O Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X concedeu sua primeira entrevista após anunciar publicamente a decisão de prosseguir com novas consagrações episcopais sem mandato pontifício, previstas para o próximo 1º de julho. Na entrevista, publicada por FSSPX Actualidad e datada de 2 de fevereiro de 2026, Davide Pagliarani justifica esta determinação no princípio canônico da salus animarum como lei suprema, no contexto do que considera um estado objetivo e prolongado de necessidade espiritual na Igreja, agravado pela continuidade doutrinal e pastoral do pontificado posterior a Francisco e pela ausência de uma resposta satisfatória de Roma às gestões realizadas pela Fraternidade.
Fonte: FSSPX Actualidad
FSSPX.Actualidad: Reverendo Superior Geral, o senhor acaba de anunciar publicamente sua intenção de prosseguir com novas consagrações episcopais no seio da Fraternidade Sacerdotal São Pio X no próximo 1º de julho. Por que anunciá-lo precisamente hoje, 2 de fevereiro?
Don Davide Pagliarani: A festa da Purificação da Santíssima Virgem reviste uma importância particular na Fraternidade. Neste dia, os candidatos ao sacerdócio recebem a batina. A Apresentação de Nosso Senhor no Templo, que celebramos hoje, recorda-lhes que a chave de sua formação e de sua preparação para as Ordens se encontra no dom de si mesmos, que passa pelas mãos de Maria. É uma festa mariana de suma importância; quando Simeão anuncia a Nossa Senhora uma espada de dor, indica-lhe claramente seu papel de Corredentora ao lado de seu divino Filho. Nossa Senhora acompanha da mesma maneira o futuro sacerdote em sua formação e durante toda a sua vida: é Ela quem forma continuamente Nosso Senhor em sua alma.
FSSPX.Actualidad: Houve rumores insistentes sobre este anúncio nos últimos meses, especialmente após o falecimento de Mons. Tissier de Mallerais em outubro de 2024. Por que esperou até agora?
Don Davide Pagliarani: Assim como Mons. Lefebvre em seu dia, a Fraternidade sempre procurou não se adiantar à Providência, mas segui-la, deixando-se guiar por suas indicações. Uma decisão de tal importância não pode ser tomada levianamente, nem com precipitação.
Concretamente, tratando-se de um assunto que obviamente concerne à autoridade suprema da Igreja, impunha-se, em primeiro lugar, empreender as oportunas gestões perante a Santa Sé – como fizemos –, aguardando, durante um prazo razoável, uma resposta. Não podíamos tomar a decisão sem ter manifestado de maneira concreta nosso reconhecimento da autoridade do Santo Padre.
FSSPX.Actualidad: Em sua homilia, o senhor disse que escreveu ao Papa. Poderia nos dizer algo mais a respeito?
Don Davide Pagliarani: No verão passado, escrevi ao Santo Padre para solicitar uma audiência. Não tendo recebido resposta alguma, escrevi uma nova carta, alguns meses mais tarde; uma carta simples e filial, sem ocultar-lhe nenhum detalhe sobre nossas necessidades. Mencionava nossas divergências doutrinais, mas também nosso sincero desejo de servir sem descanso à Igreja católica, pois somos servidores da Igreja apesar da falta de reconhecimento canônico.
Uma resposta a esta segunda carta nos foi enviada de Roma há alguns dias, com assinatura do cardeal Fernández. Infelizmente, esta resposta rejeita sem mais nossa proposição, sem nos oferecer uma solução alternativa.
Esta proposta, tendo em conta as circunstâncias absolutamente excepcionais em que se encontra a Fraternidade, consiste, em resumo, em que a Santa Sé aceite nos deixar continuar provisoriamente em nossa situação de exceção, pelo bem das almas que acorrem a nós. Da mesma forma, reiteramos ao Papa nossa promessa de dedicar todas as nossas energias à salvaguarda da Tradição e a fazer de nossos fiéis verdadeiros filhos da Igreja. Parece-me que uma proposta assim é, ao mesmo tempo, realista e razoável, e que poderia, em princípio, receber o beneplácito do Santo Padre.
FSSPX.Actualidad: Mas então, se ainda não recebeu essa permissão, por que considera que deve prosseguir de todos os modos com as consagrações episcopais?
