O erro “tradicionalista” de afirmar que a humanae vitae e a teologia do corpo são uma ruptura com a “doutrina tradicional” da igreja.
Nem a Humanae Vitae do santo Papa que permitiu o desprezo pela Santa Missa de rito tridentino —que se havia celebrado com o missal de São Gregório Magno em mãos desde cerca do ano 600— e que, além disso, foi o responsável por impor a “nova missa” em 1969, a qual transfere sua essência do sacrifício do Senhor Jesus na Sexta-Feira Santa no Gólgota para a ceia pascal da Quinta-Feira Santa no cenáculo; nem a Teologia do Corpo de são João Paulo II, que buscou aprofundar, explicar e demonstrar que o proposto em Humanae Vitae é verdade, rompem com a doutrina tradicional da Igreja, pois não negam nenhum dos três fins ou bens do matrimônio. Colocarmo-nos a defender a “hierarquia dos fins do matrimônio”, em nome de sermos fiéis a uma “doutrina tradicional” que parece que, com a morte do papa Pio XII, a Igreja já não tem mais nada a dizer nem a ensinar, faz mais mal do que bem, especialmente em um mundo amarrado pela cultura woke e pela ideologia satânica de gênero, além de estar permeado por cada vez mais técnicas artificiais de reprodução assistida, diante das quais a “doutrina tradicional” parece sucumbir sem saber o que mais dizer, fora de repetir o mesmo de sempre sem que ninguém lhe dê ouvidos.
O fato de que o grande papa Pio XII tenha reafirmado —como dissemos—, em um documento que não era escrito por ele, mas apenas avalizado por sua assinatura, e em uma conferência de menor peso doutrinal do que qualquer documento escrito, a hierarquia dos fins do matrimônio e tenha condenado que se invertesse essa hierarquia, definitivamente não fecha a porta a que haja um genuíno “desenvolvimento da doutrina”. Certamente, a Tradição da Igreja não deu grande atenção a isso, pois, como já se disse, parecia que a Igreja considerava como o ideal da vida cristã aquela vivida heroicamente, própria dos celibatários, das virgens, dos monges, dos eremitas do deserto, dos sacerdotes e dos bispos, enquanto que os matrimônios tinham como missão principal ter filhos e educá-los, subordinando a isso evitar divórcios e adultérios.
Que o matrimônio tivesse como prioridade a procriação e educação dos filhos, depois a chamada ajuda mútua (da qual convém explicar e aprofundar com muito mais detalhe) e o famoso, nada claro, “remédio para a concupiscência”, leva-me a perguntar: qual é o tão grave problema de considerar os três fins ou bens do matrimônio com o mesmo nível de importância? Acaso esses fins ou bens não estão sempre intrinsecamente unidos e cada um sustenta o outro? Acaso a realidade do sacramento do matrimônio não implica a observância estrita dos três fins, sempre? Ou acaso se pode escolher entre observar um em vez de outro, o que implicaria ter que escolher o de maior “hierarquia” em detrimento dos outros dois, ou de um deles ao menos? O que significa realmente essa “hierarquia”? Pareceria que o que mais preocupava ao Santo Ofício em seu documento De Finibus Matrimonii é que os fins do matrimônio fossem igualmente principais, mas acima de tudo, que fossem independentes; e isso é precisamente o que tentamos evitar afirmar aqui. Afirmamos claramente que é impossível que se dê um fim ou bem do matrimônio sem o outro: os três dependem um do outro; precisam uns dos outros. Que a indissolubilidade do sacramento e o amor e a fidelidade dos esposos se subordinem à procriação e educação dos filhos não implica que dar aos três bens ou fins a mesma importância seja em detrimento da procriação ou abra a porta à contracepção ou autoesterilização. Além disso, se se entende corretamente o amor dos esposos ungidos com o sacramento do matrimônio, damos-nos conta de que, como veremos adiante, é o meio mais eficaz para a educação dos filhos na verdade, no amor e na fé.
