Um novo relatório do Pew Research Center, publicado em 21 de janeiro de 2026 e baseado em uma pesquisa realizada na primavera de 2024 com mais de 6.200 adultos em seis países (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru), constata uma queda sustentada da identificação católica em toda a região e um ponto de inflexão simbólico: Brasil e Chile deixaram de ser países de maioria católica.
Dois golpes históricos: Brasil e Chile, abaixo de 50%
Há uma década, os seis países analisados apresentavam maioria católica, com “seis em cada dez ou mais” adultos se identificando como católicos. Hoje, o Pew situa os católicos entre 46% e 67%, dependendo do país, e destaca dois casos especialmente significativos pelo seu peso histórico e demográfico: Brasil (46%) e Chile (46%). Em ambos, o catolicismo cai abaixo da metade.
No restante, o catolicismo mantém a maioria, mas com erosão notável: Argentina 58%, Colômbia 60%, México 67% e Peru 67%. Na Argentina, por exemplo, a descida na série do Pew vai de 71% (2013-14) a 58% (2024).
Cresce o “nada em particular”, mas a fé não desaparece
Um dos aspectos mais reveladores do relatório é que o colapso da identidade católica não se traduz automaticamente em ateísmo. O Pew enfatiza que a crença em Deus continua muito alta nos seis países: cerca de nove em cada dez ou mais afirmam acreditar em Deus, e essa crença se mantém mesmo entre muitos dos chamados “não afiliados”.
O que cresce com força é o grupo dos religiosamente não afiliados (ateus, agnósticos ou “nada em particular”). Dependendo do país, esse bloco situa-se hoje entre 12% e 33%, e em todos os casos aumentou 7 pontos ou mais na última década. Em vários países, os “não afiliados” já superam os protestantes.
O protestantismo não explica tudo, mas consolida posições
O protestantismo, em termos gerais, se mantém relativamente estável no conjunto regional, embora com variações nacionais. O Brasil volta a se destacar: em 2024, 29% dos brasileiros se identificam como protestantes, frente a 26% há uma década. O dado importa porque o Brasil foi durante décadas o grande bastião demográfico do catolicismo mundial.
A chave da hemorragia: católicos que vão embora
O Pew identifica o mecanismo principal da mudança: religious switching (mudança religiosa). Nos seis países, “cerca de dois em cada dez ou mais” adultos dizem que foram criados católicos, mas já não se identificam como tais. Esse ponto é central: não se trata apenas de envelhecimento, natalidade ou “modernização”, mas de uma perda por abandono explícito da identidade católica.
Continuam rezando, mas enfraquece a pertença
Outro dado difícil de ignorar é que a prática religiosa pessoal permanece alta em vários países. Maiorias no Brasil, Colômbia e Peru dizem que rezam pelo menos uma vez por dia. E no Brasil, Colômbia, México e Peru, aproximadamente a metade ou mais afirma que a religião é “muito importante” em sua vida.
O problema não é apenas “menos fé”, mas menos pertença católica, menos arraigo institucional e menos transmissão efetiva de identidade. À luz desses números, a crise não é um fenômeno marginal nem local: afeta os países mais populosos e, portanto, o futuro do catolicismo em escala global.