Liturgia: cosmética ou genética?

Por: Monsenhor Alberto José González Chaves

Liturgia: cosmética ou genética?
Uma boa cosmética é, acima de tudo, uma arte do respeito: não desfigura nem rabisca; não transforma um rosto em uma caricatura de si mesmo nem o força a parecer o que não é. A boa cosmética preserva a fisionomia anterior, a reconhece, cuida dela, a preserva, a mima, em continuidade, sem engano, sem negar hoje o que houve ontem.
As grandes casas de cosméticos sabem disso bem: uma firma séria que faz de seu nome uma garantia não busca anular o rosto, mas acompanhá-lo e respeitá-lo; não promete uma nova face, mas um rosto fiel a si mesmo, enobrecido pelo passar do tempo; não quer impor um rosto diferente, mas lograr que a mesma pessoa continue sendo reconhecível e atraente. Se a cosmética esquece este princípio, se se obsesiona com a novidade ou com o impacto imediato, o resultado é grotesco: brilho artificial, decapagem agressiva, volume desnecessário, expressão congelada, tensão de estuque, frieza de papelão.
Este princípio, tão evidente diante do espelho, é aplicável em rostos multisseculares, imperecíveis, obras de arte imortais, eternas, onde não está em jogo apenas a aparência sensorial, mas a transmissão trêmula de uma herança sagrada. Também ali há lugar para o cuidado e a limpeza, para a reforma entendida em seu sentido mais nobre, mas sempre com uma condição fundamental: não apagar os traços recebidos, não desacreditar o passado para justificar o presente, não reescrever a história como se fosse um rosto defeituoso que precisa ser corrigido.
A cosmética que não respeita, mas dissimula e substitui, reinterpretando até tornar irreconhecível o herdado, apresenta-se com linguagem técnica e polida, com aparato acadêmico e promessas de frescura e eficácia, mas deixa a sensação estranha de que o rosto já não fala por si mesmo, porque precisa ser explicado! Diante disso, as boas casas de cosméticos, as de prestígio e tradição, garantem seu produto com o uso de várias gerações: através de climas distintos, e em peles muito diversas, continua dando resultado. Não porque esse produto seja antigo, simplesmente, mas porque soube respeitar a natureza daquilo que cuida.
A missa de sempre pertence a esta categoria: não é objeto de nostalgia, mas forma viva, reconhecível, profundamente divina e humana (nesta ordem) e essencialmente misteriosa; uma estética teológica tão plena de santidade acumulada que não precisa ser maquiada para resultar sugestiva e perpetuamente fecunda.
Um traço próprio da má cosmética é sua tendência a insistir. No entanto, quando o produto atua em profundidade, sobram argumentos e debates, explicações e congressos, e, é claro, números e estatísticas… com a prévia decisão de impor a própria marca, independentemente do resultado das pesquisas, que será também maquiado a conveniência. Porque também as cifras admitem afeites: aplica-se-lhes corretor, joga-se com a luz, escolhe-se o ângulo mais favorável. Pode-se até ocultá-las atrás de uma camada de verniz radioso ou até falsificá-las, cobrindo-as com um enlucido luminoso. Mas o esmalte, por acharolado que seja, não resiste à intempérie, e o enlucido racha com o tempo. Só duram até que alguém fareje e investigue e, ao descobrir que o tom não é natural, aponte desde a Montagna e acerte na Diane…
A verdade – em definitiva, a Geltast– não precisa de retoques artificiosos para ser bela. Von Balthasar diagnosticava a crise moderna como separação entre verdade e beleza. E se a verdade sem beleza se torna fria, ideológica ou violenta, a beleza sem verdade se torna vazia, sentimental, enganosa. Por isso quem não percebe a beleza, não compreende a verdade. A fé educa os sentidos espirituais do crente que foi ferido pela beleza de Cristo. E a santidade é então transparência da Geltast, a forma de Cristo na vida do homem.
A Tradição —não museu, mas vida transmitida— não pede ser reformulada, mas recebida: sua força não está em competir com o novo, mas em assegurar a continuidade da permanente juventude do rosto amado, cheio de linhas que não o afeiam, porque contam sua história de glória e de cruz.
Reformar não é falsear nem apagar, impondo uma fisionomia alheia: quando o cuidado se converte em cirurgia ideológica e a cosmética deixa de ser respeitosa e fiável, o resultado não rejuvenesce, desfigura.
No final, conta a firma de uma marca veterana. Com as de ontem à tarde… be careful!: talvez não tenham pudor em trair um rosto venerável, cuja beleza podem tentar ocultar sob uma pátina cor Viola. Isso o sabe bem a prestigiosa casa de cosméticos Roche. Ou deveria.

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