Don Davide Pagliarani: Trata-se de um meio extraordinário, proporcionado a uma necessidade ao mesmo tempo real e extraordinária. Certamente, a simples existência de uma necessidade para o bem das almas não implica, por si só, que qualquer iniciativa em seu favor fique automaticamente justificada. Em nosso caso, após um longo período de espera, observação e oração, parece-nos poder afirmar hoje que o estado objetivo de grave necessidade em que se encontram as almas, a Fraternidade e a Igreja exige esta decisão.
Com o legado que nos deixou o papa Francisco, as razões de fundo que já haviam justificado as consagrações de 1988 conservam toda a sua vigência e revelam-se, hoje, em muitos aspectos, ainda mais pertinentes. O Concílio Vaticano II continua sendo e é hoje mais do que nunca a bússola que guia os homens da Igreja, e é pouco provável que venham a mudar de rumo em um futuro imediato. As grandes orientações que já se perfilam para o novo pontificado, em particular após o último consistório, o confirmam plenamente: nelas percebe-se uma determinação explícita de manter a linha de Francisco como um caminho irreversível para toda a Igreja.
«Reiteramos ao Papa nossa promessa de dedicar todas as nossas energias à salvaguarda da Tradição e a fazer de nossos fiéis verdadeiros filhos da Igreja»
É triste constatá-lo, mas é um fato: em uma paróquia média, os fiéis já não encontram os recursos necessários para assegurar sua salvação eterna. Em particular, no que se refere à pregação íntegra da verdade e da moral católicas, assim como à administração dos Sacramentos tal como a Igreja os concebeu sempre. Este é o resumo do estado de necessidade. Neste contexto crítico, nossos bispos vão envelhecendo e, com o crescimento contínuo do apostolado, já não dão conta de responder às necessidades dos fiéis em todo o mundo.
FSSPX.Actualidad: Em que sentido considera o senhor que o consistório do mês passado confirma a direção tomada pelo papa Francisco?
Don Davide Pagliarani: O cardeal Fernández, em nome do papa Leão, convidou a Igreja a voltar à intuição fundamental de Francisco, expressa em Evangelii gaudium, sua encíclica chave: de maneira simplificada, trata-se de reduzir o anúncio do Evangelho à sua expressão primitiva essencial, em fórmulas muito concisas e contundentes – o «kerygma» –, com vistas a uma «experiência», a um encontro imediato com Cristo, deixando de lado tudo o mais, por valioso que seja; concretamente, o conjunto dos elementos da Tradição, considerados como acessórios e secundários. Este método da nova evangelização é o que produziu o vazio doutrinal característico do pontificado de Francisco, que uma parte importante da Igreja experimentou com tanta intensidade.
Certamente, nesta perspectiva, há que se preocupar sempre em oferecer respostas novas e adequadas às questões que surgem; mas esta tarefa deve ser realizada através da reforma sinodal, e não redescobrindo as respostas clássicas e sempre válidas, proporcionadas pela Tradição da Igreja. Desta forma, no suposto «sopro do Espírito» desta reforma sinodal, Francisco pôde impor a toda a Igreja decisões catastróficas, como a autorização da comunhão para os divorciados recasados ou a bênção de casais do mesmo sexo.
Em síntese: mediante o «kerygma», o anúncio do Evangelho se isola de todo o corpus da doutrina e da moral tradicionais; e mediante a sinodalidade, as respostas tradicionais são substituídas por decisões arbitrárias, facilmente absurdas e doutrinalmente injustificáveis. O próprio cardeal Zen considera que este método é manipulador e que atribuí-lo ao Espírito Santo é blasfemo. É de temer; por desgraça, que ele tenha razão.
FSSPX.Actualidad: O senhor fala de serviço à Igreja, mas, na prática, a Fraternidade pode dar a impressão de desafiar a Igreja, sobretudo se contemplam novas consagrações episcopais. Como o senhor o explicaria ao Papa?
