O silêncio de Belém

O silêncio de Belém
Adoración de los pastores, óleo de Bartolomé E. Murillo (c. 1650). En la quietud de la Nochebuena, unos humildes pastores adoran en silencio al Verbo encarnado en un pesebre de Belén, contemplando el misterio de Dios hecho Niño.

Na tradição católica, a cena da Natividade está envolta em um profundo silêncio sagrado. Não é um silêncio vazio, mas cheio de assombro e de presença divina. Santo Agostinho captou com maravilha essa paradoxo ao afirmar que Cristo foi “belo na medida em que Palavra nascida sem fala”, pois mesmo recém-nascido, incapaz de falar humanamente, “falaram os céus, proclamaram louvores os anjos, [e] uma estrela guiou os magos” para Ele. Ou seja, o Verbo eterno chegou ao mundo calando, e nesse silêncio o resto da criação elevou sua voz: os coros celestiais entoando “Glória a Deus no céu” e a estrela do oriente guiando os buscadores da verdade. “Enquanto tudo estava em quietude e silêncio, e a noite chegava à metade de seu curso, tua Palavra onipotente desceu do céu desde o trono real” diz a Escritura, sublinhando que Deus escolheu a hora mais silenciosa para revelar a Luz que não conhece ocaso. No recôndito daquela noite tranquila acendeu-se para a humanidade uma luz eterna. O Criador do universo irrompeu sem estrondo, na escuridão de um estábulo, manifestando o autêntico rosto de Deus: uma humildade e mansidão que desconcertam o mundo orgulhoso.

Humildade divina revelada em uma noite silenciosa

Os Pais e Doutores da Igreja ensinaram que esse silêncio de Belém não foi casual, mas profundamente elocuente. “O Salvador, no entanto, nasceu no silêncio e na pobreza mais completa”, recordava o Papa Bento XVI, contrastando as falsas expectativas de um Messias poderoso com a realidade desconcertante de Cristo humilde. Em Belém, Deus nos fala baixando o volume de toda ostentação: o Rei dos reis não nasce em um palácio entre trombetas, mas em um estábulo escuro, acompanhado do sussurro da noite e da respiração de animais simples. Santo Tomás de Aquino explica que Cristo “convém que levasse uma vida pobre neste mundo”, aceitando nascer na indigência precisamente para nos dar uma riqueza superior. O Doctor Angelicus raciocina que, “assim como aceitou a morte corporal para nos dar a vida espiritual, da mesma forma suportou a pobreza temporal para nos dar as riquezas espirituais”. Essa escolha divina da pobreza e do silêncio ensina à humanidade uma verdade eterna sobre Deus e sobre nós mesmos: a grandeza autêntica está unida à humildade. Cristo “não exigiu lugar nem forçou portas” para nascer, “não impôs Seu Amor”– veio despojado de tudo, para reinar unicamente a partir do amor e da verdade. Aquela silenciosa pobreza do Menino Deus, envolto em faixas e recostado em uma manjedoura, é já uma pregação viva: nos urge a renunciar à soberba e ao ruído vazio, convidando-nos à simplicidade que agrada a Deus. Como ensina Santo Tomás, naquele que voluntariamente se faz pobre por amor –e Cristo o fez em sumo grau– “a mesma pobreza é sinal de humildade suprema”. Na silenciosa humildade de Belém brilham, portanto, a glória e a onipotência verdadeiras de Deus, que não precisam do fausto mundano, mas da linguagem humilde da encarnação.

O silêncio que fala mais que as palavras

Longe de ser mudo ou inerte, o silêncio de Belém é um silêncio “que fala” à alma. Os pastores acorreram apressados após ouvir o anúncio do anjo, mas ao chegar encontraram simplesmente um Menino recém-nascido com sua Mãe, no mais absoluto recolhimento noturno. No entanto, nessa cena calada souberam reconhecer “o rosto autêntico de Deus”. Maria Santíssima guardava todas essas coisas meditando-as em seu coração, e José, o varão justo, acompanhava com silenciosa adoração. Os santos viram nesse silêncio contemplativo um modelo para nossa fé. “Belém é a escola do silêncio e da contemplação”, escreve Santo Agostinho, “de um José contemplativo e obediente, e de uma Maria absorta e maternal que meditava todas aquelas coisas em seu coração”. Cala-se as palavras para que fale o Amor. De fato, Deus costuma se revelar no sussurro suave mais que no estrondo: “O Senhor está em seu santo templo: cale diante Dele toda a terra!” (Hab 2,20). Séculos depois de Belém, São João da Cruz formulará essa lição de modo sublime: “Uma Palavra falou o Pai, que foi seu Filho, e esta fala sempre em silêncio eterno, e em silêncio há de ser ouvida pela alma”. O Verbo eterno do Pai é Silêncio feito carne, e só no silêncio interior podemos ouvi-lo realmente. Por isso, o Menino Deus não pronuncia discursos em sua Natividade; sua mesma Presença é a Mensagem. “Como então, [Deus] se oculta misteriosamente em um santo silêncio e, como então, desvela precisamente assim o verdadeiro rosto de Deus”, pregou Bento XVI, assinalando que Cristo se nos dá a conhecer velado na humildade, convidando-nos a uma peregrinação interior de adoração. A aparente fraqueza desse Menino que nem sequer pode articular palavras é na realidade a onipotência amorosa de Deus, que “escolhe as coisas fracas do mundo para confundir os fortes” (cf. 1 Cor 1,27). Em Belém, o silêncio de Jesus recém-nascido “fala” mais que qualquer oratória humana: nos fala do amor inefável de Deus que se abaixa até nós, nos fala da esperança que já não decepciona, nos fala do dom da salvação oferecido humildemente a toda a humanidade.

Verdades eternas reveladas na quietude de Belém

O mistério do silêncio de Belém conserva toda sua força interpeladora no meio de nosso século bullicioso. Belém nos convida a calar para ouvir a Deus, a baixar o volume exterior e interior para captar o sussurro do Verbo feito carne. Contemplar o presépio em silêncio é deixar que nos fale o Amor supremo: Deus caritas est. Se apagamos por um momento o ruído do mundo e entramos na gruta de Belém com a fé de Maria, de José e dos pastores, então a “grande alegria” do Natal (cf. Lc 2,10) inundará também nossa alma. “Nosso Salvador nasceu hoje: alegremo-nos. Não há lugar para a tristeza no dia em que nasce a Vida” – exclama São Leão Magno. Que o silêncio sagrado da Noite de Natal rompa nossas correntes de ruído e pecado, destrua nossos medos e nos encha de a alegria e a esperança eternas. Nesse bendito silêncio de Belém ressoam para sempre a “palavra de paz” e a “Boa Nova de salvação” que Deus dirige à humanidade. Aproximemo-nos, pois, em adoração silenciosa ao Emanuel, Deus-conosco, e deixemos que a Verdade eterna nos fale ao coração na suave voz do silêncio.

¡Feliz Natal santo!

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