León XIV: “O bispo deve ser pai, pastor e testemunha de esperança em uma terra ferida”

León XIV: “O bispo deve ser pai, pastor e testemunha de esperança em uma terra ferida”
Em uma homilia carregada de sentido teológico e pastoral, o Papa Leão XIV delineou o perfil espiritual do bispo como servo da Igreja e testemunha de esperança, durante a ordenação episcopal de Dom Mirosław Stanisław Wachowski, novo núncio apostólico no Iraque. A cerimônia ocorreu na Basílica de São Pedro no âmbito do XXX domingo do Tempo Comum.

O bispo, sinal de reconciliação e humildade

Tomando como ponto de partida o lema episcopal do novo núncio —Gloria Deo, Pax Hominibus (“Glória a Deus e paz aos homens”)—, Leão XIV explicou que o ministério episcopal consiste em tornar visível a glória de Deus através da paz e da reconciliação. “É o programa de toda a vida cristã”, afirmou o Pontífice, “buscar sempre que a glória de Deus resplandeça na paz entre os homens”.

O Papa recordou que a vocação do bispo é continuar a missão reconciliadora de Cristo, levando a misericórdia de Deus às almas e promovendo a unidade da Igreja. “Tornar visível, com a própria vida, o louvor de Deus e o seu desejo de reconciliar o mundo consigo”, sublinhou, citando a Segunda Carta aos Coríntios (5,19).

Humildade e serviço, fundamentos do episcopado

Comentando o Evangelho do dia (Lc 18,9-14), o Santo Padre contrastou a atitude do fariseu com a do publicano para recordar que “não são os méritos que justificam o homem perante Deus, mas o coração contrito”. Nesse chave, exortou os bispos a evitar a autossuficiência espiritual e a viver com humildade interior: “Não a humildade das palavras, mas a que habita no coração daquele que sabe que é servo, não dono; pastor, não proprietário do rebanho”.

Leão XIV descreveu o bispo como um homem de oração e penitência, que intercede pelo seu povo a partir da verdade da sua pequenez. A sua autoridade —disse— não procede do poder, mas da graça que se manifesta na mansidão e na fidelidade.

O bispo, custodiante e semeador de esperança

O Papa utilizou uma imagem profundamente simbólica: o bispo como camponês de Deus, chamado a semear com paciência e a esperar com esperança. “Do contato com a terra aprendemos que a fecundidade nasce da espera e da fidelidade”, assinalou, explicando que a missão episcopal não se mede por resultados visíveis, mas pela constância no serviço. “O bispo é custodiante, não proprietário; homem de oração, não de posse”.

A fecundidade espiritual —afirmou— se mede em termos de santidade e entrega. “O Senhor confia ao bispo uma missão para que a cuide com a mesma dedicação com que o lavrador cuida do seu campo: cada dia, com fé e perseverança”.

Fidelidade em meio à prova

Inspirando-se nas palavras de São Paulo —“Combati o bom combate, guardei a fé” (2 Tm 4,7)—, o Papa recordou que a vida do pastor é um combate espiritual contínuo. “O verdadeiro inimigo não são os outros, mas as tentações do desânimo, do cálculo e do orgulho”, advertiu. Por isso, insistiu em que a fidelidade é a virtude que sustenta o ministério, uma fidelidade que não busca sucesso nem reconhecimento, mas a perseverança no dever e na verdade do Evangelho.

A diplomacia como testemunho de fé

Dirigindo-se ao novo núncio apostólico, o Papa agradeceu o seu serviço na Secretaria de Estado e nas representações pontifícias, recordando que a diplomacia da Santa Sé “não se apoia em interesses humanos, mas na verdade do Evangelho”. O núncio, disse, está chamado a ser “pai, pastor e testemunha de esperança” em uma terra marcada pela dor e pelo desejo de renascer. “A fidelidade do bispo —acrescentou— não é de quem busca poder, mas de quem serve com respeito, com discrição e com profissionalismo iluminado pela fé”.

Citanto São Paulo VI e a sua carta apostólica Sollicitudo omnium Ecclesiarum, Leão XIV recordou que o núncio representa a solicitude do Sucessor de Pedro por todas as Igrejas, e que a sua missão principal é promover a unidade, o diálogo e a paz.