Don Davide Pagliarani: Servimos à Igreja, antes de tudo, servindo às almas. Isto é um fato objetivo, independentemente de qualquer outra consideração. A Igreja existe fundamentalmente para as almas: sua finalidade é a santificação das almas e sua salvação. Todos os belos discursos, os diversos debates e os grandes temas sobre os quais se discute ou poderia discutir carecem de sentido se não tiverem como objetivo a salvação das almas. Conviene recordá-lo, porque hoje existe o perigo de que a Igreja se ocupe de tudo e de nada. A preocupação ecológica, por exemplo, ou a defesa dos direitos das minorias, das mulheres ou dos migrantes, correm o risco de fazer perder de vista a missão essencial da Igreja. Se a Fraternidade São Pio X luta por conservar a Tradição, com tudo o que isso implica, é unicamente porque estes tesouros são absolutamente indispensáveis para a salvação das almas, e porque não persegue outra coisa, além do bem das almas e o do sacerdócio ordenado à sua santificação.
«Em uma paróquia média, os fiéis já não encontram os recursos necessários para assegurar sua salvação eterna. Este é o resumo do estado de necessidade»
Ao agir assim, colocamos a serviço da Igreja aquilo que conservamos. Oferecemos à Igreja não um museu de coisas antigas e empoeiradas, mas a Tradição em sua plenitude e fecundidade: a Tradição que santifica as almas, que as transforma, que suscita vocações e famílias autenticamente católicas. Dito de outro modo: é para o próprio Papa, enquanto tal, para quem conservamos este tesouro, até o dia em que se volte a compreender seu valor e em que um Papa queira servir-se dele para o bem de toda a Igreja. Porque é a esta última a quem pertence a Tradição.
FSSPX.Actualidad: O senhor fala do bem das almas, mas a Fraternidade não tem missão sobre as almas. Ao contrário, foi suprimida canonicamente há mais de cinquenta anos. Em virtude de quê pode se justificar uma missão da Fraternidade com relação às almas?
Don Davide Pagliarani: Trata-se simplesmente de uma questão de caridade. Não queremos nos atribuir uma missão que não temos. Mas, ao mesmo tempo, não podemos nos negar a responder à angústia espiritual das almas que, cada vez mais, se encontram perplexas, desorientadas e perdidas. Pedem auxílio. E após terem buscado durante muito tempo, encontram, de maneira perfeitamente natural, nas riquezas da Tradição da Igreja, vividas integralmente, com uma alegria muito profunda, a luz e o consolo. Com relação a estas almas, temos uma verdadeira responsabilidade, embora não tenhamos uma missão canônica: se alguém vê na rua uma pessoa em perigo, está obrigado a socorrê-la segundo suas possibilidades, embora não seja nem bombeiro nem polícia.
O número de almas que acorreram a nós não deixou de crescer com o passar dos anos e aumentou, inclusive, de maneira considerável durante a última década. Ignorar suas necessidades e abandoná-las significaria traí-las e, com isso, trair a própria Igreja, pois, uma vez mais, a Igreja existe para as almas e não para alimentar discursos vãos e fúteis.
Esta caridade é um dever que prima sobre todos os outros. O próprio direito da Igreja o prevê assim. No espírito do direito da Igreja, expressão jurídica desta caridade, o bem das almas passa antes de tudo. Representa verdadeiramente a lei das leis, à qual todas as outras estão subordinadas e perante a qual nenhuma lei eclesiástica prevalece. O axioma «suprema lex, salus animarum» – a lei suprema é a salvação das almas – é uma máxima clássica da tradição canônica, retomada explicitamente, aliás, no último cânon do Código de 1983; no atual estado de necessidade, deste princípio fundamental depende, em última instância, toda a legitimidade de nosso apostolado e de nossa missão com relação às almas que acorrem a nós. Trata-se, da nossa parte, de um papel de suplência, em nome desta mesma caridade.
FSSPX.Actualidad: O senhor é consciente de que o fato de contemplar novas consagrações episcopais poderia colocar os fiéis que recorrem à Fraternidade diante de um dilema: ou a escolha da Tradição íntegra com tudo o que isso implica, ou a «plena» comunhão com a hierarquia da Igreja?
Don Davide Pagliarani: Este dilema é na realidade apenas aparente. É evidente que um católico deve conservar tanto a integridade da Tradição como a comunhão com a hierarquia. Não pode escolher entre estes dois bens, pois ambos são necessários.
Com demasiada frequência se esquece, no entanto, que a comunhão se funda essencialmente na fé católica, com tudo o que isso implica: começando por uma verdadeira vida sacramental e pelo exercício de um governo que pregue essa mesma fé e fomente sua prática, usando sua autoridade não de maneira arbitrária, mas verdadeiramente em ordem ao bem espiritual das almas confiadas a seu cuidado.
