Por Michael Pakaluk
A lealdade é uma virtude republicana, e algo mais que isso. «O povo americano tem recelado da palavra lealdade, talvez porque a considera o correlato da realeza», diz Orestes Brownson em sua grande obra sobre nosso país, The American Republic; «mas a lealdade é mais bem o correlato da lei».
Este fato se percebe com apenas uma olhada nos componentes da palavra. Provém claramente do francês para lei, loi. Lealdade é loi-aldade. No latim medieval era simplesmente legalitas. A lealdade é, em seu sentido mais fundamental, respeito à lei.
Mas a lealdade não é simplesmente «uma» virtude, se Brownson tem razão. Lembremos que ele escrevia em 1865, logo após os homens desleais, os «rebeldes», terem sido derrotados, e de que centenas de milhares de homens leais entregassem sua vida por seu país. Ouçamo-lo:
A lealdade é a mais alta, nobre e generosa das virtudes humanas, e é o elemento humano daquele amor sublime ou caridade que o Apóstol inspirado nos diz que é o cumprimento da lei. Contém em si o princípio da entrega, do sacrifício de si mesmo, e é, de todas as virtudes humanas, a que faz o homem mais semelhante a Deus. Não há nada grande, generoso, bom ou heroico do qual um povo verdadeiramente leal não seja capaz, nem nada mesquinho, vil, cruel, brutal, criminoso ou detestável que não deva ser esperado de um povo realmente desleal.
Assim, o que está em jogo com esta virtude, a lealdade, é enorme.
E, no entanto, parece correto dizer que nossa tradição católica, pelo menos em seu sistema ético, não oferece uma orientação direta sobre ela. Digo «em seu sistema», porque quem pode ser melhor mestre da natureza da lealdade que santo Tomás Moro, com seu martírio e sua célebre «o bom servo do rei, mas primeiro de Deus»?
E, no entanto, não há em santo Tomás uma virtude clássica que se corresponda exatamente com ela, e o Catecismo guarda quase silêncio a respeito. «Cada homem deve lealdade às comunidades das quais faz parte» (§ 1880), diz a tradução inglesa, mas o latim e o francês afirmam, mais simplesmente, que deve estar dedicado a essas comunidades, o que é outra coisa.
Brownson parecia acreditar que era impossível que o que hoje chamaríamos de «um liberal» pudesse ser leal de forma alguma. Definamos liberal como alguém que acredita que não estamos obrigados por nada ao que não tenhamos consentido. A obrigação de uma mãe com seu filho, então, provém do fato de que ela aceitou levá-lo a termo. A obrigação de um cristão de crer procede de seu compromisso com a fé como adulto maduro. A obrigação de um cidadão de obedecer à lei provém do fato de que, de algum modo, ele participou de um contrato social pelo qual «enajenou» certos direitos em favor de um governo. É leal e respeitoso da lei apenas no sentido de que deseja ser fiel a si mesmo e à sua palavra.
Mas Brownson situa a lealdade em primeiro lugar entre as virtudes humanas porque é um reconhecimento da autoridade de Deus e de sua lei, que flui de cima, através de um governo responsável pelo bem comum de um povo concreto, enraizado em um lugar concreto. Estamos obrigados pela lei de Deus porque Ele é nosso Criador, e é verdadeiro e justo, independentemente do que tenhamos acordado. Por isso o sacrifício de um soldado no campo de batalha por uma causa justa pode ser tão admirável e mesmo fecundo, porque é um retorno a Deus do dom da própria vida.
A lealdade, entendida eticamente, requer personificação. É para a mãe pátria ou a pátria, ou para a nação em relação ao Pai da Pátria.
A famosa homilia de são João Paulo II na Praça da Vitória de Varsóvia, diante do Túmulo do Soldado Desconhecido, é um hino à lealdade: «Desejo ajoelhar-me diante deste túmulo para venerar cada semente que cai na terra e morre, e assim dá fruto».
Depois generaliza e, sem dizê-lo de maneira explícita, converte a lealdade na virtude animadora de toda a vida de um cidadão e patriota:
Pode ser a semente do sangue de um soldado derramado no campo de batalha, ou o sacrifício do martírio nos campos de concentração ou nas prisões. Pode ser a semente do duro trabalho cotidiano, com o suor da fronte, nos campos, a oficina, a mina, as fundições e as fábricas. Pode ser a semente do amor dos pais que não rechaçam dar a vida a um novo ser humano e assumir toda a tarefa de educá-lo. Pode ser a semente do trabalho criativo nas universidades, os institutos superiores, as bibliotecas e os lugares onde se constrói a cultura nacional. Pode ser a semente da oração, do serviço aos doentes, aos que sofrem, aos abandonados: «tudo aquilo de que está feita a Polônia».
A virtude de são Maximiliano Kolbe, de um ponto de vista humano, foi a lealdade. Também o é a recusa de uma mãe em contemplar o aborto. Também o é a do professor que escreve aquele artigo acadêmico que pode «cair na terra», no sentido de que ninguém o leia.
Eu disse que a Igreja, em sua tradição de ética clássica, não ensina diretamente sobre a lealdade. Mas sim ensina que o respeito à lei exige respeitar a ordem da autoridade, a primazia da lei natural e o princípio de que «deve governar a lei, não um homem».
Assim, santo Tomás Moro não foi desleal quando, respeitando a ordem da autoridade, afirmou que era servo de Deus antes que do rei, nem o foram os Apóstolos quando disseram que deviam obedecer a Deus antes que aos homens.
E Antígona não foi desleal quando obedeceu à lei natural enterrando seu irmão, nem tampouco teria sido desleal um soldado alemão, nem a seu país nem a nenhum juramento, ao desobedecer uma ordem de assassinato.
Da mesma forma, a acusação de deslealdade nunca é pertinente com relação a quem critica ou mesmo resiste a qualquer exercício arbitrário da autoridade.
Sobre o autor
Michael Pakaluk, estudioso de Aristóteles e Ordinarius da Pontifícia Academia de Santo Tomás de Aquino, é professor de Economia Política na Busch School of Business da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, Maryland, com sua esposa Catherine, também professora na Busch School, e seus filhos. Sua coleção de ensaios, The Shock of Holiness (Ignatius Press), já está disponível. Seu livro sobre a amizade cristã, The Company We Keep, está disponível na Scepter Press. Foi colaborador em Natural Law: Five Views (Zondervan, maio passado), e seu livro mais recente sobre os Evangelhos apareceu em março com Regnery Gateway, Be Good Bankers: The Economic Interpretation of Matthew’s Gospel. Pode segui-lo no Substack em Michael Pakaluk.