A Igreja no Iraque: fé que resiste à perseguição

O Papa evocou as raízes apostólicas do cristianismo na Mesopotâmia, onde —segundo a tradição— São Tomás levou o Evangelho após a destruição do Templo de Jerusalém. “Naquela região ainda se reza na língua que Jesus falava: o aramaico”, recordou, destacando a fidelidade heroica dos cristãos do Oriente, cuja fé resistiu à violência e ao martírio.

Em referência à visita do Papa Francisco ao Iraque em 2021, Leão XIV situou a sua exortação em continuidade com o magistério recente, chamando a prosseguir “o caminho da fraternidade e do diálogo”, mas sempre ancorado na verdade de Cristo. “A diplomacia da Santa Sé nasce do Evangelho e se alimenta da oração”, afirmou.

Um chamado aos pastores

Em um tom final profundamente espiritual, Leão XIV pediu ao novo bispo que seja “homem de comunhão e de silêncio, de escuta e de diálogo”, e que no seu olhar “o povo reconheça a paz de Cristo”. Encomendou a sua missão a Maria, Rainha da Paz, e aos santos da antiga Igreja oriental, desejando-lhe que “a glória de Deus ilumine o seu caminho e a paz de Cristo habite onde ele puser o seu passo”.

Com esta homilia, o Papa ofereceu uma autêntica catequese sobre o ministério episcopal, recordando a toda a Igreja que a autoridade do bispo não se mede pelo seu poder nem pela sua influência, mas pela sua capacidade de servir, orar e amar. “O bispo —disse— é antes de tudo um sinal de reconciliação e um testemunha de esperança”.

 

Deixamos a seguir a homilia completa:

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje a Igreja de Roma se alegra junto com a Igreja universal, exultando pelo dom de um novo bispo: Dom Mirosław Stanisław Wachowski, filho da terra polonesa, arcebispo titular eleito de Villamagna de Proconsolare e núncio apostólico perante o querido povo do Iraque.

O lema que ele escolheu —Gloria Deo Pax Hominibus— ressoa como o eco do canto natalino dos anjos em Belém: «Glória a Deus nas alturas, e na terra paz aos homens que ele ama» (Lc 2,14). É o programa de toda uma vida: buscar sempre que a glória de Deus resplandeça na paz entre os homens. Este é o sentido profundo de toda vocação cristã e, de modo particular, da vocação episcopal: tornar visível, com a própria vida, o louvor de Deus e o seu desejo de reconciliar o mundo consigo mesmo (cf. 2 Cor 5,19).

A Palavra de Deus que acabamos de proclamar nos oferece alguns traços essenciais do ministério episcopal. O Evangelho (Lc 18,9-14) nos mostra dois homens que oram no templo: um fariseu e um publicano. O primeiro se apresenta com segurança, enumerando as suas obras; o segundo fica ao fundo, sem ousar levantar o olhar, e confia tudo a uma única invocação: «Ó Deus, tem piedade de mim, que sou um pecador!» (v. 13). Jesus diz que na realidade é ele, o publicano, quem recebe a graça e a salvação de Deus, porque «todo o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado» (v. 14).

A oração do pobre atravessa as nuvens —nos lembra o Sirácida—: Deus escuta a súplica de quem se confia totalmente a Ele (cf. Sir 35,15-22).

Esta é a primeira lição para todo bispo: a humildade. Não uma humildade de palavras, mas a que habita no coração de quem sabe que é servo, não dono; pastor, não proprietário do rebanho.

Me comove pensar na tua terra humilde, que na Mesopotâmia se eleva há séculos como incenso para Deus. É a mesma terra onde nasceu Abraão, o pai da obediência, que no silêncio e com fé disse: «Ó Deus, tem piedade de mim, que sou um pecador». A sua oração sobe ao céu, e hoje a Igreja confia àquele mesmo silêncio e àquele mesmo coração que, com confiança, atravessam as nuvens e tocam o coração de Deus.

Querido Dom Mirosław, vens de uma terra de lagos e florestas. Naqueles paisagens, onde o silêncio é mestre, aprendeste a contemplar; entre a neve e o sol, adquiriste a sobriedade e a fortaleza; em uma família camponesa, a fidelidade à terra e ao trabalho. As manhãs que começam cedo te ensinaram a disciplina do coração, e o amor pela natureza te revelou a beleza do Criador.

Essas raízes não são apenas uma lembrança para conservar, mas uma escola permanente. Em contato com a terra aprendeste que a fecundidade nasce da espera e da fidelidade: duas palavras que definem também o ministério episcopal. O bispo está chamado a semear com paciência, a cultivar com respeito, a esperar com esperança. É custodiante, não proprietário; homem de oração, não de posse. O Senhor te confia uma missão para que a cuides com a mesma dedicação com que o camponês cuida do seu campo: cada dia, com constância e com fé.