É, precisamente, para garantir estes fundamentos, estas condições necessárias para a existência mesma da comunhão na Igreja, que a Fraternidade não pode aceitar o que se opõe a essa comunhão e a desnatura, mesmo quando isso procede, paradoxalmente, daqueles mesmos que exercem a autoridade na Igreja.
FSSPX.Actualidad: Poderia nos dar um exemplo concreto do que a Fraternidade não pode aceitar?
Don Davide Pagliarani: O primeiro exemplo que me vem à mente remonta ao ano de 2019, quando o papa Francisco, por ocasião de sua visita à península arábiga, assinou com um imã a conhecida Declaração de Abu Dabi. Nela afirmava, junto com o líder muçulmano, que a pluralidade das religiões havia sido querida como tal pela Sabedoria divina.
É evidente que uma comunhão que se fundasse na aceitação de tal afirmação, ou que a incluísse, simplesmente não seria católica, pois implicaria um pecado contra o primeiro mandamento e a negação do primeiro artigo do Credo. Considero que uma afirmação assim é mais do que um simples erro. É simplesmente inconcebível. Não pode ser o fundamento de uma comunhão católica, mas antes a causa de sua dissolução. Penso que um católico deveria preferir o martírio antes de aceitar tal afirmação.
FSSPX.Actualidad: Em todo o mundo, a tomada de consciência dos erros denunciados há tempo pela Fraternidade progride, especialmente na internet. Não convém deixar que este movimento se desenvolva com confiança na Providência, em lugar de intervir mediante um gesto público forte como as consagrações?
Don Davide Pagliarani: Este movimento é certamente positivo, e não pode senão alegrar-nos. Ilustra sem dúvida a plausibilidade do que defende a Fraternidade e convém encorajar esta difusão da verdade por todos os meios existentes. Dito isso, trata-se de um movimento que tem seus limites, pois o combate da fé não se limita a, nem se esgota em discussões e tomadas de posição cujo cenário sejam a web ou as redes sociais.
A santificação de uma alma depende certamente de uma profissão de fé autêntica, mas esta deve conduzir a uma vida verdadeiramente cristã. No domingo, as almas não precisam consultar uma plataforma de internet. O que precisam é de um sacerdote que as confesse e as instrua, que lhes celebre a santa Missa, que as santifique verdadeiramente e as conduza a Deus. As almas precisam de sacerdotes. E para ter sacerdotes, fazem falta bispos. Não «influencers». Em outras palavras, há que voltar ao mundo real, isto é, à realidade das almas e de suas necessidades objetivas concretas. As consagrações episcopais não têm outra finalidade: garantir, para os fiéis comprometidos com a Tradição, a administração do sacramento da confirmação, da ordem e de tudo o que deles se deriva.
FSSPX.Actualidad: Apesar de suas boas intenções, não pensa que a Fraternidade poderia acabar, de algum modo, tomando-se a si mesma pela Igreja, ou considerando-se insubstituível?
Don Davide Pagliarani: De maneira alguma a Fraternidade pretende se substituir à Igreja nem assumir sua missão; pelo contrário, conserva uma profunda consciência de não existir senão para servi-la, apoiando-se exclusivamente no que a Igreja mesma pregou, creu e praticou sempre e em toda parte.
A Fraternidade é, do mesmo modo, profundamente consciente de que não é ela quem salva a Igreja, pois só Nosso Senhor, que não cessa nunca de velar por ela, pode guardar e salvar Sua Esposa.
A Fraternidade é, simplesmente, em circunstâncias que não escolheu, um meio privilegiado para permanecer fiel à Igreja. Atenta à missão de sua Mãe, que durante vinte séculos alimentou seus filhos com a doutrina e os sacramentos, a Fraternidade se consagra filialmente à preservação e à defesa da Tradição íntegra, tomando os meios de uma liberdade sem equivalente para permanecer fiel a este legado. Segundo a expressão de Mons. Lefebvre, a Fraternidade não é mais do que uma obra «da Igreja católica, que continua transmitindo a doutrina»; seu papel é o de um «carteiro que leva uma carta». E seu maior desejo é ver a todos os pastores católicos unirem-se a ela no cumprimento deste dever.
