Em Alemanha, a Igreja Católica mantém uma das estruturas econômicas mais sólidas do mundo, mas apresenta um dos indicadores sacramentais mais baixos do planeta. O dado oficial de assistência dominical —6,6 % dos católicos registados— não admite reinterpretações otimistas. Mais de 93 % daqueles que figuram como católicos não participam regularmente na Eucaristia. Sobre esta base, o percentagem de fiéis conscientes da necessidade de se confessarem e permanecerem em estado de graça pode reduzir-se, entre os próprios católicos, a uma percentagem anedótica inferior a 1%.
Não estamos perante uma simples perda de fervor. Estamos perante uma desconexão massiva do núcleo sacramental. Quando a Missa dominical deixa de ser o ato estruturante da comunidade e passa a ser uma prática minoritária, a Igreja deixa de se organizar em torno do altar e converte-se numa instituição cultural com referência cristã. Em termos estritos, uma comunidade na qual apenas um em cada quinze fiéis pratica regularmente deixou de ser sociologicamente operativa como Igreja viva e põe em perigo objetivo as almas.
Vocações: colapso estrutural, não crise conjuntural
O panorama vocacional confirma o diagnóstico com precisão aritmética. Com cerca de 150 seminaristas diocesanos em todo o país e apenas 28 ordenações anuais para quase vinte milhões de católicos, a taxa é a mais baixa do mundo. Não se trata de uma taxa insuficiente de substituição. É uma base formativa incapaz de sustentar a própria sobrevivência.
Uma Igreja de tal dimensão demográfica que produz menos de trinta sacerdotes por ano encaminha-se inevitavelmente para a redução drástica da sua rede paroquial, a concentração forçada de comunidades e a dependência estrutural do clero estrangeiro. A estatística não descreve uma dificuldade transitória. Descreve uma impossibilidade matemática de continuidade nos termos atuais.
O contraste resulta especialmente significativo quando se observa que, no mesmo território, comunidades como a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) e a Fraternidade Sacerdotal de São Pedro (FSSP) contam, em conjunto, com cifras de seminaristas comparáveis às de todas as dioceses alemãs somadas. E isso que a Alemanha não é historicamente um bastião tradicionalista. No entanto, ali onde a liturgia permanece estável, a doutrina não se negocia e a identidade sacerdotal se afirma com clareza, as vocações existem. O dado é empírico.
Abuso litúrgico e laxidão sacramental: erosão desde dentro
À fraqueza demográfica acrescenta-se um deterioro qualitativo que não pode ser ignorado. A extensão de abusos litúrgicos, a banalização do sentido sacrificial da Missa, a flexibilização da disciplina sacramental e uma reinterpretação progressiva da moral católica geraram um clima de ambiguidade permanente. Quando a liturgia perde o seu caráter sagrado e a praxis sacramental se relativiza, a transmissão da fé ressente-se de forma inevitável.
A estatística não é causa; é consequência. Décadas de adaptação progressiva, de redefinição da linguagem doutrinal e de erosão simbólica produziram um resultado verificável: esvaziamento.
O sinodalismo como culminação do paradigma
O chamado processo sinodal alemão não surge numa Igreja forte que experimenta a partir da solidez, mas numa Igreja estatisticamente exausta. A proposta de um modelo cada vez mais laicizado, deliberativo e doutrinalmente falso apresenta-se como resposta à crise. No entanto, os dados sugerem que não estamos perante a solução, mas perante a fase final de um processo.
Reconfigurar a autoridade não gera fé e contradiz o Magistério sobre a ordem. Redistribuir competências não multiplica vocações. A reorganização institucional não substitui a vida sacramental. Se a prática dominical se situa nos 6,6 % e a base vocacional é microscópica, o problema não é de governação, mas de identidade.
Estado de necessidade e a questão da obediência
Diante deste cenário, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) invocou reiteradamente a categoria de estado de necessidade, apelando ao princípio supremo da salvação das almas como lei máxima da Igreja. Ao analisar casos concretos como o alemão, a questão que colocam transcende o emocional e entra no terreno do moral e jurídico: quando uma estrutura eclesial parece objetivamente encaminhada para a auto-desintegração, pode a teoria clássica da obediência aplicar-se de maneira abstracta se o seu efeito prático é a extinção?
Numa Igreja que mostra sinais de desaparecimento matemático, a avaliação moral não se limita à adesão formal a processos administrativos ou sinodais. Examina-se à luz do fim último: a conservação da fé e a transmissão da graça. Se a obediência se converte em instrumento de erosão doutrinal ou de esvaziamento sacramental, a discussão deixa de ser disciplinar e situa-se no plano da sobrevivência eclesial.
Roma perante uma decisão inadiável
A Alemanha converteu-se no paradigma contemporâneo do itinerário modernista: abundância de recursos, «sofisticação» institucional e, simultaneamente, prática sacramental mínima e vocações em mínimos históricos. A estatística não é hostil; é objetiva. E o que descreve é uma Igreja que, se continuar a tendência, se reduzirá a uma minoria residual sustentada por estruturas formais.
O momento sinodal coloca uma disjuntiva histórica para Roma. Ou assume-se passivamente um processo que equivale, em termos práticos, à eutanásia institucional de uma Igreja nacional, ou produz-se uma viragem doutrinal e disciplinar imediata que restaure a centralidade sacramental e a identidade católica.