Dizem que o demônio se disfarça de anjo de luz. Mas às vezes nem se dá ao trabalho. Apresenta-se tal qual, com colarinho clerical torto, caderno de jornalista, e uma carta aberta debaixo do braço. E o mais preocupante não é sua aparência, mas sua pretensão: parecem convencidos de que podem levar o Papa ao abismo se se propuserem.
Já se passou um mês desde a frustrada tentativa de manipulação diplomática que teve como protagonista (ou vítima) o prefeito de Lima. Mas longe de se moderar, o núcleo duro do “lobby Sodalicio” —Pedro Salinas, Paola Ugaz, Jordi Bertomeu e, por supuesto, José Enrique Escardó— intensificou sua pressão. Já não se contentam em condicionar saudações. Agora marcam nomeações, celebram sanções, ditam doutrina e até se permitem revitimizar as próprias vítimas que dizem defender.
A recente decisão do Papa Leão XIV de nomear três comissários adjuntos para colaborar com Bertomeu na liquidação do Sodalicio foi apresentada como uma vitória dos bons. E no entanto, tudo nessa encenação cheira a fuga para a frente. A uma jogada desesperada para manter a narrativa de que o Papa segue as instruções do “trío calavera” sem rechistar.
Os mesmos atores de sempre —Ugaz, Salinas, Escardó— repetem com insistência: que conhecem o Papa, que falaram com ele, que confiam em Bertomeu, que têm “tudo documentado”. Que se não se fizer o que eles dizem, não haverá justiça. E se não estiverem buscando justiça, mas controle?
Porque enquanto lançam elogios ao Papa por “seguir o processo de perto”, o expõem publicamente como se fosse uma peça a mais de seu tabuleiro. E se algum tribunal —como o de Toledo— se permite dissentir ou questionar seus relatos, o acusam de revitimizar e pedem sua imediata correção. Assim não se constrói justiça. Assim se impõe uma hegemonia ideológica, não a verdade dos fatos.
Escardó, cuja história merece sem dúvida escuta e compaixão, passou de símbolo de denúncia a totem intocável de uma narrativa cada vez mais tóxica. Qualquer nuance, qualquer dúvida, qualquer tentativa de objetivar seu testemunho é considerado heresia institucional.
E isso, longe de ajudá-lo, o converte em refém de uma causa que já não busca justiça, mas vingança, visibilidade e poder. Suas palavras são usadas como aríete. Sua dor, como blindagem. Sua história, como ameaça. E tudo se resume em uma frase terrível: “Se o Papa não fizer o que queremos, ele também será culpado”.
Prevost deve se libertar deste jugo
O Papa Leão XIV, que herdou o caso do Sodalicio e o conhece melhor que ninguém, faria bem em fechar definitivamente o capítulo de Chiclayo e colocar distância com aqueles que fizeram deste caso sua plataforma de poder. O melhor que o cardeal Prevost pode fazer é libertar-se o quanto antes desta rede de manipulação medíocre, antes que acabem arrastando seu pontificado —e a Igreja inteira— ao descrédito total.
Porque uma coisa é atender às vítimas com respeito e justiça. E outra, muito diferente, é permitir que a Igreja seja refém de uma camarilha que fez do chantaje emocional sua única ferramenta política.
Se de verdade queremos uma Igreja livre, limpa e forte, o primeiro passo é cortar a cadeia de favores, medos e pressões que alguns construíram sobre a dor de outros. E se para isso for preciso dizer basta a Salinas, Ugaz, Bertomeu e companhia, mais vale fazê-lo hoje que lamentá-lo amanhã.
