Pelo P. Raymond J. de Souza
Para os devotos do cardeal Newman, a próxima semana já era muito esperada, com sua declaração formal como Doutor da Igreja na solenidade da festa de Todos os Santos. Em seguida, esta semana, o Vaticano anunciou que o Papa Leão XIV também o nomeará copadroeiro da educação católica, junto com Santo Tomás de Aquino.
Uma notícia feliz, pois poucos refletiram tanto sobre a filosofia da educação como São John Henry, especialmente em relação ao seu (malogrado) projeto em Dublin de fundar uma universidade católica. Embora a combinação de Aquinas e Newman — ou a combinação de Aquino com qualquer um? — seja formidável, confesso que nunca penso neles como mestres, em sentido estrito.
Eram estudiosos, certamente. E buscadores da verdade, mais estudantes eles mesmos do que simples docentes de outros. Ambos foram criaturas do âmbito universitário — e os professores pesquisam e ensinam, aceitando muitos o ensino como o preço de poder pesquisar. Não é incomum que os acadêmicos mais eminentes ensinem muito pouco, ou nada. Em qualquer caso, ambos os padroeiros ensinaram mais através de seus escritos do que por suas aulas ou tutorias.
A díade Aquino–Newman é feliz também por outra razão: durante muitos anos no campus, suas orações eram as que mais recomendava aos estudantes, pois se ajustavam à sua etapa vital. Ambos escreveram orações e hinos. Santo Tomás nos deu os hinos para a festa do Corpus Christi, e considero que nenhuma ocasião é inadequada para entoar Praise to the Holiest in the Height, o hino de Newman de The Dream of Gerontius.
As orações que recomendava aos estudantes eram a “Oração antes do estudo” de Santo Tomás e a “Missão da minha vida” de Newman. Não só os jovens podem se beneficiar de rezá-las.
A oração tomista antes do estudo aparece aqui e ali em diferentes versões. Os estimáveis frades dominicanos da Província de São José usam esta:
Criador de todas as coisas, verdadeira fonte de luz e sabedoria, origem de todo ser, permite benignamente que um raio de tua luz penetre a escuridão do meu entendimento.
Livra-me da dupla escuridão em que nasci, a escuridão do pecado e da ignorância. Dá-me um entendimento agudo, uma memória retentiva e a capacidade de captar as coisas corretamente e em sua essência.
Concede-me o talento de ser exato em minhas explicações e a habilidade de me expressar com profundidade e encanto.
Indica-me o começo, dirige o progresso e ajuda-me na culminação. Peço-o por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.
A versão que aprendi quando era universitário aparece na Raccolta e amplia o saudação inicial:
Criador infinito, que na riqueza da tua sabedoria designaste três hierarquias de anjos e as estabeleceste em maravilhosa ordem sobre os céus mais altos, e que dispuseste os elementos do mundo com suprema sabedoria…
Nos lembra por que Tomás é o Doutor Angélico, e também que as inteligências têm um lugar eminente na providência de Deus. Nunca consegui lembrar quais eram as três hierarquias de anjos, mas não importava; gostava de pensar que eles estavam me vigiando.
A tradução inglesa da Raccolta fala de “copious eloquence”, mas a versão dominicana prefere “thoroughness and charm” (“profundidade e encanto”). Prefiro esta última, pois o mundo precisa de mais encanto são e santo. Parece-me que os estudantes aprendem melhor de professores encantadores, embora nem Aquino nem Newman sejam geralmente considerados assim. Newman, no entanto, em sua “definição de um cavalheiro”, propõe uma forma de encanto como virtude desejável.
A educação depende de bons mestres, mas seu fim último é obrar um bem nos alunos. Assim, Aquino e Newman são modelos exemplares, pois as conquistas de sua vida intelectual e sua busca pela verdade produziram neles uma bondade genuína, o testemunho da santidade.
A Oração antes do estudo nunca foi tão popular como a Missão da minha vida de Newman, que muitos memorizaram. Afinal de contas, estudar pode ser árduo, enquanto que uma missão resulta emocionante.
A oração de Newman é simplesmente uma das melhores jamais escritas em inglês e, embora ressoe especialmente entre os jovens cujo futuro está aberto diante deles, pode ser rezada com igual consolo e sinceridade à beira da morte:
Deus me criou para lhe prestar algum serviço determinado.
Ele me confiou uma obra que não confiou a outro. Eu tenho minha missão.
Talvez eu nunca a saiba nesta vida, mas ela me será revelada na próxima. Sou um elo em uma cadeia, um vínculo de união entre pessoas. Ele não me criou em vão.
Farei o bem; farei sua obra. Serei um anjo de paz, um pregador da verdade em meu próprio lugar, sem pretender, se cumprir seus mandamentos.
Portanto, confiarei Nele. Seja o que for, não posso ser descartado. Se estou doente, minha doença pode servi-Lo; se estou perplexo, minha perplexidade pode servi-Lo; se estou triste, minha tristeza pode servi-Lo. Ele não faz nada em vão.
Ele sabe bem o que faz. Pode tirar-me meus amigos. Pode enviar-me entre estranhos. Pode fazer-me sentir desolado, fazer declinar meu espírito, ocultar-me o futuro. Ainda assim, Ele sabe o que faz.
Há um toque de humor divino em que o padroeiro da educação católica fale da “perplexidade” servindo a Deus, mas Newman sabia que podia fazê-lo. E perplexidade é uma palavra deliciosa, usada com muita pouca frequência na oração e na fala cotidiana, o que é estranho, dado que os perplexos abundam. Sem dúvida, os estudantes experimentam perplexidade, e é reconfortante saber que ela também pode servir a Deus.
As orações dos padroeiros da educação católica sublinham que a educação inclui, mas não se esgota no conhecimento. Trata-se de um encontro que pode se tornar relação. São João Paulo II, em Fides et Ratio, apontou que os filósofos antigos consideravam a amizade como o contexto mais apropriado para a educação. O mestre compartilha com o aluno algo que possui sem perdê-lo, quando o aluno o adquire. É um ato de bondade, uma comunhão de um bem compartilhado, um gesto de amizade, embora o professor seja um pouco rabugento. Melhor, isso sim, que seja encantador.
A amizade última que a educação católica oferece é a amizade com Deus. Estudar, buscar a verdade, descobrir uma missão: tudo isso é experimentar a realidade assombrosa de que Deus deseja compartilhar o que só Ele possui em plenitude. Tanto Aquino como Newman o sabiam, o viviam e o propunham aos outros.
Há orações antes e depois das refeições. Por que não também antes e depois da aula? Ao começar, pedindo o “raio de luz” divino que ilumine por igual o mestre e os alunos. E ao terminar, se apesar dos melhores esforços do professor prevalece a perplexidade, saber que ela também serve a Deus.
Sobre o autor
O P. Raymond J. de Souza é sacerdote canadense, comentarista católico e Senior Fellow na Cardus.
