A decisão do arcebispo castrense da Espanha, Juan Antonio Aznárez Cobo, de negar as exéquias pela alma de Antonio Tejero Molina na Catedral das Forças Armadas não é simplesmente discutível. É escandalosa. E o é ainda mais quando se observa o contraste com o que ocorreu apenas alguns meses antes nesse mesmo templo.

Em agosto de 2025, celebrou-se na Catedral Castrense de Madrid uma missa fúnebre pelo tenente-coronel José María Sánchez Silva, apresentado publicamente durante anos como o primeiro militar espanhol de alta graduação que declarou sua homossexualidade. Sua figura foi convertida em símbolo do ativismo LGTBI dentro do Exército, e sua morte foi acompanhada de numerosos homenagens mediáticos e políticos.
A cerimónia religiosa na catedral castrense não foi uma simples missa discreta por um difunto. Tornou-se num ato carregado de significado ideológico, no qual intervieram pessoas vinculadas ao ativismo LGTBI e onde a própria figura do falecido foi reivindicada como referente desse movimento dentro das Forças Armadas. Ninguém na hierarquia castrense considerou então que aquilo pudesse causar escândalo público, nem que fosse inconveniente celebrar as exéquias no principal templo da jurisdição militar.

No entanto, quando a família de Antonio Tejero Molina —católicos praticantes a ponto de que seu filho é sacerdote e vinculados durante décadas ao mundo militar— solicitou celebrar as exéquias pelo seu pai nessa mesma catedral, o arcebispo castrense decidiu negá-las. Portazo. Não há misericórdia para todos, todos, todos. Parece ser que alguns católicos estamos fora.
A família tornou público um comunicado no qual denuncia que não lhes foi oferecida nenhuma razão eclesial para justificar a decisão. Nenhuma explicação canónica. Nenhum argumento pastoral. Só uma negativa.
A comparação é inevitável. Para um militar convertido em símbolo do ativismo LGTBI dentro do Exército, sim houve missa na Catedral Castrense. Para Antonio Tejero, não. Para um caso, abertura total do templo. Para o outro, a porta fechada. Para uns, acolhida pública. Para outros, exclusão absoluta.
Quando um bispo decide negar um funeral num caso assim, introduz de facto um critério político dentro da vida litúrgica da Igreja. Porque então a pergunta é inevitável: que tipo de vidas merecem a oração pública da Igreja e quais não? Quem estabelece esse filtro? O Evangelho ou o clima woke ideológico do momento?
O que ocorreu transmite uma mensagem devastadora para muitos fiéis. Se o difunto encaixa com a sensibilidade dominante, as portas da catedral abrem-se. Se o difunto é incómodo para o relato político atual, a Igreja retira-se e deixa sozinha a família.
O problema não é Antonio Tejero. O problema é o precedente que se cria quando um bispo permite que o medo ao julgamento do mundo determine decisões pastorais tão graves. Porque se a Igreja começa a decidir a quem se pode rezar em função da sua reputação pública, então a misericórdia deixa de ser universal e torna-se seletiva.
Isso não é o Evangelho. Isso é simples cálculo humano.
A reação de muitos fiéis perante esta decisão não pode ser de indiferença. Não se trata de defender uma biografia concreta, mas de defender um princípio elemental da fé católica: a Igreja reza por todos os seus filhos, especialmente quando morrem.
Negar esse consolo espiritual a uma família que o solicita, sem razões canónicas claras e depois de ter permitido cerimónias carregadas de significado ideológico no mesmo templo, não só é uma incoerência pastoral. É um escândalo eclesial que exige explicação.