Pelo P. Paul D. Scalia
Se Deus não queria que comessem da árvore, por que a colocou ali? Essa pergunta não é tão adolescente e petulante quanto pode parecer. Deus não age ao acaso em sua Criação. Deve ter tido uma razão para colocar aquela única árvore proibida no jardim. O Catecismo o explica bem: a árvore do conhecimento do bem e do mal «evoca os limites insuperáveis que o homem, por ser criatura, deve reconhecer e respeitar livremente com confiança». (CEC 396)
Ora, «reconhecer e respeitar livremente com confiança» é algo que o Diabo simplesmente não pode fazer. Quer seus dons criados para si mesmo, sem Criador nem Doador. Recusa-se a reconhecer ou respeitar seus limites de criatura. Non serviam, jacta-se. Não servirei. . . .Não observarei limites.
A miséria busca companhia, assim o Diabo quer reproduzir sua mentalidade em outros. Suas primeiras vítimas são Adão e Eva. (Gênesis 3,1-7) Pergunta: «Então Deus vos disse que não comêsseis de nenhuma das árvores do jardim?». Não pergunta para obter uma resposta. Está insinuando que os limites são absurdos e que quem os estabelece é hostil. Deus está contra vós porque vos impôs limites. Adão e Eva mordem a isca. Estendem-se além do lugar que lhes foi designado e, nesse mesmo apego, caem.
O Diabo segue o mesmo plano quando se aproxima de Jesus no deserto. (Mateo 4,1-11) Ora, se o Diabo não pode compreender as bênçãos da condição de criatura, então as limitações da Encarnação lhe resultam absolutamente impenetráveis. A Encarnação não é uma ficção nem um jogo de imaginação. Deus realmente se confinou e se limitou à nossa natureza humana: a nascer de uma mulher, a experimentar cansaço, fome, sede e tristeza. Até mesmo a ser tentado.
O Diabo não pode captar a gozosa dependência do Filho eterno em relação ao Pai: «Em verdade, em verdade vos digo: o Filho não pode fazer nada por si mesmo. . . .Eu não posso fazer nada por mim mesmo». (João 5,19.30) Tampouco pode compreender a gozosa aceitação do Filho de nossa natureza humana criada. Para Satanás, o poder divino significa fazer o que se quer, sem servir a ninguém. Certamente, não significa impor-se limites a si mesmo por humildade.
Por isso, empurra Jesus além dos limites. Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se convertam em pães. Jesus experimenta fome em sua natureza humana e confia gozosamente em que o Pai o sustentará. Tampouco usará seu poder divino para criar um atalho em seu ministério, oferecendo alimento físico em lugar de espiritual. Sua resposta aponta dependência, limites e confiança em Deus: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.
Um dia, Jesus alimentará milagrosamente a multidão com pães. Mais ainda, se dará a si mesmo como o Pão da Vida. Adão foi enganado por uma fome falsa e se apegou ao fruto da árvore. Suspenso da árvore da Cruz, o Novo Adão nos alimenta com a Eucaristia, seu próprio Corpo e Sangue. Faz isso não para si mesmo, mas em obediência à vontade do Pai para nosso bem.
Em seguida vem a segunda tentação. O Diabo propõe uma exibição ousada: que Jesus se lance do parapeito do templo e presuma que o Pai o salvará. Se és Filho de Deus, atira-te para baixo. No fundo, Demuestra-o.
O poder divino de Jesus é ilimitado, mas não desprovido de propósito. Está, em certo sentido, circunscrito pela razão e pelo fim. Um dia, fará milagres. Expulsará demônios e curará, caminhará sobre as águas e multiplicará os pães. Mas esses milagres não são truques de salão. Não os realiza para provar quem é. De fato, repreende aqueles que (como o Diabo) exigem sinais. (Mateus 16,4; 12,39) Seu poder divino não se exerce caprichosamente, mas para nosso bem: para revelar, instruir e convidar à fé.
Finalmente, a terceira e mais demoníaca tentação: obter poder sobre todos os reinos adorando a Satanás. Não é mais que uma repetição da tentação no jardim. Alcançar além do lugar que nos foi designado sempre nos leva aos pés do Diabo. A verdadeira liberdade não se encontra em apegar-se ao poder, mas em receber o que Deus dá.
A batalha no deserto é entre aquele que rejeitou todo limite e Aquele que se limitou a si mesmo —que até se revestiu de nossa natureza humana, foi envolto em faixas e um dia será pregado na Cruz—. É um combate entre o ilimitado e o Limitado. A morte entrou no mundo pelo rejeição orgulhosa dos limites por parte de Adão. A vida chega pelas humildes limitações do Novo Adão.
Vivemos em uma cultura que rejeita os limites e abraça o conceito demoníaco de liberdade. Pensamos que, para sermos livres, devemos despojar-nos até mesmo dos limites de nossa natureza humana. Para nós, a liberdade exige que o marido e a mulher sejam libertados de sua união, que uma mãe seja libertada de seu filho não nascido, que uma criança se torne menina e que nossas almas sejam carregadas em máquinas.
No deserto, o Senhor Encarnado nos mostra o verdadeiro caminho. Ao humilhar-se —ao limitar-se— em nossa natureza humana e confiar em seu Pai, vence as tentações do Diabo. Fez isso não por si mesmo, mas por nós. Para que possamos seguir humildemente o caminho que Ele traçou e chegar à «gloriosa liberdade dos filhos de Deus». (Romanos 8,21)

Sobre o autor
O P. Paul Scalia é sacerdote da diocese de Arlington, Virgínia, onde serve como Vigário Episcopal para o Clero e pároco de Saint James em Falls Church. É autor de That Nothing May Be Lost: Reflections on Catholic Doctrine and Devotion e editor de Sermons in Times of Crisis: Twelve Homilies to Stir Your Soul.