Por Mons. Robert J. Batule
O Papa São João Paulo II inicia sua encíclica sobre as missões (Redemptoris missio, 1990) citando São Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. O Apóstolo dos gentios escreve ali: «¡Ai de mim se não pregar o [Evangelho]!». (1 Coríntios 9,16)
Isso é exatamente o que esperamos que diga São Paulo. Afinal, ele foi o maior evangelizador da Igreja no mundo antigo, e continua sendo o exemplo par excellence do que nós mesmos estamos chamados a fazer à luz do Batismo e de nosso desejo do Céu. Mas poderia haver certa relutância em aceitar o Evangelho se entendermos a palavra «ai» de um único ponto de vista. E com isso me refiro a considerar que o «ai» se refere unicamente a calamidades.
De fato, não faltaram calamidades no ministério de Paulo. Ele foi açoitado com varas e encarcerado em Filipos. (Atos 16,22-23) Mais tarde, no mar, sofreu um naufrágio. (Atos 27,41-44) Quando chegou a Roma, foi posto em prisão domiciliar. (Atos 28,16) E nem mesmo essa diminuição do perigo imediato pôde impedir sua decapitação e martírio por volta do ano 68 d. C.
«Ai» tem outro significado que devemos reconhecer. Seu segundo sentido se encontra na apresentação que São Lucas faz das Bem-Aventuranças. (Lucas 6,20-26) Assim como na versão de São Mateus (Mateus 5,3-12), aparecem as bem-aventuranças. Mas o relato de São Lucas contém quatro «ais»: ai de vós os ricos!, ai de vós os que agora estais saciados!, ai dos que agora riem!, e ai quando todos falarem bem de vós! (Lucas 6,24-26)
O «ai» na versão lucana das Bem-Aventuranças sugere um desfavor ou juízo divino precisamente contra aquelas atitudes que se opõem obstinadamente ao Evangelho. Tratar-se-ia do desejo de opulência, da pretensiosidade, da frivolidade e de uma maleabilidade sem princípios nas relações pessoais. Em nosso tempo, poderíamos adicionar especialmente a esta lista uma atitude de vergonha diante da verdade. De fato, é essa atitude que dissuade hoje muitas pessoas de aceitar o Evangelho.
Ao que me refiro aqui é ao fenômeno cultural profundamente enraizado do relativismo. O Papa São João Paulo II se refere ao fenômeno do relativismo em Redemptoris missio (36) e o chama de uma «dificuldade» no que respeita à proclamação do Evangelho. É, diz ele, uma indiferença generalizada que nos leva a crer que, mesmo para quem crê em Deus, uma religião é tão boa quanto outra. (RM, 36)
Parece-me que os dirigentes eclesiásticos devem exercer grande cautela com a terminologia, incluindo o uso de uma palavra como «caminho», à luz do relativismo cultural e religioso dominante. Pois pode ser entendido muito facilmente, em um clima de indiferentismo, que todos os caminhos para Deus são iguais. E se esse for o caso, então a religião não seria mais que uma questão de de gustibus, do que a alguém apetece.
A noção de «dificuldade» de São João Paulo II, devida ao indiferentismo religioso que nos rodeia, aponta para obstáculos à conversão. Mudar de religião não se faz simplesmente para manter a harmonia conjugal ou familiar. Frequentemente, a conversão se reduz a se haverá um compromisso pessoal com a verdade e com a forma como esta se expressa em uma religião em face de outra. Fazer hoje esse compromisso pessoal com a verdade exige tanto lucidez quanto coragem. Afirma que os sentimentos não são o árbitro de tudo. A verdade importa.
Há vinte e cinco anos, houve uma considerável consternação nos círculos ecumênicos quando, na Declaração intitulada Dominus Iesus (2000), a Igreja Católica deixou de lado qualquer vergonha com respeito à verdade e ousou afirmar que a plenitude da verdade pode ser abraçada pessoalmente. Esse abraço é, evidentemente, o que é o Caminho, a Verdade e a Vida. (João 14,6) E por meio da graça divina, o Senhor dotou sua Igreja da plenitude dos meios de salvação.
A atitude adequada que devemos ter, então, é a humildade. Cada vez mais, nossa oração deve se assemelhar à da Santíssima Virgem Maria na Visitação. No Magnificat, Nossa Senhora ora assim: «Proclama minha alma a grandeza do Senhor, exulta meu espírito em Deus, meu salvador, porque olhou para a humilhação de sua serva». (Lucas 1,46-48) A humildade não é uma falsa modéstia. Ao mesmo tempo, também não é uma relutância ou uma resistência em deixar que a luz brilhe para que todos a vejam.
A cena final do Evangelho de São Mateus recolhe como os apóstolos recebem o encargo de pregar. Primeiro, devem fazer discípulos de todas as nações. Depois, devem batizar esses discípulos nas águas do Batismo. Por último, os apóstolos têm a obrigação de ensinar a todas as nações «a guardar tudo o que eu vos mandei».
Os apóstolos não podiam ter uma fé morna. Tinham que ser resolutos e determinados. E do mesmo modo, seus sucessores deveriam demonstrar essas mesmas qualidades.
A cena inicial do filme A Missão (1987) mostra missionários jesuítas da Europa escalando cachoeiras na América do Sul para chegar aos guaranis e anunciar-lhes o Evangelho. Qualquer número de «ais» poderia ter frustrado essa empreitada apostólica longe de casa, não sendo o menor deles uma lesão catastrófica ou a morte. No entanto, de algum modo, sabia-se que nenhum outro tipo de «ai» seria capaz de detê-los.
O fato de que em nosso tempo a Igreja realize menos trabalho missionário ao estilo clássico nos impõe uma responsabilidade a todos: ser testemunhas em uma cultura que crê não precisar da verdade. Mas o remédio se encontra nas próprias palavras de Jesus: «A verdade vos fará livres». (João 8,32)
A verdade é real porque Cristo é real. Se Ele não tivesse morrido e ressuscitado por nós, não haveria uma exaltação suprema da verdade. (Veritatis splendor, 87) Na Cruz e na Ressurreição não pode haver qualquer vergonha. Pois fomos salvos precisamente dessa maneira.
Sobre o autor
Mons. Robert J. Batule é sacerdote da diocese de Rockville Centre. É pároco da paróquia de Santa Margarida em Selden, Nova York. Tem escrito e publicado artigos, ensaios e resenhas de livros sobre diversos temas em revistas, publicações periódicas e jornais durante mais de quarenta anos.
