O que fazer então perante a teologia do corpo, segundo São João Paulo II?
Vou tentar concluir e espero com isso inaugurar um diálogo construtivo com a Dama Católica ex Perpleja e com qualquer um de vocês, tradicionalistas, pois o que me une a vocês é muito maior que a distância estabelecida nesta saudável discussão.
Desacreditar totalmente a Teologia do Corpo de São João Paulo II —sobretudo, em sua maioria, por culpa desses influencers sexo-místicos que prostituem o legado de São João Paulo II dizendo qualquer barbaridade— em nome de uma certamente incompleta “doutrina tradicional” ou de um tomismo que parece indicar que o Espírito Santo calou para sempre com a morte de Santo Tomás de Aquino, foi longe demais. Parece-me que a qualquer um que faça isso, em um debate com meus professores do Instituto João Paulo II de Washington D. C., lhe iria bastante mal.
Além disso, a Teologia do Corpo deve ser lida à luz de todo o magistério de São João Paulo II; sem esquecer sua exortação apostólica Familiaris Consortio, da qual o papa Francisco se desmarcou com sua confusa e danosa Amoris Laetitia; sem esquecer a grande encíclica Veritatis Splendor, à qual também o papa Francisco ignorou completamente em sua Amoris Laetitia e em relação à qual evitou responder às cinco perguntas (conhecidas como dubia) que lhe apresentaram honoráveis senhores cardeais, baseadas precisamente em quatro delas na Veritatis Splendor, sendo um desses cardeais o grande Carlo Caffarra, presidente fundador do Instituto João Paulo II em Roma; e sem esquecer a carta apostólica Mulieris Dignitatem, nem a bela Carta às famílias, nem a primeira encíclica de São João Paulo II, Redemptor Hominis.
Além de tudo isso, também deve ser lida à luz do que sérios intelectuais desenvolveram em pensamento e reflexão a partir dessas catequeses, sobretudo descobrindo nela não só o significado nupcial e fecundo do corpo, mas o significado filial que São João Paulo II não mencionou, mas que deixou entrever, e sobre isso mesmo falou Bento XVI em 13 de maio de 2011, no discurso do 30.º aniversário do Instituto João Paulo II.
Recomendo particularmente entrar em diálogo com os professores do Instituto João Paulo II de Washington D. C. (com nenhum outro instituto, por favor) e com o padre José Granados, superior geral dos Discípulos dos Corações de Jesus e de Maria, a quem considero a autoridade máxima na reta compreensão e interpretação da Teologia do Corpo segundo São João Paulo II.
E para poder entender não somente a Teologia do Corpo, mas o pontificado inteiro de São João Paulo II, é preciso ter sempre em mente o parágrafo 22 da constituição pastoral para a Igreja no mundo de hoje, Gaudium et Spes, o mais mencionado e citado por São João Paulo II em todo tipo de documentos, audiências e discursos:
“Na realidade, o mistério do homem só se esclarece no mistério do Verbo encarnado. Porque Adão, o primeiro homem, era figura do que havia de vir, isto é, Cristo nosso Senhor. Cristo, o novo Adão, na mesma revelação do mistério do Pai e de seu amor, manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sublimidade de sua vocação… Aquele que é imagem do Deus invisível (Cl 1,15) é também o homem perfeito, que devolveu à descendência de Adão a semelhança divina, deformada pelo primeiro pecado. Nele, a natureza humana assumida, não absorvida, foi elevada também em nós a uma dignidade sem igual. O Filho de Deus, com sua encarnação, uniu-se, de certo modo, com todo homem. Trabalhou com mãos de homem, pensou com inteligência de homem, agiu com vontade de homem, amou com coração de homem. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante em tudo a nós, exceto no pecado.”
São João Paulo II se referiu constantemente a que Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem.
Este parágrafo foi desacreditado por alguns tradicionalistas que o catalogaram de antropocêntrico. Está claro que o modernismo se esqueceu de Deus e se concentrou nos direitos humanos e na dignidade humana, esquecendo o dom do Espírito Santo do temor de Deus. Mas pergunto honestamente: acaso tentar nos entendermos nós, os homens, a partir de Cristo —pois “somos criados Nele, por Ele e para Ele” (cf. Cl 1,16)— nos converte em antropocêntricos?
Lembremos o que disse São João Paulo II acerca de que o corpo, e portanto o homem, entra pela grande porta da teologia no momento em que o Verbo eterno do Pai se encarna na pessoa divina de Jesus de Nazaré, em quem se unem as duas naturezas, divina e humana: dogma da união hipostática, estabelecido no Concílio de Calcedônia no ano 451, IV Concílio Ecumênico da Igreja.