FSSPX.Actualidad: Volte ao Papa. Parece-lhe verossímil pensar que o Santo Padre possa aceitar, ou ao menos tolerar, que a Fraternidade consagre bispos sem mandato pontifício?
Don Davide Pagliarani: Um Papa é antes de tudo um pai. Como tal, é capaz de discernir uma intenção reta, uma vontade sincera de servir à Igreja e, sobretudo, um verdadeiro caso de consciência em uma situação excepcional. Estes elementos são objetivos e todos os que conhecem a Fraternidade podem reconhecê-los, mesmo sem compartilhar necessariamente suas posições.
FSSPX.Actualidad: Isso resulta compreensível, em teoria. Mas pensa o senhor que, concretamente, Roma possa tolerar uma decisão semelhante por parte da Fraternidade?
Don Davide Pagliarani: O futuro permanece nas mãos do Santo Padre e, evidentemente, da Providência. Não obstante, há que reconhecer que a Santa Sé é às vezes capaz de mostrar um certo pragmatismo, inclusive uma flexibilidade surpreendente, quando está convencida de obrar pelo bem das almas.
Tomemos o caso muito atual das relações com o governo chinês. Apesar de um verdadeiro cisma da Igreja patriótica chinesa; apesar de uma perseguição ininterrupta da Igreja subterrânea, fiel a Roma; apesar de acordos regularmente renovados e depois violados pelo governo chinês, em 2023, o papa Francisco aprovou a posteriori o nomeamento do bispo de Xangai pelas autoridades chinesas. Mais recentemente, o papa Leão XIV acabou aceitando também a posteriori o nomeamento do bispo de Xinxiang, designado do mesmo modo durante a vacância da Sé Apostólica, quando o bispo fiel a Roma, várias vezes encarcerado, seguia ainda em funções. Em ambos os casos, trata-se evidentemente de prelados afins ao governo, impostos unilateralmente por Pequim com o objetivo de controlar a Igreja católica chinesa. Convém sublinhar que não se trata aqui de simples bispos auxiliares, mas de bispos residenciais, isto é, de pastores ordinários de sua diocese (ou prefeitura) respectiva, com jurisdição sobre os sacerdotes e os fiéis locais. Em Roma sabe-se perfeitamente com que finalidade foram eleitos e impostos unilateralmente estes pastores.
«A Fraternidade São Pio X não persegue outra coisa, além do bem das almas e o do sacerdócio ordenado à sua santificação»
O caso da Fraternidade é muito distinto: não se trata em absoluto de colaborar com um poder comunista ou anticristão, mas unicamente de salvaguardar os direitos de Cristo Rei e da Tradição da Igreja, em um momento de crise e de confusão generalizadas em que estes se encontram gravemente comprometidos. As intenções e as finalidades não são, evidentemente, as mesmas. O Papa o sabe. Além disso, o Santo Padre sabe perfeitamente que a Fraternidade não pretende de modo algum conferir a seus bispos jurisdição alguma, o que equivaleria a criar uma Igreja paralela.
Francamente, não vejo como o Papa poderia temer um perigo maior para as almas por parte da Fraternidade do que por parte do governo de Pequim.
FSSPX.Actualidad: Pensa o senhor que, no que respeita à Missa tradicional, a necessidade das almas é hoje tão grave como em 1988? Após as vicissitudes pelas quais passou o rito de São Pio V – sua liberalização por Bento XVI em 2007 e as restrições impostas por Francisco em 2021 –, para onde nos dirigimos com o novo Papa?
Don Davide Pagliarani: Até onde eu sei, o papa Leão XIV manteve certa discrição sobre este tema, que suscita uma grande expectativa no mundo conservador. No entanto, muito recentemente se tornou público um texto do cardeal Roche sobre a liturgia, destinado inicialmente aos cardeais que participaram do consistório do mês passado. E não há razão para duvidar de que dito texto corresponda, em suas grandes linhas, à orientação desejada pelo Papa. Trata-se de um texto muito claro e, sobretudo, lógico e coerente. Infelizmente, apoia-se em uma premissa falsa.
