Pelo P. Paul D. Scalia
“¡Graças a Deus que não sou como aquele fariseu!” Se essa foi a sua reação ao Evangelho de hoje (Lc 18, 9-14), provavelmente perdeu o ponto central. Porque há mais do que um pouco do fariseu em cada um de nós, e não o suficiente do publicano. Nosso Senhor apresenta a parábola como dois homens distintos no Templo de Jerusalém. Mas poderiam muito bem ser dois homens dentro de cada um de nós. Representam a batalha entre o orgulho e a humildade que se trava em nossas almas.
O orgulho é a atenção desordenada ao eu. Geralmente o associamos à altivez, à autoexaltação que vemos no fariseu. Mas isso é apenas uma de suas manifestações. No fundo do orgulho encontra-se a autorreferencialidade, esse pensamento que encerra o homem em si mesmo (incurvatus in se) e o incapacita para se abrir a Deus e à graça.
O orgulho isola. Observe como o fariseu é incapaz de uma conversa autêntica com Deus. Sua oração está centrada em si mesmo e em suas próprias virtudes. Não trata de Deus nem de sua bondade. De fato, nem mesmo se dirige realmente a Deus. O texto diz que “orava consigo mesmo”. Essa linha descreve com grande riqueza quão espiritualmente paralisante é o orgulho. Nos encerra dentro de nós mesmos, impedindo-nos de sair para falar sinceramente com Deus ou com os outros. Também impede que os outros cheguem a nós para nos oferecer uma correção necessária.
O único olhar para fora do orgulhoso é a comparação com os outros. O fariseu encontra no publicano um contraste que o faz se sentir bem consigo mesmo. Pior ainda, acredita que agrada a Deus porque é melhor que outro. Em comparação com o “inferior”, pode se manter ereto e orgulhoso em sua oração. Mas ao fazê-lo, constrói sua própria prisão. Ele acorrentou seu valor e sua autoestima a ser “melhor” que os outros. Isso é vaidade: uma satisfação inútil porque não se apoia na verdade, mas na comparação.
E a comparação poderia ter sido diferente. O fariseu poderia ter se encontrado com alguém mais virtuoso, que jejuasse e desse o dízimo mais do que ele. O que teria acontecido então? Para um homem tão centrado em si mesmo, isso teria significado desânimo e desespero. Sua paz depende tanto de ser “melhor” que os outros, que ser “pior” o desestabiliza.
Isso também é orgulho: acreditar que desagradamos a Deus porque outros são melhores que nós. Continua sendo um foco excessivo em si mesmo, não no amor que Deus nos tem. É o mesmo erro do altivo, mas com um resultado diferente.
O erro está na comparação. Que o fariseu se considere melhor que os outros é, em certo sentido, secundário. O verdadeiro câncer espiritual é a comparação constante. Lembre-se do conselho do tio Screwtape: “Ser” significa estar em competição. O fariseu encontra seu valor apenas em comparação com os outros, nunca à luz do amor de Deus por ele. O que lhe dá valor não é o amor divino, mas ser melhor que os outros. E se as coisas tivessem sido ao contrário, o desânimo o teria abatido.
A comparação é o ladrão da alegria. Esse velho ditado contém muita sabedoria. Quem encontra seu valor apenas comparando-se com os outros será altivo quando for superior, e infeliz quando não o for. São simplesmente duas faces da mesma moeda do orgulho. Outra variante consiste em nos considerarmos fracassos por não atingir nossos próprios padrões egocêntricos, em vez de acolher o amor que Deus nos oferece e encontrar nosso valor na forma como Ele nos vê. Os orgulhosos colocam suas próprias condições para serem amados, em vez de receber o que Deus lhes dá gratuitamente. Querem apossar-se do que Ele deseja doar-lhes.
O orgulho é escravidão. A humildade é liberdade. “Mas o publicano, mantendo-se à distância, não ousava nem levantar os olhos ao céu, mas batia no peito dizendo: ‘Ó Deus, tem misericórdia de mim, que sou um pecador!’” Para nossa cultura, isso pareceria tremendamente insalubre. Acusariam-no de baixa autoestima.
Na realidade, sua humildade abre a porta para um diálogo genuíno com Deus. Diferente do fariseu, ora verdadeiramente a Deus, não a si mesmo. A oração é o primeiro fruto da humildade, um falar com Deus não como um ser autossuficiente, mas como alguém dependente Dele e alegre por sê-lo.
A humildade é liberdade porque é verdade. É a justa avaliação de nós mesmos e de nossa relação com Deus. O publicano conhece a realidade fundamental: somos pecadores e Deus é o Salvador. Ser humilde é nos vermos como somos, reconhecer nossos dons, nossas faltas e nossa total dependência de Deus. É receber, não arrebatar.
E a humildade nos liberta da armadilha da comparação. O humilde sabe que sua dignidade e seu valor provêm de Deus. Não teme como se mede em relação aos outros. Não se ensoberbece se for melhor, nem se deprime se for pior. Pode alegrar-se.
O gesto simples do publicano foi incorporado à Missa. Batemos no peito em sinal de arrependimento. Nos apresentamos diante de Deus não como justos que não precisam de ninguém, mas como pecadores necessitados de misericórdia. A localização desse ato de humildade no início da Missa é significativa: prepara o terreno de nossa alma para receber primeiro a Palavra de Deus e depois Seu Corpo.
Sobre o autor
O P. Paul Scalia é sacerdote da diocese de Arlington, Virgínia, onde serve como vigário episcopal para o clero e pároco de Saint James em Falls Church. É autor de That Nothing May Be Lost: Reflections on Catholic Doctrine and Devotion e editor de Sermons in Times of Crisis: Twelve Homilies to Stir Your Soul.