A Dama Católica ex Perpleja, em seu último artigo que aborda o tema da Teologia do Corpo, publicado em InfoVaticana no sábado 10 de janeiro de 2026, estabelece que “como obra catequética, a Teologia do Corpo é antropocêntrica, isto é, centrada no homem, ao mesmo tempo que personalista, acorde ao tema central do Concílio Vaticano II e ao estilo filosófico personalista e fenomenológico próprio de Wojtyla”. A isso eu respondo, segundo o dito no parágrafo anterior, que a Teologia do Corpo é cristológica. E como tal, posto que o Verbo eterno feito homem é precisamente verdadeiro Deus e verdadeiro homem —em quem sua natureza humana puríssima e imaculada criada implica ser um corpo e alma plenamente humanos—, então refletir sobre o homem, cuja identidade e vocação se explica de maneira integral a partir de Cristo, não faz da Teologia do Corpo algo antropocêntrico.
O personalismo é outra das filosofias que, por ser posterior a Santo Tomás de Aquino e à escolástica, é desacreditada aparentemente a priori pelos tradicionalistas, entre eles incluído o padre Christian Ferraro, que em uma conferência publicada no blog Que no te la cuenten, do padre Javier Olivera Ravasi, desacreditou com linguagem absolutista —e até dando a impressão de um profundo desprezo— tanto a fenomenologia como o personalismo.
Não é este o fórum para entrar agora nesses temas. Somente compartilho que o conceito de pessoa é uma das grandes contribuições do pensamento católico à filosofia e se cunhou para tentar aprofundar nos dois maiores mistérios da fé católica; a saber: o que é Deus e quem é Cristo; isto é, o Mistério da Santíssima Trindade e o Mistério da união hipostática na Encarnação do Verbo eterno do Pai.
Que haja autores denominados “personalistas” cujas propostas não ajudam à reflexão católica e que inclusive se afastam da compreensão da fé, não há dúvida. Para uma reflexão muito séria e profunda sobre o conceito de pessoa, recomendo amplamente o livro do grande filósofo alemão Robert Spaemann (a quem conheci pessoalmente no Instituto João Paulo II de Washington D. C. pelos anos 2010-2011), intitulado precisamente Personas. Acerca de la distinción entre “algo” y “alguien”.
A Teologia do Corpo como um «Sinal dos tempos»
E gostaria de propor a vocês, em especial à honorável Dama Católica ex Perpleja e, sobretudo, aos que se autodenominam tradicionalistas, que a Teologia do Corpo de São João Paulo II seja talvez um “sinal dos tempos”. Permitam-me explicar por que o creio assim.
Parece-me que deveriam voltar o olhar ao fato de que o papa Francisco tenha suprimido o Instituto que São João Paulo II fundou, para reconstituí-lo escolhendo o sórdido personagem, aficionado à arte homoerótica, Vincenzo Paglia, como grande chanceler do novo instituto. Em minha opinião, abolir esse instituto e pôr esse personagem à frente do instituto que substitui o fundado por São João Paulo II constitui a resposta claríssima às cinco dubia apresentadas pelos quatro cardeais no ano 2016, a partir da confusa e danosa Amoris Laetitia.
A data da supressão do Instituto que fundou São João Paulo II —no aniversário da primeira aparição da Santíssima Virgem de Fátima em 1981, e que havia escolhido quem era ainda um simples monsenhor, Carlo Caffarra, como presidente fundador— foi em 8 de setembro de 2017, a escassas 48 horas após a repentina morte do cardeal Carlo Caffarra, ainda com o funeral de Caffarra sem concluir. Lembremos que o cardeal que mais se empenhou em publicar e exigir resposta às cinco dubia foi precisamente Caffarra.
Por que lhe incomodou tanto a Francisco o diminuto Instituto João Paulo II como para ter que suprimi-lo em nome de sua herética “mudança antropológica”, da qual falou em seu lamentável motu proprio Summa Familiae Cura, e fundar outro para que tivesse como fio condutor dos programas acadêmicos a Amoris Laetitia, na qual jamais pôde pronunciar a palavra “adulterio” e na qual deliberadamente rejeitou o ensino de Familiaris Consortio, n.º 84 (ratificado por Bento XVI em seu Sacramentum Caritatis, n.º 29), acerca de que pessoas divorciadas voltadas a casar civilmente pudessem acessar aos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia, desde que vivessem “como irmãos”?