Além do dito até aqui, chama a atenção que, em Gn 2, 23-24, depois da fascinação própria do “osso dos meus ossos e carne da minha carne”, Deus diz: “Por isso deixa o homem a seu pai e a sua mãe e se une à sua mulher, e se fazem uma só carne”, sem mencionar nada acerca da procriação. Por outro lado, chama a atenção o fato de que, no relato da criação do primeiro capítulo de Gênesis, a diferenciação sexual do homem, como varão e mulher, é a característica primordial que identifica o autor desse relato da criação com respeito à imagem de Deus na qual o homem foi criado. Devemos perguntar-nos: qual implicação há no fato de que a imagem de Deus na qual o homem foi criado se relacione, antes que outra coisa, com a diferenciação sexual humana? Por que Gn 1, 27 estabelece como característica prioritária do homem como imago Dei a diferenciação sexual humana de ser varão e mulher, e não a inteligência, a vontade, a liberdade ou alguma outra característica também própria da natureza humana? Com isso não estou sugerindo que o homem seja criado à imagem de um Deus que é corpo. É claro, o significado da imago Dei no homem, sexualmente diferenciado no corpo, tem uma conotação muito além da corporeidade humana, pois a Santíssima Trindade é Espírito e não é corpo.
E vemos como o Senhor Jesus une esses dois versículos dos dois distintos relatos da criação ao responder à pergunta dos fariseus acerca do divórcio. O Senhor Jesus diz: “Não lestes que o Criador, desde o princípio, os fez varão e mulher, e que disse: Por isso deixa o homem a seu pai e a sua mãe e se une à sua mulher, e se fazem uma só carne? De modo que já não são dois, mas uma só carne. Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem” (Mt 19, 4-6). Não faz o Senhor Jesus nenhuma menção à procriação nessa união do varão e da mulher em uma só carne, e com isso não estou negando nem pondo em dúvida sequer o intrínseco fim ou bem da procriação: simplesmente menciono que não é referido de maneira hierárquica.
Além disso, na Carta aos Efésios, são Paulo estabelece que o grande mistério de união de Cristo com a Igreja é de caráter nupcial ou esponsal, como se queira chamar. Por que será que esse grande mistério de Cristo e a Igreja se explica na Carta aos Efésios quando se fala da relação dos maridos com suas esposas? Por que a Carta aos Efésios, no versículo 31 do capítulo 5, cita Gn 2, 24 e não cita outro passo da Sagrada Escritura? Nem sequer faz menção à procriação, embora saibamos que sempre está implícita. A Igreja é a Mãe dos filhos de Deus: ela dá à luz aos filhos de Deus mediante o Batismo e os nutre, santifica e educa mediante os demais sacramentos, cuja graça brota da cruz do Senhor Jesus. Podemos ver que o ênfase desse grande mistério entre Cristo e a Igreja é o amor que o marido deve ter por sua esposa, como Cristo amou à sua Igreja e se entregou a si mesmo por ela, enquanto que a esposa deve ser submissa ao seu marido como ao Senhor, tal como a Igreja deve ser submissa a Cristo. Voltamos à pergunta: por que o grande mistério de união de Cristo com a Igreja se entende em termos nupciais e não de outra maneira? Por que não se fala de procriação explicitamente em Ef 5, 21-33?
Agora bem, se Pio XII rejeita a teoria de que “o amor mútuo e a união dos esposos deveriam ser desenvolvidos e aperfeiçoados pela autoentrega corporal e espiritual” no documento De Finibus Matrimonii que promulga o Santo Ofício, então o que significa o matrimônio para a Igreja pré-conciliar? O que significam os passos dos dois relatos do livro de Gênesis aqui mencionados e que o Senhor Jesus une no Evangelho de são Mateus? Como interpreta o grande papa Pio XII o grande mistério entre Cristo e a Igreja mencionado na Carta aos Efésios? Se o principal fim do matrimônio é a procriação e educação dos filhos, então pergunto:
Se se fala do risco do pecado venial ou até mortal de não considerar a prole como o fim e bem primeiro do matrimônio, que pudesse causar a redução do encontro conjugal íntimo dos esposos a um momento de prazer instrumentalista, não haveria risco também de que, se se considera que a prole é hierarquicamente prioritária sobre qualquer dos fins do matrimônio, ao não chegarem os filhos os esposos sentissem a tentação de se separarem e buscarem outro parceiro que fosse fértil, ou de recorrer à fecundação in vitro, ou a qualquer das técnicas artificiais de reprodução assistida?
Dito seja de passagem, são João Paulo II, explicitamente e durante várias catequeses, afirmou tajantemente e sem ambiguidades que o pecado não venial do adultério poderia se dar no matrimônio quando, particularmente e com mais frequência, o esposo reduzisse à sua esposa a um instrumento de prazer, o qual vai de mãos dadas, muito seguramente, embora não necessariamente, com o uso pecaminoso da contracepção. Por isso são João Paulo falava, desde antes de ser papa e também em sua Teologia do Corpo, acerca da diferença do olhar e dos dinamismos corporais próprios da sexualidade do varão e da mulher, que, de não se entenderem bem, abririam a porta à possibilidade de que o esposo utilizasse à sua esposa para satisfazer-se ele somente, sem tomar em conta —por não entender— que a maneira de viver a sexualidade de sua esposa é muito distinta de como a vive ele.
