Todos são bem-vindos?

Todos são bem-vindos?
Christ and the Woman Taken in Adultery by Diana Scultori, c. 1575 [The MET, New York]

Pelo P. Paul D. Scalia

Em um dos últimos fotogramas de Wake Up Dead Man (o mais recente da série Knives Out), vemos um vislumbre do cartaz paroquial recém-editado que anuncia: “Todos são bem-vindos”. É um sinal para a nossa cultura terapêutica de que (alerta de spoiler) o bom sacerdote triunfou sobre o mau. Em uma cultura que evita distinções, limites e fronteiras, não há distintivo mais seguro de bondade do que dar as boas-vindas a todos, sem exceção.

Agora, as primeiras palavras do nosso Senhor em seu ministério público não foram “Todos são bem-vindos”. Foram as aparentemente menos acolhedoras: “Convertei-vos, porque o reino dos céus está próximo”. Mas essas duas frases não estão tão opostas quanto alguns podem pensar —ou querer— que estejam. O Evangelho deste domingo (Mateus 4:12-23) nos dá ocasião para considerar o curioso convite universal do nosso Senhor.

A mensagem cristã tem duas partes fundamentais: pecado e redenção. As palavras de Jesus as expressam. Convertei-vos —porque existe o pecado, e o cometemos—. Porque o reino dos céus está próximo —porque Deus nos procurou para nos levar de volta a Ele—. Vejamos cada uma separadamente.

Primeiro, Convertei-vos. A nossa cultura valoriza a religião apenas na medida em que nos faz sentir melhor conosco mesmos. Assim, o mandamento de converter-se soa duro e pouco acolhedor, qualquer coisa menos hospitalário. No entanto, na realidade, o arrependimento é o convite mais universal que existe. O que todos temos em comum —sem exceção, além de qualquer distinção de raça, classe ou sexo— é a nossa condição pecadora. Não há ninguém que não precise se converter.

Nesse sentido, pensemos no Rito Penitencial da Missa. O sacerdote convida a todos, sem exceção, a reconhecer seus pecados e, em seguida, juntos, como um só, a rezar: Eu confesso a Deus todo-poderoso… É uma das orações mais igualitárias. Ao não fazer distinção entre pessoas, distingue a Missa (e a Igreja em geral) como radicalmente diferente de qualquer outra reunião humana. Não estamos juntos por um interesse mundano compartilhado (política, esporte, música, etc.) que poderia excluir outros. Estamos reunidos pela necessidade universal de misericórdia.

Segundo, Porque o reino dos céus está próximo. É para isso que o arrependimento leva, ao Reino. E esse Reino está próximo: já não é uma teoria, uma ideia ou uma aspiração piedosa, mas uma realidade. Está, por assim dizer, ao alcance da mão, oferecido a qualquer um que realmente o deseje. O único necessário para alcançá-lo já foi dito.

E isso nos leva ao coração da mensagem evangélica, que deve conter pecado e redenção, arrependimento e Reino na mesma medida. Eles se necessitam mutuamente. O chamado à conversão é um convite para reconhecer a própria dignidade, a própria capacidade de alcançar o Reino. Temos vivido abaixo do que valemos, mas ainda podemos mudar de rumo. Se o homem não fosse capax Dei, não faria sentido chamar à conversão. O mandamento de converter-se não é uma repreensão, mas um chamado a todos para voltar à sua dignidade e valor.

Este é um chamado universal. Todos são bem-vindos —de fato, convidados— à dignidade do arrependimento que leva ao Reino. Não é por acaso que o nosso Senhor inicia este anúncio na “Galileia dos gentios” (Isaías 8:23; Mateus 4:15), ou seja, uma região de Israel, do Povo de Deus, que também era um cruzamento de culturas. A rede que aparece de forma proeminente no Evangelho de hoje (mencionada três vezes em quatro versículos) também sugere essa universalidade. Porque uma rede não é seletiva. É lançada ao mar (figura bíblica das nações) para capturar tudo o que entrar nela. Todos são bem-vindos nessa rede.

Convertei-vos… Reino. Sempre há aqueles que querem eliminar uma ou outra parte da mensagem evangélica. Alguns pregam com força a condenação do mal, mas esquecem a misericórdia e o perdão do Reino. Outros pregam misericórdia e perdão, mas não mencionam o pecado de forma alguma. Uma parte sem a outra causa dano. Um chamado ao arrependimento sem Reino é crueldade. O Reino sem arrependimento é presunção.

Aqui há uma lógica interna em jogo. Se não nos arrependermos, não podemos entrar no reino dos céus. Se não existir o mal, a culpa e o pecado, então oferecer perdão não tem sentido. Pelo contrário, se não existissem a misericórdia e o perdão, quão terrível seria apontar o mal e o pecado.

Convertei-vos, porque o reino dos céus está próximo. O nosso Senhor começa com essas palavras e depois as vive em sua vida pública. Primeiro, em seu ensino. Às vezes o encontramos condenando o mal com força —mais severamente do que sua imagem popular costuma sugerir—. Outras vezes encontramos palavras de grande misericórdia e ternura.

Mais importante ainda, o nosso Senhor é o sujeito de seu próprio ensino. Ele encarna as palavras Convertei-vos, porque o reino dos céus está próximo. Com sua paixão e morte, cria para nós o caminho do arrependimento; abre o caminho do perdão. Converter-se é caminhar com Aquele cujo Coração expressa uma dor perfeita pelos nossos pecados. Sem Ele, o nosso arrependimento fica aquém.

Ele mesmo é o Reino. Não o oferece como um dom separado Dele, mas como sua própria pessoa. O Reino está próximo porque Ele está presente. Por meio do nosso arrependimento, Lhe damos entrada e recebemos o Reino. E isso é possível para todos.

Sobre o autor:

O P. Paul Scalia é sacerdote da diocese de Arlington, Virgínia, onde serve como Vigário Episcopal para o Clero e pároco de Saint James em Falls Church. É autor de That Nothing May Be Lost: Reflections on Catholic Doctrine and Devotion e editor de Sermons in Times of Crisis: Twelve Homilies to Stir Your Soul.

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