Ao mesmo tempo, escutamos o apóstolo Paulo, que ao olhar para a própria vida diz: «Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé» (2 Tm 4,7). A sua força não nasce do orgulho, mas da gratidão, porque o Senhor o sustentou nos trabalhos e nas provas.

Assim também tu, querido irmão, que percorreste um caminho de serviço à Igreja nas Representações Pontifícias no Senegal e na tua Polônia, nas Organizações Internacionais de Viena e na Secretaria de Estado, como minutante e depois subsecretário para as Relações com os Estados, viveste a diplomacia como obediência à verdade do Evangelho, com discrição e competência, com respeito e dedicação, e por isso te estou agradecido.

Agora o Senhor te pede que esse dom se converta em paternidade pastoral: ser pai, pastor e testemunha de esperança em uma terra marcada pela dor e pelo desejo de renascer. Estás chamado a combater o bom combate da fé, não contra os outros, mas contra a tentação de te cansares, de te encerrar, de medir os resultados, confiando sempre na fidelidade que é o teu traço distintivo: a fidelidade de quem não busca a si mesmo, mas serve com profissionalismo, com respeito e com uma simplicidade que ilumina sem ostentar.

São Paulo VI, na Carta Apostólica Sollicitudo omnium Ecclesiarum, recorda que o representante pontifício é sinal da solicitude do Sucessor de Pedro por todas as Igrejas. Está chamado a consolidar a unidade, a promover o diálogo com as autoridades civis e religiosas e a favorecer a paz.

No Iraque, terra da tua missão, este serviço assume um significado especial. Ali a Igreja católica, em plena comunhão com o Bispo de Roma, vive em diversas tradições: a Igreja caldeia, com o seu Patriarca de Babilônia dos Caldeus e a língua aramaica da liturgia; as Igrejas siro-católica, armênia-católica, greco-católica e latina. É um mosaico de ritos, culturas e histórias de fé que pede ser acolhido e custodiado na caridade.

A presença cristã na Mesopotâmia é antiquíssima: segundo a tradição, foi o apóstolo Santo Tomás quem, depois da destruição do Templo de Jerusalém, levou o Evangelho àquela terra; e foram os seus discípulos Addai e Mari quem fundaram as primeiras comunidades. Naquela região se reza na língua que Jesus falava: o aramaico. Esta raiz apostólica é um sinal de continuidade que nem a violência, manifestada com ferocidade nas últimas décadas, pôde apagar. Mais ainda, a voz daqueles que naquelas terras foram privados da vida de modo brutal não se extinguiu. Hoje eles oram por ti, pelo Iraque, pela paz no mundo.

Pela primeira vez na história, um Pontífice se deslocou ao Iraque. Em março de 2021, de fato, o Papa Francisco chegou ali como peregrino de fraternidade. Naquela terra, onde Abraão, nosso pai na fé, escutou a chamada de Deus, o meu predecessor recordou que «Deus, que criou os seres humanos iguais em dignidade e em direitos, nos chama a difundir amor, benevolência e concórdia». Também no Iraque a Igreja católica deseja ser amiga de todos e, mediante o diálogo, colaborar de modo construtivo com as outras religiões pela causa da paz. (Francisco, Discurso às Autoridades, à sociedade civil e ao Corpo Diplomático, 5 março 2021).

Hoje tu estás chamado a continuar esse caminho: a custodiar os brotos de esperança, a fomentar a convivência pacífica, a mostrar que a diplomacia da Santa Sé nasce do Evangelho e se alimenta da oração.

Querido Dom Mirosław, sê sempre um homem de comunhão e de silêncio, de escuta e de diálogo. Leva na tua palavra a mansidão que edifica e no teu olhar a paz que consola. No Iraque, o povo te reconhecerá não pelo que disseres, mas por como amares.

Encomendamos a tua missão a Maria, Rainha da Paz, aos santos Tomás, Addai e Mari, e aos muitos testemunhas da fé no Iraque. Que eles te acompanhem e sejam luz no teu caminho.

E assim, enquanto a Igreja, em oração, te acolhe no Colégio dos Bispos, oramos juntos para que a glória de Deus ilumine o teu caminho e a paz de Cristo habite ali onde puseres os teus passos.

Gloria Deo, Pax Hominibus. Amém.

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