Em nenhum momento a Teologia do Corpo põe em risco o não afirmar que sempre os matrimônios devem estar abertos à vida em cada encontro conjugal dos esposos na intimidade e, obviamente, está a grande, grandíssima, quase segura possibilidade de receber de Deus o altíssimo dom e vocação da paternidade e maternidade. No consentimento matrimonial se aceita a sempre disponibilidade de receber esse dom, com ou sem desejo de recebê-lo, pois nem sempre se deseja, certamente. Por isso se fala hoje de paternidade responsável, termo que também agora resulta que condenam os tradicionalistas e/ou recalcitrantes tomistas.
Mas, reitero, daí a que os matrimônios se estabeleçam “para ter filhos sim ou sim” como bem ou fim primordial me parece fragmentário. Os noivos se casam para ajudarem um ao outro a alcançar a vida eterna e muito possivelmente o caminho inclua viver como esposos sendo pais de família. Chegarão os filhos e o chamado consecuente à vocação à maternidade e paternidade? Muito seguramente sim, e reitero que sempre, sempre, sempre devemos estar abertos a receber esse dom; mas o que passa se uma mulher se casa a uma idade em que seus anos de fertilidade já passaram? Qual é o fim primordial para ela no matrimônio, então? Acaso a Tradição da Igreja impediu o sacramento do matrimônio a um casal maior de idade cujos anos de fertilidade da mulher tenham terminado? Se foi assim, por favor, instrua-me alguém, porque não sei se me perdi de algo.
Agora que se descobriram os períodos fecundos e infecundos do ciclo da mulher e a paternidade responsável consiste em abrir-se com generosidade a receber o dom de uma família numerosa ou, por razões sérias (que a Igreja deveria catequizar sobre elas), buscar evitar por um tempo ou permanentemente os nascimentos dos filhos utilizando métodos que respeitem a lei inscrita no corpo da mulher aqui mencionada, ensinando que o abraço íntimo dos esposos deve consumar-se com a ejaculação dele dentro do ventre dela e, por tanto, deixando a decisão a Deus Nosso Senhor de criar ou não uma nova vida humana no ventre da mulher, pergunto: o que proporão agora os tradicionalistas? Proporiam que unicamente haja intimidade conjugal nos dias em que se descubra que a esposa é fértil e está pronta para conceber? Essa seria a proposta tradicionalista atual, aproveitando que já se podem descobrir, com altíssimo nível de certeza, os dias do mês em que a mulher está ovulando? São Paulo disse em 1 Co 7, 5: “Não vos negueis um ao outro senão de comum acordo, por certo tempo, para dedicardes à oração; depois, voltai a estar juntos, para que Satanás não vos tente por vossa incontinência”. Acaso disse são Paulo: “Voltai a estar juntos para que continueis tendo filhos”?
Com o dito aqui não se está ignorando que recorrer aos períodos infecundos da mulher para ter intimidade conjugal pudesse ter uma mentalidade e intenção contraceptiva. É claro que esse é um cenário muito possível e, de não serem ensinadas adequadamente e de não serem catequizadas as “razões sérias” para evitar os nascimentos dos filhos, a paternidade responsável pudesse chegar a ser uma forma de “contracepção natural” em muitos matrimônios, que sentiriam que vivem a autêntica espiritualidade conjugal por não estarem utilizando meios artificiais nem estarem tomando nenhuma classe de pílulas ou medicamentos. É por isso que tanto são Paulo VI, em Humanae Vitae n. 16, como são João Paulo II, em Familiaris Consortio n. 32, afirmam que é lícito renunciar a fazer uso do matrimônio nos períodos fecundos para evitar a procriação, durante um tempo ou permanentemente, mas somente por razões sérias e plausíveis. O grande problema —que seria desonesto não reconhecer— é que essas razões é possível que não sejam tão sérias nem plausíveis, e a Igreja deveria catequizar sobre elas, embora não pareça ser um tema nem de longe prioritário nas insignificantes catequeses prematrimoniais que se oferecem na maioria das paróquias da Igreja atual.