Concretamente, este texto, em perfeita continuidade com Traditionis custodes, condena o projeto litúrgico do papa Bento XVI. Segundo este último, o rito antigo e o novo seriam duas formas aproximadamente equivalentes, que expressariam em todo caso a mesma fé e a mesma eclesiologia, e que poderiam, portanto, enriquecer-se mutuamente. Preocupado pela unidade da Igreja, Bento XVI quis promover a coexistência de ambos os ritos e publicou em 2007 Summorum Pontificum. Para muitos, isso supôs providencialmente um redescobrimento da missa de sempre; mas a longo prazo deu lugar também a um movimento de questionamento do novo rito, movimento que pareceu problemático e que Traditionis custodes, em 2021, tratou de frear.
Fiel a Francisco, o cardeal Roche promove por sua vez a unidade da Igreja, mas conforme a uma ideia e mediante soluções diametralmente opostas às de Bento XVI: embora se mantenha a afirmação da continuidade de um rito a outro através da reforma, opõe-se firmemente à sua coexistência. Vê nela uma fonte de divisão, uma ameaça para a unidade, que deve ser superada voltando a uma autêntica comunhão litúrgica: «O bem primordial da unidade da Igreja não se alcança congelando a divisão, mas reencontrando-nos todos no compartilhar aquilo que não pode senão ser compartilhado». Na Igreja, «deveria haver um só rito», em plena sintonia com o verdadeiro sentido da Tradição.
Trata-se de um princípio justo e coerente, pois a Igreja, ao ter uma só fé e uma só eclesiologia, não pode ter senão uma só liturgia capaz de expressá-las adequadamente… Mas é um princípio mal aplicado, já que, em coerência com a nova eclesiologia pós-conciliar, o cardeal Roche concebe a Tradição como algo evolutivo, e o novo rito como sua única expressão viva para nosso tempo; o valor do rito tridentino só pode ser considerado como superado e seu uso, no máximo, uma «concessão», «em nenhum caso uma promoção».
Que haja, pois, «divisão» e incompatibilidade atual entre os dois ritos: isso é o que agora aparece com maior clareza. Mas não nos enganemos: a única liturgia que expressa adequadamente, de maneira imutável e não evolutiva, a concepção tradicional da Igreja, da vida cristã e do sacerdócio católico é a de sempre. Neste ponto, a oposição da Santa Sé parece mais do que nunca irrevogável.
FSSPX.Actualidad: O cardeal Roche reconhece, no entanto, que ainda existem certos problemas na aplicação da reforma litúrgica. Pensa o senhor que isso poderia conduzir a uma tomada de consciência dos limites de dita reforma?
Don Davide Pagliarani: Resulta interessante constatar que, após sessenta anos, ainda se admite uma dificuldade real na aplicação da reforma litúrgica, «cujo riqueza haveria que descobrir»: é uma cantilena que se ouve sempre que se aborda este tema e que o texto do cardeal Roche não elude. Mas em lugar de interrogar-se sinceramente sobre as deficiências intrínsecas da nova missa e, portanto, sobre o fracasso geral desta reforma; em lugar de reconhecer o fato de que as igrejas se esvaziam e as vocações diminuem; em lugar de perguntar-se por que o rito tridentino continua atraindo tantas almas… O cardeal Roche só vê como solução uma urgente formação prévia dos fiéis e dos seminaristas.
Sem se dar conta, entra assim em um círculo vicioso, pois é a liturgia mesma a que está chamada a formar as almas. Durante quase dois mil anos, as almas – muitas vezes analfabetas – foram edificadas e santificadas pela própria liturgia, sem necessidade de formação prévia alguma. Não reconhecer a incapacidade intrínseca do Novus Ordo para edificar as almas, exigindo uma melhor formação ainda, parece-me o sinal de uma cegueira irremediável. Chega-se assim a paradoxos chocantes: a reforma foi buscada para favorecer a participação dos fiéis; ora bem, estes abandonaram a Igreja em massa porque esta liturgia insípida não soube alimentá-los; ¡e resulta que isso não tem nada a ver com a própria reforma!
FSSPX.Actualidad: Hoje, em numerosos países, grupos alheios à Fraternidade beneficiam-se ainda do uso do Missal de 1962. Essa possibilidade mal existia em 1988. Não seria esta uma boa alternativa, por enquanto, que tornaria prematuras novas consagrações episcopais?
Don Davide Pagliarani: A pergunta que devemos nos fazer é a seguinte: correspondem estas possibilidades ao que a Igreja e as almas precisam? Respondem de maneira suficiente à necessidade das almas?
