Quando o Papa torpedeia a batalha pela vida, e pelo caminho carrega a teologia moral básica

Quando o Papa torpedeia a batalha pela vida, e pelo caminho carrega a teologia moral básica

 

Nos últimos dias, após as palavras de Leão XIV sobre Cupich e o prêmio ao senador Durbin, pudemos constatar um fenômeno devastador: os grandes meios de comunicação não demoraram a se apresentar como porta-vozes do Papa para acusar de hipócritas os provida e branquear os políticos abortistas. MSNBC, como exemplo, já fala de “ter do seu lado a autoridade moral da Igreja” para justificar o aborto.

Não é uma anedota. Cada palavra de um Papa tem um eco imenso. E o que para alguns pode parecer um matiz teológico ou um aceno pastoral, na batalha cultural, política e social, se converte em um torpedo na linha de flutuação daqueles que há décadas defendem a vida na rua, diante das clínicas, nos parlamentos e nos tribunais.

O aborto não é um tema mais

O ensinamento moral da Igreja, plasmado com clareza em Veritatis splendor e em Evangelium vitae, por exemplo, distingue entre males que são intrinsecamente desordenados —e portanto nunca justificáveis— e outros problemas sociais e morais que admitem graus, contextos e prudência política.

O aborto está na primeira categoria. É a eliminação direta e intencional de um inocente, um ato que não admite circunstâncias atenuantes nem proporcionalismo possível. Colocá-lo no mesmo nível que a política migratória, a ecologia ou a pobreza não é “integralidade”, é uma distorção moral. É desarmar conceitualmente a defesa da vida e rebaixá-la ao terreno da opinião.

O veneno da “túnica inconsútil”

A chamada teoria do seamless garment de Joseph Bernardin, recuperada agora como se fosse a panaceia da coerência cristã, opera na prática como um dissolvente: reduz o aborto a um elemento mais de uma lista, ponho-o ao lado da pena de morte, a contaminação ou a falta de acesso ao polideportivo municipal.

A consequência é previsível: em lugar de exigir a um político que defenda o direito fundamental à vida, permite-se que compense seu apoio ao aborto com um bom discurso verde ou com fundos para programas sociais. É exatamente o que ocorreu com Durbin.

Uma bomba em Veritatis splendor

João Paulo II explicou com precisão que há atos que, por seu objeto mesmo, são maus sempre e em toda parte. O aborto é o paradigma desses atos. Tratá-lo como um assunto opinável ou relativo, rebaixando-o à categoria de “tema entre outros”, significa dinamitar um dos pilares da moral católica, o conceito de «intrinsecamente desordenado».

 

Uma tragédia para a Igreja e para o mundo

É uma tragédia que um Papa fale assim, porque desarma a consciência dos fiéis, enreda a clareza que precisamos frente à mentira cultural do aborto e deixa vendidos aqueles que na primeira linha combatem em defesa dos mais vulneráveis.

A Igreja não está chamada a equilibrar o aborto com outras causas secundárias, mas a proclamar com toda a força profética de Cristo que não se pode matar o inocente. Essa é a linha vermelha absoluta, e apagá-la em nome da “coerência integral” não une a Igreja: a divide e a enfraquece, e entrega munição ao inimigo.

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