Diz a Dama Católica, ex Perpleja, que foi condenado pela doutrina tradicional que o bem dos esposos seja superior ao bem dos filhos. Sem afirmar nenhum fim ou bem do matrimônio como superior a qualquer dos outros dois, pergunto: acaso o que mais impacto tem na educação dos filhos não é que eles vejam e sintam que papai e mamãe se amam muito entre eles? Não se dão conta do imenso dano que há nos filhos da grande maioria dos matrimônios rompidos e famílias disfuncionais? Não constitui, além de um imenso dor, ver o maltrato de papai para com mamãe —ou vice-versa— e a marca tão profunda que deixa na memória e na psique dos filhos? Acaso se papai e mamãe se amam muito não serão os melhores educadores de seus filhos, inclusive por amor um do outro? Acaso o amor do esposo por sua esposa não o leva a tratar de ser melhor papai dos filhos dela, e vice-versa? Para que andar hierarquizando os fins do matrimônio quando não pode se dar um sem o outro? Insisto: pelo fato de que o amor e a fidelidade dos esposos, unidos pela graça do sacramento indissolúvel do matrimônio, constituem o melhor contexto para uma adequada educação dos filhos, hierarquizar esses bens confunde mais do que ajuda e pareceria como se a hierarquização fragmentasse mais do que une.
A Carta Encíclica Humanae Vitae do papa são Paulo VI estabeleceu claramente que “a Igreja… ao exigir que os homens observem as normas da lei natural interpretada por sua constante doutrina, ensina que qualquer ato matrimonial deve ficar aberto à transmissão da vida. Esta doutrina, muitas vezes exposta pelo Magistério, está fundada sobre a inseparável conexão que Deus quis e que o homem não pode romper por própria iniciativa, entre os dois significados do encontro conjugal: o significado unitivo e o significado procriador. Efectivamente, o encontro conjugal, por sua íntima estrutura, enquanto une profundamente aos esposos, os faz aptos para a geração de novas vidas, segundo as leis inscritas no ser mesmo do homem e da mulher. Salvaguardando ambos os aspectos essenciais, unitivo e procriador, o encontro conjugal conserva íntegro o sentido de amor mútuo e verdadeiro e sua ordenação à altíssima vocação do homem à paternidade”. Digam-me, por favor, os tradicionalistas: o que tem este ensinamento de ruptura com a “doutrina tradicional”? Qual é a obsessão com a “hierarquia” dos fins do matrimônio? Será porque unicamente a disseram os grandes são Agostinho e santo Tomás de Aquino e porque foi mencionada pelo Catecismo Romano e, por tanto, haja que ser fiéis a isso ao pé da letra sim ou sim, sem considerar como possível uma ulterior reflexão e um aprofundamento nessa doutrina, sem negar nem contradizer o que se disse? Acaso não houve um autêntico “desenvolvimento de doutrina” com respeito à compreensão que a Igreja fez do destino eterno dos fetos ou dos bebês que, contraindo o pecado original, jamais cometeram um pecado livremente, nem sequer venial? Desde que são Agostinho pensava que todo bebê ou feto que morria sem ser batizado, sua alma seria condenada ao fogo eterno no inferno, e passando pelo resto da Patrística, depois por santo Tomás de Aquino e por toda a Escolástica medieval, até chegar ao documento da Comissão Teológica Internacional, que publicou em janeiro de 2007 concluindo que existem “poderosas razões para esperar que Deus salvará a estes crianças quando nós não temos podido fazer por elas o que teríamos desejado fazer, isto é, batizá-las na fé e na vida da Igreja”, não seria isso um claro exemplo contundente de um genuíno “desenvolvimento de doutrina”? Acaso a Teologia do Corpo segundo são João Paulo II não pudesse ser também um autêntico “desenvolvimento de doutrina” com respeito à chamada “doutrina tradicional” sobre o matrimônio? O que seria o que impediria que isso fosse assim?
São João Paulo II estabeleceu com toda clareza e sem ambiguidade que “segundo o critério desta verdade, que deve expressar-se com o ‘linguagem do corpo’, o encontro conjugal não só ‘significa’ o amor, mas também a potencial fecundidade, e por isso não pode ser privado de seu pleno e adequado significado mediante intervenções artificiais… [Quando o encontro conjugal é] privado de sua verdade interior, por ser privado artificialmente de sua capacidade procriativa, cessa também de ser um ato de amor” (Audiência geral de 22 de agosto de 1984). O que tem este ensinamento de ruptura com a “doutrina tradicional”?
Continuará na Parte IV
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