dos fiéis quando esta possa projetar uma imagem inconveniente. Ou seja, converteu uma catedral em um espaço de acesso condicionado por critérios políticos não confessados, embora mal disfarçados. Um templo já não seria então um lugar onde se oferece o Santo Sacrifício, mas um espaço cuja disponibilidade depende do grau de aceitação ideológica do falecido e de seu entorno.
Há nisto tudo uma inversão monstruosa da ordem cristã. A Igreja, que durante séculos rezou por imperadores, reis, soldados, pecadores notórios e homens de toda condição, acobarda-se agora ante um funeral porque pode gerar comentários. A instituição que enterrou gerações inteiras sem pedir permissão ao columnismo de guarda, precisa agora se blindar ante “conotações”. A esposa de Cristo, reduzida a escritório temeroso do relato dominante. Custa imaginar uma imagem mais humilhante do colapso interior de uma parte do episcopado.
E depois virão os lamentos pela desafeição dos fiéis, pela perda de respeito à autoridade, pela erosão do vínculo entre povo cristão e hierarquia. Mas esse desprestígio não cai do céu. Trabalham-no com disciplina. Cada vez que um bispo dá a entender que a salvação de uma alma pesa menos que o medo à imprensa, ensina aos fiéis que seu pastor não acredita de todo no que prega. Cada vez que uma Missa fica submetida a cálculos de oportunidade, transmite-se que a liturgia não é o mais importante. Cada vez que se invoca a prudência para encobrir a covardia, profana-se um pouco mais a palavra prudência.
Não estamos ante um simples erro de governo nem ante uma torpeza comunicativa. Estamos ante uma radiografia moral. A de uma hierarquia que, em demasiados casos, já não teme a Deus, mas ao mundo. Uma hierarquia que se atreve a corrigir preventivamente os fiéis, mas não a desafiar o clima ideológico dominante. Uma hierarquia que conserva as formas, mas extravou o nervo. E um bispo que nega uma Missa em sua catedral por “risco de conotações” não está evitando um escândalo: está o protagonizando.
Porque o verdadeiro escândalo não era rezar pela alma de um falecido. O verdadeiro escândalo é que um arcebispo tenha considerado mais grave o possível mal-estar da opinião publicada que seu dever de atuar como pastor católico. Esse é o escândalo. Esse é o sintoma. E esse é, também, o julgamento mais severo contra quem preferiu administrar percepções antes que custodiar o altar.