Pelo P. Jerry J. Pokorsky
Muitas coisas lembram —àqueles que têm olhos para ver— os perigos persistentes da confusão ideológica. Em uma tentativa de esclarecer algumas dessas confusões, o veterano jornalista católico Phil Lawler revela a desorientação espiritual da vida católica pós-conciliar em seu romance mais recente, Ghost Runners, publicado este mês.
Formado em Harvard e com estudos de filosofia política na Universidade de Chicago, Lawler levou seu rigor analítico primeiro a Washington, onde foi diretor de estudos na Heritage Foundation, e mais tarde ao jornalismo católico, como editor de The Boston Pilot, de Catholic World Report e fundador de Catholic World News, o primeiro serviço de notícias católicas online em inglês.
Também se apresentou em 2000 como candidato ao Senado dos Estados Unidos por Massachusetts, e —ai— foi amplamente derrotado pelo senador Ted Kennedy. Mas foi uma lição valiosa: muitos católicos pró-vida não conseguem traduzir suas convicções para a vida cotidiana, inclusive em como votam. Desde então, Catholic World News passou (para usar esse termo hoje suspeito) a se integrar ao site CatholicCulture.org.
Os livros (e filmes) sobre sacerdotes podem ser enjoativos, piedosos, brutalmente escandalosos, caricatos ou francamente desonestos. Até o grande Fulton Sheen escreveu um, Those Mysterious Priests. Fiel ao seu estilo, o bispo Sheen oferecia doutrina sólida e ortodoxa, embora talvez omitisse algumas verrugas da irmandade clerical. Mas se Phil não é Fulton Sheen, tampouco é Andrew Greeley (lembram-se dele?), aquele muckraker eclesiástico por excelência.
Em Ghost Runners, encontramos ecos de Wise Blood de Flannery O’Connor, The Godfather III, e até um toque de Psycho de Hitchcock, temperado com uma pitada de Ghostbusters. O protagonista não pode escapar das graças de seu sacerdócio, mesmo cercado de funcionários eclesiásticos mundanos e ambiciosos. Enquanto enfrenta o mal —tanto clerical quanto secular—, descobre realidades místicas dentro e fora do confessionário.
E, para completar o quadro, adicionemos um documentário da PBS sobre El Salvador. Lawler utiliza sua ampla experiência para mostrar como os sacerdotes navegam pelas águas turbulentas da Igreja e mantêm viva sua fé.
Embora se trate de uma obra de ficção, os tipos de personagens são familiares para a maioria dos sacerdotes, e com toda probabilidade, especialmente para os sacerdotes da Arquidiocese de Boston.
Lawler situa sua história nos anos de Reagan, um período que se torna mais nítido à medida que a narrativa avança. O jovem sacerdote protagonista relata sua história a um psicólogo designado pela chancelaria diocesana, revelando tanto sua própria personalidade quanto os perfis de seus irmãos sacerdotes.
A narrativa descreve com realismo e fineza as complexas intrincacões do sacerdócio de dentro. Qualquer sacerdote vivo hoje que tenha sobrevivido aos anos 80 reconhecerá essas histórias. Muitos escritores religiosos —conservadores e liberais igualmente— nunca conseguiram captar essa realidade. Lawler sim o faz.
O protagonista permanece fiel apesar de ter muitas razões para se render à infidelidade ou abandonar o sacerdócio. Identifica vários vícios rotineiros entre o clero, que normalmente não são considerados escandalosos, mas que —como todo pecado— podem levar ao mal maior. Catequistas como eu podem escrever pedantemente sobre a distinção entre princípio moral e juízo prudencial; Lawler ilustra essa distinção com um relato sobre a visita do sacerdote ao El Salvador dos anos 80, durante a guerra civil. Talvez sem se propor, retrata o sistema de castas eclesial e doentio que começa no seminário.
Lawler apresenta essa mesma ansiedade eclesial em seu tratamento dos supostos fenômenos místicos. A cena evoca uma velha piada do pontificado de São João Paulo II: quais são as duas coisas que um bispo mais teme em sua diocese? Primeiro, uma suposta aparição da Virgem Maria. Segundo, uma visita papal.

Mas neste caso, os personagens de Lawler se enfrentam a uma terceira possibilidade igualmente problemática: a acusação de que umas velhinhas estão experimentando eventos místicos e milagrosos.
Há muitos anos, em minha diocese, circularam histórias sobre estátuas da Virgem Maria que choravam lágrimas de sangue. Apesar dos esforços das autoridades diocesanas para encontrar explicações naturais, os fatos continuam enigmáticos após décadas. Muitos sacerdotes, por sua vez, admitam discretamente a possibilidade de tais fenômenos extraordinários.
Phil Lawler é um dos melhores jornalistas católicos da atualidade. Sua escrita é cuidadosa, bem documentada, guiada pela ortodoxia católica e pelo desejo da verdade, mesmo quando essa verdade é incômoda.
Lembra aos leitores que a precisão, a evidência, a ortodoxia e a lógica são essenciais para atravessar com fidelidade e integridade os campos minados da Igreja moderna. Ghost Runners leva o leitor ao coração da burocracia eclesial e nos ajuda a compreender as complexas relações entre os santos e pecadores do clero.
No final, Ghost Runners triunfa porque é menos um relatório que uma meditação sobre a fidelidade em meio ao fracasso, uma vocação que muitos de nós talvez estejamos chamados a viver hoje. Lawler mostra que o drama do sacerdócio não reside apenas no escândalo ou na santidade, mas no frágil espaço intermediário entre ambos.
Talvez a Arquidiocese de Boston devesse comissionar um retrato de um Phil Lawler envelhecido, ao estilo do São Jerônimo em meditação de Caravaggio, para honrar seu incansável trabalho de discernir entre a confusão pós-conciliar e resgatar a autêntica piedade católica.
Ghost Runners poderia repousar em sua escrivaninha, junto ao crânio.
Sobre o autor
O P. Jerry J. Pokorsky é sacerdote da Diocese de Arlington (Virgínia) e pároco de St. Catherine of Siena, em Great Falls.
