“Um exército inteiro de mortos nos manda agir assim”: a carta de Gorostieta aos bispos

Texto íntegro segundo A contrarrevolução cristera, de Javier Olivera Ravasi

“Um exército inteiro de mortos nos manda agir assim”: a carta de Gorostieta aos bispos
Em sua obra monumental, La contrarrevolución cristera, Javier Olivera Ravasi resgata uma joia histórica da correspondência do general Enrique Gorostieta Velarde, comandante do Exército Libertador, dirigida aos bispos mexicanos durante os anos mais duros da perseguição religiosa. É uma carta de fé, dor e acusação: uma súplica à hierarquia eclesiástica para que reconheça a legitimidade moral de uma guerra empreendida pelo povo católico em defesa de sua fé. Ravasi explica que esta missiva, escrita no fragor da contenda, é tão teologicamente lúcida quanto militarmente firme. Nela, Gorostieta fala não como político nem estrategista, mas como crente que vê seus homens morrerem sem uma palavra de ânimo de seus pastores. Reproduzimo-la integralmente a seguir, tal como aparece no livro.

Carta do general Enrique Gorostieta aos bispos mexicanos

Desde que começou nossa luta, não deixou de se ocupar periodicamente a imprensa nacional, e até a estrangeira, de possíveis acordos entre o chamado governo e algum membro destacado do Episcopado mexicano para terminar o problema religioso. Sempre que tal notícia apareceu, os homens em luta sentiram que um calafrio de morte os invade, pior mil vezes que todos os perigos que decidiram enfrentar, pior, muito pior que todas as amarguras que tiveram que sorver. Cada vez que a imprensa nos diz de um bispo possível parlamentar com o callismo, sentimos como uma bofetada no pleno rosto, tanto mais dolorosa quanto vem de quem poderíamos esperar um consolo, uma palavra de ânimo em nossa luta; ânimo e consolo que, com uma única honrosíssima exceção, de ninguém recebemos […]. Sempre foram essas notícias como duchas de água gelada em nosso entusiástico calor […]. Agora que os que dirigimos no campo precisamos de um apoio moral por parte das forças diretoras, de maneira especial das espirituais, volta a imprensa a espalhar o rumor de possíveis conversas entre o atual Presidente e o Sr. Arcebispo Ruiz y Flores […].

Não sei o que haja de certo no assunto, mas, como a Guarda Nacional é instituição interessada nele, quero de uma vez por todas, e pelo digno conduto de Vds., expor a maneira de sentir dos que lutamos no campo a fim de que chegue ao conhecimento do Episcopado mexicano, e a fim de que também sejam Vds. servidos em tomar as providências que sejam necessárias para que, chegando até Roma, obtenhamos de nosso Santo Vigário um remédio a nossos males; remédio que não é outro que o de obter o nomeamento de um núncio ou o de um primaz, que venha pôr fim ao caos existente e que unifique a labor político-social de nossos bispos, príncipes independentes.

Cremos os que lutamos no campo que os bispos, ao entrarem em conversas com o governo, não podem se apresentar senão aprovando a atitude assumida sem gênero de dúvida por mais de quatro milhões de mexicanos, e da cuja atitude é produto a Guarda Nacional, que conta por agora com mais de vinte mil homens armados e com outros tantos que, sem armas, podem seguramente ser considerados em direito como beligerantes […]. Se os bispos, ao tratar com o governo, desaprovam nossa atitude; se não tomam em conta à Guarda Nacional e tratam de dar solução ao conflito independentemente do que nós anelamos, e sem dar ouvidos ao clamor de enorme multidão que tem todos seus interesses e seus ideais jogando na luta; se se esquecem de nossos mortos, se não se tomam em consideração nossos milhares de viúvas e órfãos, então levantaremos airados nossa voz e, em uma nova mensagem ao mundo civilizado, rejeitaremos tal atitude como indigna e como traidora, e provaremos nossa asseveração.

Pessoalmente farei cargos aos que agora aparecem como possíveis mediadores […]. Os senhores bispos, afastados por qualquer motivo do país, viveram estes anos desconectados da vida nacional, ignorantes das transformações que nesta etapa de amarga luta sofreu o povo, e por isso incapazes de representá-lo em ato de tamanha transcendência […]. É o povo mesmo o que precisa de uma representação; é a vontade popular a que há que consultar; é o sentir do povo o que há que tomar em consideração; deste paupérrimo povo nosso que se bate em sua própria pátria contra um punhado de bastardos que se escudam com uma montanha de elementos de destruição e de tortura.

Não são em verdade os bispos os que podem com justiça ostentar essa representação. Se eles houvessem vivido entre os fiéis, se houvessem sentido em união de seus compatriotas a constante ameaça de sua morte por só confessar sua fé; se houvessem corrido, como bons pastores, a sorte de suas ovelhas; se ao menos houvessem adotado uma atitude firme, decidida e franca em cada caso, para estas datas fossem em verdade digníssimos representantes de nosso povo. Mas não foi assim, ou porque não devia ser ou porque não quiseram que assim fosse […].

O que nos faz falta em força material não o pedimos ao Episcopado; o obteremos por nosso esforço. Sim pedimos ao Episcopado força moral que nos faria onipotentes e está em suas mãos dá-la-nos, com só unificar seu critério e orientar a nosso povo para que cumpra com um dever, aconselhando-lhe uma atitude digna e viril, própria de cristãos e não de escravos […].

Acredito de meu dever declarar de uma maneira enfática e categórica que o principal problema que tivemos que afrontar os diretores deste movimento não seja o dos pertrechos. O principal problema tem sido e segue sendo eludir a ação nociva e fatal que no ânimo do povo provocam os atos constantes de nossos bispos e a mais direta e desorientada que realizam alguns senhores curas e presbíteros, seguindo os lineamentos que a eles indicam seus prelados. Nós houvéramos contado com pertrechos e contingentes abundantíssimos se, em vez de cinco estados da República, respondessem ao grito de morte lançado pela pátria trinta ou mais dioceses. O decantado poder do tirano […] houvesse caído feito em pedaços ao primeiro golpe de maça, talvez com que houvesse logrado que por primeira e única vez na história de nossos martírios nacionais os Príncipes de nossa Igreja houvessem estado de acordo unicamente para declarar que a defesa é lícita e, em seu caso, obrigatória… […]

Que os senhores bispos tenham paciência, que não se desesperem; que dia chegará em que possamos com orgulho chamá-los, em união de nossos sacerdotes, a que venham outra vez entre nós a desenvolver sua sagrada missão, então sim em um país de livres. ¡Todo um exército de mortos nos manda obrar assim! […]

Uma carta impossível de silenciar, para ler e meditar.La contrarrevolución cristera., de Javier Olivera Ravasi (ed. Homo Legens), não é só um livro de história: é uma catequese sobre a fidelidade, o valor e a consciência cristã em tempos de apostasia. Cada documento —como esta carta de Gorostieta— devolve ao leitor a certeza de que a fé, quando se defende, ilumina inclusive os campos de batalha.

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