Não acham que quando Francisco desprezava tanto algo e queria suprimi-lo era porque seguramente seria algo verdadeiro, sagrado e/ou belo, tal como ficou manifesto com sua draconiana Traditionis Custodes, com a qual busca asfixiar paulatinamente e para sempre a sagrada liturgia romana com a qual a Igreja celebra a santa Missa —agora com restrições, proibições e até ameaças e perseguição— desde por volta do ano 600, como se a ele pertencesse esse patrimônio sagrado e milenar da Igreja e legislasse sobre ele a seu bel-prazer, sem importar-lhe que o papa São Pio V tenha estabelecido o missal tridentino a perpetuidade em 1570 e tenha advertido que se alguém alterasse essa Missa incorreria na ira de Deus e dos santos apóstolos Pedro e Paulo?
Pois deve se saber muito bem que o papa Francisco também se incomodou muito com o Instituto João Paulo II —único referente sério e confiável, transmissor e intérprete da Teologia do Corpo—, ao grau de suprimi-lo e fazer um novo com um nome tão ambíguo e confuso como todo o seu pensamento.
Por que suprimir um instituto que foi fundado por um papa santo no dia em que derramou seu sangue no atentado contra sua vida, enquanto a Igreja celebrava Nossa Senhora de Fátima? E Francisco o fez afirmando que, cito textualmente: “a mudança antropológica [ênfase adicionada] e cultural, que influencia hoje em todos os aspectos da vida e requer uma abordagem analítica e diversificada [ênfase adicionada], não nos permite limitar-nos a práticas de pastoral e de missão que refletem formas e modelos do passado [ênfase adicionada]”.
O passado? Em que momento se converteu em “passado” o que o mesmo sucessor de São João Paulo II e imediato predecessor de Francisco, Bento XVI, havia notado tão atual e havia ratificado inclusive propondo, em seu discurso de 13 de maio de 2011, aprofundar mais na reflexão?
A visão antropológica do pontificado de Francisco na Igreja, o que considera como o elemento ou os elementos que, de repente —ou paulatinamente—, causaram uma mudança antropológica, de modo que, a partir de algum momento, suceeso ou o que seja, o homem deixou de ser o que era e agora é outro? Acaso já não poderemos dizer “e o Verbo se fez homem e habitou entre nós”, pois o tipo de homem no qual acontece o Mistério da Encarnação é algo diferente ou diverso ao que tem em mente o papa Francisco?
Como se relaciona esta herética “mudança antropológica”, que conlleva propor um “novo humanismo”, com o fato de que a Igreja tenha decidido dialogar com outras religiões inimigas e heréticas —considerando que a pluralidade delas é uma bênção com a qual Deus criou o gênero humano—, mas que tenha optado por tomar medidas de censura e/ou silêncio ante seus próprios fiéis que pedem clareza e resposta ante questões que ferem a Tradição milenar da Igreja e seu ensino doutrinal e moral de sempre, ratificado e explicado amplamente em tempos muito recentes por São João Paulo II e Bento XVI?
É necessário recordar que o único humanismo próprio da fé apostólica da Igreja católica é cristológico. O único humanismo verdadeiro é o que desceu do céu e se encarnou na pessoa de Jesus Cristo, o Verbo eterno do Pai feito homem; e somente a partir Dele é de onde se pode olhar e explicar o que e quem é o homem.
Seguindo com a interpretação da desacreditação da Teologia do Corpo no pontificado de Francisco como um “sinal atual dos tempos”, pergunto: por que o herege pró-sodomia do cardeal “Tucho” Fernández nem sequer pôs uma única citação das catequeses da Teologia do Corpo em seu extenso documento Una Caro para falar do matrimônio monógamo entre um homem e uma mulher, apesar de ter posto aí 256 citações bibliográficas e/ou notas ao pé da página?
Que um dos personagens que mais lhe tem feito e lhe está fazendo dano à Igreja em tempos atuais e recentes —autor dos mais pervertidos escritos que se tenham escrito por um sacerdote recentemente na Igreja— nem sequer volte o olhar à Teologia do Corpo de São João Paulo II, não lhes parece que isso lhe dá muitos bônus à Teologia do Corpo e, por tanto, merece ser resgatada, estudada, aprofundada e difundida com recato, respeito e decoro?
Você, Dama Católica ex Perpleja; você, padre Christian Ferraro, e padre Javier Olivera Ravasi; e todos vocês, os que realmente amam a Tradição da Igreja, fariam muito mais bem à Igreja de hoje —sim, a essa Igreja pós-conciliar que em muitos momentos e aspectos se vai aproximando paulatinamente mais a parecer uma ONG que a ter o rosto da única Igreja verdadeira, que dá culto, reverência e segue o caminho estabelecido pelo único Deus verdadeiro— se estudam a fundo, resgatam, explicam e aprofundam a Teologia do Corpo de São João Paulo II que se a desacreditar completamente.
