Há notícias que não dividem a Igreja: elas a retratam. A publicada pela Infovaticana sobre o sacerdote absolvido penalmente por posse de imagens de menores nus —mas cuja conduta foi descrita em detalhe em sede judicial— não é apenas um caso concreto de governo diocesano discutível. É um espelho incômodo. E o verdadeiramente revelador não é unicamente o nomeamento como capelão hospitalar após aquele episódio, mas a reação automática de uma parte do ecossistema digital católico.
Convém recordar os fatos nus de sentimentalismo: houve investigação, houve intervenção de equipe informática, houve condenação em primeira instância por posse de pornografia infantil e houve absolvição posterior porque as imagens, embora mostrando menores nus, não se enquadravam no tipo penal segundo a interpretação restritiva do artigo 189 do Código Penal. Ou seja: não houve delito penal conforme a esse tipo. Ponto. Mas nos fatos provados ficaram descritas descargas reiteradas e organização de arquivos. Isso não é uma opinião; é matéria judicial.
A partir daí a questão deixa de ser penal e passa a ser prudencial. É razoável colocar em um âmbito pastoral sensível alguém que esteve objetivamente vinculado a um episódio dessa natureza? Essa é a pergunta. Não é uma acusação nova, não é uma condenação paralela, não é um linchamento. É uma questão de governo e de proteção de menores.
No entanto, a reação de alguns tuiteros tem sido ilustrativa até o sarcasmo. “Daqui não me baixa nem o Papa”, diz uma defensora irada. A frase, pronunciada em nome da lealdade, revela justamente o contrário: uma papolatria utilitária. O Papa serve como muro simbólico quando convém fechar o debate, mas não como instância real de discernimento. Não é obediência; é blindagem emocional.
Outro argumento estrela: “A mim também se me baixou algo por erro no eMule”. A coartada técnica convertida em catecismo popular. Resulta curioso que nesses casos sempre haja erros informáticos seletivos, buscas inocentes e descargas involuntárias, mas nunca uma explicação técnica independente que o acredite. A apelação à anedota pessoal substitui a análise objetiva. A emoção substitui o fato.
E depois chega o recurso final: “Deus vos pedirá contas”. É o chantagem piedosa que transforma a exigência de transparência em pecado contra a caridade. Perguntar se converte em atacar. Investigar se converte em vingar-se. Pedir prudência se converte em lançar a primeira pedra. Assim funciona o clericalismo: não como doutrina escrita, mas como reflexo instintivo de proteção corporativa.
O que esses tuits revelam não é uma maioria sociológica —são minoritários—, mas uma mentalidade persistente. Uma mentalidade que confunde presunção de inocência com idoneidade pastoral automática. Que identifica misericórdia com ausência de consequências. Que reduz a proteção de menores a uma questão de tipicidade penal, como se a Igreja só devesse atuar quando um juiz a obriga.
O problema não é que alguém defenda um sacerdote que considera inocente. O problema é que se descalifique como “majadero” ou como inimigo da Igreja quem plantea perguntas documentadas. O problema é que o instinto não seja proteger os vulneráveis e a credibilidade eclesial, mas fechar fileiras.
Durante décadas, a impunidade não sobreviveu por falta de leis. Sobreviveu por este mecanismo psicológico: minimizar, relativizar, personalizar o debate e acusar de maldade quem incomoda. “Não é delito”. “Já está perdoado”. “Estais danificando a Igreja”. Enquanto tanto, a pergunta prudencial segue sem se responder.
A notícia da Infovaticana poderá agradar mais ou menos. Poderá discutir-se seu enfoque. Mas o nervo que tocou é evidente. Quando a reação imediata ante fatos judiciais descritos é o insulto, a caricatura ou a invocação defensiva ao Papa, o que aflora não é amor à Igreja. É medo de que se examine seu modo de se governar.
E aí está o fundo do assunto: a Igreja não perde credibilidade porque um meio pergunte. Perde-a quando quem deveria exigir os padrões mais altos de prudência se contenta com o mínimo penal e chama perseguição a qualquer escrutínio.