É inegável que ali onde se celebra a Missa tradicional, irradia o verdadeiro rito da Igreja, com esse profundo sentido do sagrado que não se encontra no novo rito. Mas não se pode fazer abstração do marco no qual têm lugar estas celebrações. Independentemente da boa vontade de uns ou outros, o marco parece claro, especialmente desde Traditionis custodes, confirmado pelo cardeal Roche: trata-se do de uma Igreja na qual o único rito oficial, «normal», é o de Paulo VI. A celebração do rito de sempre realiza-se, consequentemente, sob um regime de exceção: quem adere a este rito recebe, por benevolência gratuita, dispensas que lhes permitem celebrá-lo, mas estas se inscrevem em uma lógica que é a da nova eclesiologia e pressupõem, portanto, que a liturgia nova segue sendo o critério da piedade dos fiéis e a autêntica expressão da vida da Igreja.
FSSPX.Actualidad: Por que diz o senhor que não se pode fazer abstração deste marco de exceção? Não se faz, apesar de tudo, um bem? Que consequências concretas haveria que lamentar?
Don Davide Pagliarani: Desta situação derivam pelo menos três consequências nocivas. A mais imediata é a de uma profunda fragilidade estrutural. Os sacerdotes e os fiéis que gozam de certos privilégios que lhes permitem usar a liturgia tridentina vivem na angústia do amanhã: um privilégio não é um direito. Enquanto a autoridade os tolera, podem dedicar-se a suas práticas religiosas sem serem molestados. Mas assim que a autoridade formula determinadas exigências, impõe condições ou revoga de repente, por uma razão ou outra, as autorizações concedidas, sacerdotes e fiéis encontram-se em uma situação de conflito, sem meio algum de se defenderem para garantir eficazmente os auxílios tradicionais que as almas têm direito a esperar. Como evitar de forma permanente semelhantes casos de consciência, quando entre duas concepções inconciliáveis da vida da Igreja, encarnadas em duas liturgias incompatíveis, uma goza de pleno direito de cidadania enquanto que a outra é só tolerada?
Em segundo lugar – e isso é sem dúvida mais grave –, já não se compreende a razão mesma do apego destes grupos à liturgia tridentina, o que compromete gravemente os direitos públicos da Tradição da Igreja e, com isso, o bem das almas. De fato, se a missa de sempre pode aceitar que a missa moderna se celebre em toda a Igreja, e se não reclama para si mais do que um privilégio particular ligado a uma preferência ou a um carisma próprio, como compreender então que esta missa de sempre se oponha de maneira irredutível à missa nova, permaneça como a única verdadeira liturgia de toda a Igreja e que a ninguém se pode impedir sua celebração? Como saber que a missa de Paulo VI não pode ser reconhecida, porque constitui um afastamento considerável da teologia católica da santa missa, e que ninguém pode ser obrigado a celebrá-la? E como são eficazmente afastadas as almas desta liturgia envenenada para apagar sua sede nas fontes puras da liturgia católica?
«A Fraternidade é, simplesmente, em circunstâncias que não escolheu, um meio privilegiado para permanecer fiel à Igreja».
Por último, uma consequência mais longínqua que se desprende das duas anteriores: a necessidade de não comprometer, mediante um comportamento considerado perturbador, uma estabilidade frágil, reduz a muitos pastores a um silêncio forçado quando deveriam erguer a voz contra tal ou qual ensinamento escandaloso que corrompe a fé ou a moral. A necessária denúncia dos erros que estão demolindo a Igreja, exigida pelo próprio bem das almas ameaçadas por este alimento envenenado, fica assim paralisada. Ilumina-se em privado a um ou outro, quando ainda se logra discernir a nocividade de tal ou qual erro, mas não é mais do que um murmúrio tímido, no qual a verdade mal logra se expressar com a liberdade requerida… Especialmente quando se trata de combater princípios tacitamente admitidos. Uma vez mais, são as almas às quais já não se dá luz e às quais se priva do pão da doutrina do qual, no entanto, seguem famintas. Com o tempo, isso modifica progressivamente as mentalidades e conduz pouco a pouco à aceitação geral e inconsciente das diversas reformas que afetam a vida da Igreja. Também com relação a estas almas, a Fraternidade sente a responsabilidade de iluminá-las e de não abandoná-las.