Fariam muito mais bem se vocês se constituíssem em contrapeso a toda a epidemia de villamelones que fazem seus cursos e retiros da Teologia do Corpo sem conhecê-la bem, reduzindo-a a psicologia barata do sexo, sem ter além disso formação metafísica sólida prévia, e que organizam ditos eventos em um ambiente carregado de sentimentalismo e emoção, mas com muito pouca ensino doutrinal.
Não se dão conta de que a Teologia do Corpo é atacada —diríamos— pela direita e pela esquerda? Temos, por um lado, esses sexo-místicos que se animam a afirmar sandeces de proporções tais como assinalar o orgasmo como uma aproximação vivencial ao que será o céu; enquanto que, por outro lado, os tradicionalistas a tacham de antropocêntrica, impregnada de fenomenologia e personalismo, e dizem que despreza o tomismo.
Não acham que chegou a hora de recuperar o grande legado de São João Paulo II acerca da vocação do matrimônio como caminho de santidade e propô-lo com todo recato, pudor, modéstia e decoro? Não acham que convém lançar-se a desacreditar a todos esses influencers que tanto dano lhe têm feito à Teologia do Corpo e, em troca, vocês propô-la à Igreja e ao mundo como um genuíno “desenvolvimento da doutrina”?
Não encontro nada melhor que a Teologia do Corpo de São João Paulo II, retamente entendida e estudada, para contrarrestar o vendaval desatado pela cultura woke e a satânica ideologia de gênero que se instalou no Vaticano e se permeou por toda a Igreja, na maioria dos seminários, até o ponto de que o papa Francisco chegou a mencionar que já havia suficiente “mariconería” nesses lugares.
Desacreditar a Teologia do Corpo —não só desde o progressismo modernista, mas também em nome de uma “doutrina tradicional”— é o pior erro: é nos dispararmos no pé. Suficiente problema temos com tantos e tantos na Igreja que ignoram ou rejeitam não somente os três fins ou bens do matrimônio, mas inclusive o proposto pelo santo papa, destruidor da Missa tridentina, em sua verdadeiramente profética encíclica Humanae Vitae.
No momento em que a Igreja ignorou a sexualidade humana como o elo que une o amor e a vida, abriu a porta a onde estamos agora, com um “Tucho” Fernández promovendo a sodomia e incomodando-se com o indispensável papel realizado pela Santíssima e Puríssima Sempre Virgem Maria no Mistério da Redenção do gênero humano, e com o poder que lhe tem sido outorgado a Ela desde o céu para ser a Mediadora de todas as graças.
Que não nos estranhe que o papa São Paulo VI, a escassos três anos de ter imposto a “missa nova” e proibido a Missa que se celebrava com missal em mão desde por volta do ano 600, tenha dito em 29 de junho de 1972, em sua homilia da solenidade de São Pedro e São Paulo, que a fumaça de Satanás havia entrado pelas fendas da Igreja.
Não seria acaso que, por ter feito isso que São Pio V advertiu tão contundentemente, ex cathedra, que causaria a ira de Deus e dos santos apóstolos Pedro e Paulo, então Satanás encontrou a maneira de cuspir sua fumaça para dentro da Igreja? O exorcismo para expulsá-lo não se fez ainda, e não parece que se entenda que é uma necessidade imperiosa e prioritária.
Enfim, creio que finalmente devo parar aqui, mas espero ter podido expressar muito honestamente minha postura e reiterar meu agradecimento, respeito e admiração por tudo o que fazem vocês em InfoVaticana. Deus os bendiga, os proteja e lhes siga concedendo a graça para poder seguir defendendo a verdade completa e denunciando a mentira e a confusão que desde Roma têm vindo contaminando a vida de toda a Igreja universal.
Mas se fazer isso inclui desacreditar a maior contribuição de toda a história da Igreja quanto à reta compreensão do matrimônio como caminho de santidade —que São João Paulo II nos transmitiu em vários documentos magisteriais e em sua Teologia do Corpo—, estaremos nos fazendo um imenso dano e seguiremos deixando crescer as espantosas ideologias que se seguem enraizando em nossos lares, nossas famílias, nossas crianças e em nossa Igreja.
Esta é a última parte da série de artigos dedicados à Teologia do Corpo publicados em parte I, parte II, parte III e esta, parte IV.
Nota: Os artigos publicados como Tribuna expressam a opinião de seus autores e não representam necessariamente a linha editorial de Infovaticana, que oferece este espaço como fórum de reflexão e diálogo.