A Signatura Apostólica, o mais alto tribunal da Igreja, rejeitou o último recurso apresentado por Philippe Madre, exdiácono e antigo moderador geral da comunidade das Bem-Aventuranças, confirmando assim de forma definitiva a sua condenação canónica e a sua expulsão do estado clerical.
Segundo informou o jornal francês La Croix, a decisão foi adotada em janeiro de 2026, quinze anos após Madre ter sido afastado do estado clerical. A sentença não foi publicada oficialmente, mas teria sido comunicada por via telefónica a várias das alegadas vítimas que participaram na investigação levada a cabo por Roma.
Um processo canónico prolongado
Philippe Madre, médico de profissão e antigo responsável da comunidade entre 1985 e 1992, havia sido acusado em 2003 de abusos sexuais cometidos no âmbito de acompanhamentos espirituais. Ele sempre negou os factos.
Após duas condenações por tribunais eclesiásticos em 2010 e 2011, apresentou um recurso perante a Signatura Apostólica alegando defeitos de forma. Esse recurso não prosperou, consolidando a sua expulsão do estado clerical. Paralelamente, foi excluído da comunidade das Bem-Aventuranças em 2010.
A recente decisão revela que o exmoderador, hoje com 75 anos, voltou a recorrer a Roma para defender a sua inocência. O tribunal vaticano desestimou definitivamente essa apelação, sem possibilidade de ulterior recurso.
O percurso na justiça civil
O caso também teve percurso na jurisdição civil francesa. Em 2010, abriu-se uma investigação judicial por alegada violação cometida por uma pessoa que abusava da autoridade derivada da sua função. Várias mulheres que haviam pertencido à comunidade acusaram-no de abusos cometidos durante anos na casa comunitária de Cordes-sur-Ciel, onde exercia simultaneamente como responsável espiritual e médico.
Segundo os testemunhos recolhidos no procedimento judicial, as denunciantes afirmavam que os factos se produziram num contexto de forte dependência espiritual e psicológica.
No entanto, após diversos recursos, a justiça civil ditou em 2018 um sobreseimento ao considerar insuficientemente caracterizados certos elementos jurídicos, decisão confirmada posteriormente pelo Tribunal de Cassação, o que pôs fim à via penal.
A comunidade das Bem-Aventuranças
A comunidade das Bem-Aventuranças foi fundada em França em 1973 por Gérard Croissant, conhecido como Ephraïm. De espiritualidade carismática e com presença internacional, chegou a expandir-se por vários países e a reunir membros consagrados e leigos em vida comunitária.
Nas últimas décadas, a comunidade atravessou diversas crises internas e processos de reforma impulsionados pela Santa Sé. Em 2008, o seu fundador foi afastado e posteriormente excluído da comunidade. A partir de então, iniciou-se uma reorganização estrutural e estatutária sob supervisão eclesial, com o objetivo de clarificar o seu governo e prevenir abusos de autoridade.
O caso de Philippe Madre inscreve-se nesse período de revisão e depuração interna que afetou a instituição nos anos posteriores.
Outras condenações posteriores
À margem dos factos vinculados à comunidade, Philippe Madre foi condenado em 2014 a um ano de prisão com suspensão de pena por falsificação e estafa relacionadas com a sua atividade médica. Nesse mesmo ano, foi sancionado disciplinarmente pelo colégio regional de médicos.
A decisão definitiva da Signatura Apostólica encerra assim o percurso canónico de um caso que marcou a história recente da comunidade das Bem-Aventuranças e que remonta a mais de duas décadas.