Não se trata de lançar reproches nem de julgar ninguém, mas de abrir os olhos e constatar os fatos. Ora bem, estamos obrigados a reconhecer que, na medida em que o uso da liturgia tradicional segue condicionado pela aceitação ao menos implícita das reformas conciliares, os grupos que se beneficiam dela não podem constituir uma resposta adequada às necessidades profundas que experimentam a Igreja e as almas. Pelo contrário, para retomar uma ideia já expressa, é necessário poder oferecer aos católicos de hoje uma verdade sem concessões, servida sem condicionamentos, com os meios para vivê-la integralmente, para a salvação das almas e o serviço de toda a Igreja.
FSSPX.Actualidad: Por outro lado, não pensa o senhor que Roma poderia mostrar-se mais generosa no futuro com relação à Missa tradicional?
Don Davide Pagliarani: Não é impossível que Roma chegue a adotar no futuro uma atitude mais aberta, como já ocorreu em 1988, em circunstâncias análogas, quando o Missal antigo foi concedido a certos grupos para tentar afastar os fiéis da Fraternidade. Se isso voltasse a suceder, seria muito político e muito pouco doutrinal: o Missal tridentino está destinado exclusivamente a adorar a majestade divina e a alimentar a fé; não pode ser instrumentalizado como uma ferramenta de ajuste pastoral ou uma variável de apaziguamento.
Dito isso, uma benevolência maior ou menor não mudaria em nada a nocividade do marco descrito acima e, portanto, não modificaria substancialmente a situação.
Por outra parte, o cenário é na realidade mais complexo: em Roma, o papa Francisco e o cardeal Roche constataram claramente que ampliar o uso do Missal de São Pio V desencadeia inevitavelmente um questionamento da reforma litúrgica e do Concílio, em proporções incômodas e, sobretudo, incontroláveis. Resulta, pois, difícil prever o que ocorrerá, mas o perigo de ficar encerrados em lógicas mais políticas do que doutrinais é real.
FSSPX.Actualidad: Há algo que gostaria de dizer-lhes, em especial, aos fiéis e aos membros da Fraternidade?
Don Davide Pagliarani: Gostaria de dizer-lhes que o momento presente é, antes de tudo, um tempo de oração, de preparação dos corações, das almas e também das inteligências, com vistas a nos dispormos à graça que estas consagrações representam para toda a Igreja. Tudo isso no recolhimento, na paz e na confiança na Providência, que nunca abandonou a Fraternidade e não a abandonará agora.
FSSPX.Actualidad: Continua o senhor esperando poder se encontrar com o Papa?
Don Davide Pagliarani: Sim, por supuesto. Parece-me sumamente importante poder me entrevistar com o Santo Padre e há muitas coisas que estaria encantado de transmitir-lhe e que não pude pôr por escrito. Infelizmente, a resposta recebida por parte do cardeal Fernández não prevê uma audiência com o Papa. Em troca, evoca a ameaça de novas sanções.
FSSPX.Actualidad: O que fará a Fraternidade se a Santa Sé decidir condená-la?
Don Davide Pagliarani: Antes de tudo, recordemos que, nas presentes circunstâncias, as eventuais penas canônicas não teriam nenhum efeito real.
Não obstante, se chegassem a ser pronunciadas, com toda certeza, a Fraternidade aceitaria, sem amargura, este novo sofrimento como soube aceitar os sofrimentos passados, e os ofereceria sinceramente pelo bem da própria Igreja. A Fraternidade trabalha pela Igreja e não há dúvida de que, se se desse uma situação semelhante, não poderia ser senão temporal, pois a Igreja é divina e Nosso Senhor não a abandona.
A Fraternidade continuará, em suma, a trabalhar o melhor que possa, com fidelidade à Tradição católica e servindo humildemente à Igreja, respondendo às necessidades das almas. E seguirá rezando filialmente pelo Papa, como sempre o fez, esperando poder se ver um dia liberada dessas eventuais sanções injustas, como já ocorreu em 2009. Estamos convencidos de que um dia as autoridades romanas reconhecerão com gratidão que estas consagrações episcopais terão contribuído providencialmente para manter a fé, para maior glória de Deus e a salvação das almas.
Entrevista concedida em Flavigny-sur-Ozerain em 2 de fevereiro de 2026
na festa da Purificação da Santíssima Virgem
Entrevista “Suprema lex”
(Source : MG – FSSPX.Actualités)