A Conferência Episcopal Venezuelana não emitiu, por enquanto, nenhum comunicado oficial após a captura de Nicolás Maduro, ocorrida na madrugada de 3 de janeiro durante uma operação militar norte-americana em Caracas. Assim confirmou a The Pillar o presidente do episcopado, monsenhor Jesús González de Zárate, arcebispo de Cumaná.
“A situação ainda está se desenvolvendo. Precisamos ter uma visão geral antes de nos pronunciarmos”, explicou o prelado, que acrescentou que os bispos passaram as últimas horas em oração. “Tivemos rezando desde as duas da madrugada”, afirmou.
Uma operação militar de grande alcance
Por volta das 2:00 da manhã de 3 de janeiro, numerosos usuários em redes sociais relataram explosões em diferentes pontos de Caracas, assim como o sobrevoo de helicópteros e aviões militares. Horas depois, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou que as forças armadas norte-americanas haviam realizado uma operação para capturar Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores.
Segundo a procuradora-geral Pam Bondi, Maduro foi acusado nos Estados Unidos por cargos de conspiração de narcoterrorismo, tráfico de cocaína e posse de armas e explosivos. Flores também enfrenta acusações relacionadas a drogas e armas perante tribunais federais.
Durante a operação, o exército norte-americano bombardeou vários alvos militares, entre eles a sede do Ministério da Defesa, o principal aeroporto militar do país e um porto próximo. Trump assegurou que não houve baixas norte-americanas, enquanto The New York Times informou de pelo menos uma vítima civil.
Um regime marcado pela crise e a repressão
Maduro governa a Venezuela desde 2013, em um período caracterizado por uma profunda crise política, econômica e social, com denúncias reiteradas de corrupção e violações de direitos humanos. Em 2024, o Conselho Nacional Eleitoral, controlado pelo regime, anunciou sua reeleição para um terceiro mandato, em eleições amplamente questionadas pela comunidade internacional, que reconheceu graves irregularidades e deu credibilidade às denúncias de vitória da oposição.
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A Igreja, crítica habitual do chavismo
A Igreja Católica goza de um amplo respeito na Venezuela e o episcopado tem sido um dos críticos mais constantes do regime de Maduro. Em sua mensagem de Natal de 2025, os bispos denunciaram a “privação de liberdade por motivos políticos”, o empobrecimento generalizado da população e o colapso econômico do país.
No entanto, também expressaram então sua preocupação pelas ações militares norte-americanas na região do Caribe, lamentando a perda de vidas humanas e a presença de forças estrangeiras em águas internacionais.
O silêncio atual do episcopado reflete, segundo The Pillar, a incerteza sobre o futuro imediato do país, em meio a informações contraditórias após a captura do mandatário.
Incerteza política e reações internacionais
Enquanto Maduro aguarda ser processado em Nova York, Trump afirmou que os Estados Unidos “administrarão o país” até que ocorra uma transição “segura e adequada”. Posteriormente, indicou que a vice-presidente Delcy Rodríguez havia sido investida como presidente interina, extremo que ela mesma desmentiu horas depois de Caracas, qualificando a operação de “sequestro ilegal” e exigindo a libertação de Maduro.
A captura do ditador tem sido celebrada por amplos setores da diáspora venezuelana, mas suscitou reações encontradas na comunidade internacional e na política norte-americana, com apoios e críticas sobre a legalidade e as consequências geopolíticas da operação.
O papa León XIV ainda não se pronunciou sobre os fatos. Em uma coletiva de imprensa no passado 2 de dezembro, ao ser perguntado por uma eventual ação militar contra a Venezuela, o Pontífice afirmou que “é melhor buscar o diálogo, talvez a pressão, inclusive econômica, mas buscando outros caminhos para provocar a mudança”.
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