A riqueza que cega

A riqueza que cega

Por P. Paul D. Scalia

A inquietante história do rico e Lázaro (Lc 16,19-31) talvez se entenda melhor ao contrário, à luz de onde os encontramos no final do relato. O estado de cada um na outra vida —o sofrimento do rico e a paz de Lázaro— revela a realidade de quem eles são. Sem os adornos, vestes e disfarces deste mundo, vemos a pobreza do rico e a riqueza de Lázaro. Vemos com maior clareza o perigo das riquezas.

É uma parábola sobre o perigo da riqueza. Não sobre a maldade dos bens criados ou das posses. Os bens do mundo obviamente têm seu lugar. Deus criou o mundo material para manifestar e comunicar sua glória. Devemos usar os bens da criação para glorificá-lo e para benefício dos outros. Nosso Senhor não é marxista, e a propriedade não é roubo. Portanto, o problema não é a riqueza do rico em si mesma.

Mas seria uma tolice pensar que não há perigo na riqueza. Em um mundo caído, os bens criados adquirem uma importância desmedida. Chegamos a confiar neles em vez de em seu Criador. De fato, eles exigem uma espécie de lealdade, como descobriu o rico insensato (cf. Lc 12,16-20). Por isso, nosso Senhor nunca elogia a riqueza, mas apenas nos adverte contra seus perigos.

O primeiro perigo é a intemperança. Nossa natureza caída nos inclina a usar nossos bens não para a glória de Deus e o bem do próximo, mas para nossa própria comodidade e luxo. Assim, o rico se consentia a si mesmo. “Vestia-se de púrpura e linho finíssimo, e banqueteava esplendidamente cada dia.” Na primeira leitura, Amós repreende os indulgentes: “Deitados sobre camas de marfim, reclinados comodamente em seus divãs” que “bebem vinho em taças e se ungem com os melhores óleos” (Am 6,1.4-7).

Suas posses se tornaram um fim em si mesmas, não os meios para glorificar a Deus e fazer o bem aos outros. A intemperança nos leva a usar os dons de Deus não para seu propósito, mas para nosso próprio deleite. O glutão come apenas por prazer e não pelo bem de seu corpo. O luxurioso busca o sexo apenas para gratificação e não para a procriação ou a união.

A intemperança conduz inevitavelmente à complacência. De novo, o profeta Amós: “Ai dos complacentes em Sião!” Essa complacência é uma espécie de entorpecimento e cegueira, uma morte da alma diante de coisas mais nobres e elevadas. É difícil elevar o coração e a mente quando o ventre está carregado de manjares e vinho.

Por isso, a repreensão de Amós não é apenas contra o luxo, mas contra seu efeito, porque os tornou insensíveis ao que importa. “Não se afligem pela ruína de José.” Ou seja, não lhes importa o sofrimento de seu próprio povo. Da mesma forma, no Evangelho, o rico nem mesmo nota Lázaro. Não se menciona interação alguma entre eles. Sua riqueza o cegou para a existência e o sofrimento de um homem em sua própria porta.

Essa complacência se revela sobretudo quando o rico suplica voltar a seus irmãos para avisá-los, para que não sofram a mesma sorte (já que aparentemente tinham riquezas semelhantes). Abraão responde: “Se não escutam a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão persuadir se alguém ressuscitar dentre os mortos.” Algo os impedia de escutar —ouvir— a Moisés e aos profetas. De fato, suas riquezas e luxos os entorpeceram e cegaram para o testemunho da Escritura, e fariam com que suas mentes fossem resistentes mesmo a alguém que ressuscitasse dentre os mortos.

A riqueza nos entorpece não apenas em relação aos outros, mas também em relação à verdade. O apego às coisas criadas mantém a mente acorrentada. A clareza de pensamento exige desapego dos bens mundanos. De novo, a parábola do rico insensato nos mostra como a mente do rico se concentra em manter e incrementar os bens materiais, em vez de nas coisas permanentes e nas verdades eternas.

Diz-se que santo Tomás de Aquino visitou uma vez a são Boaventura em seu estudo e lhe perguntou que livro lhe dava tão grandes intuições teológicas. Boaventura não apontou um livro, mas o crucifixo, como fonte de seu conhecimento. Isso é mais que uma história piedosa. Nos lembra que o desapego do mundo é necessário para ver todas as coisas com clareza, incluído o próprio mundo. Há uma razão pela qual todas as grandes reformas na Igreja começam com a pobreza. A riqueza nos cega. O desapego limpa a mente para ver o que deve mudar e liberta a vontade para fazê-lo.

A complacência conduz finalmente a graves pecados de omissão. O rico não fez mal a Lázaro. Não há indícios de que o roubasse ou o enganasse de alguma maneira. Não zombou dele nem o chutou enquanto estava no chão. E esse é precisamente o ponto: não fez nada. Lázaro sofria em sua porta —não em um país distante nem mesmo no final da rua— e o rico não fez nada. O efeito desse grave pecado de omissão se resume facilmente: se não cuidares dos pobres, irás ao inferno.

Para evitar esse destino, devemos voltar o olhar para o rico no Geena. O que o levou lá foi a intemperança, a complacência e, finalmente, a negligência. Que o Senhor nos livre dos tentáculos da riqueza, para que possamos ver com clareza e servi-lo nos pobres.

Sobre o autor

O P. Paul Scalia é sacerdote da Diocese de Arlington, VA, onde serve como Vigário Episcopal para o Clero e pároco de Saint James em Falls Church. É autor de That Nothing May Be Lost: Reflections on Catholic Doctrine and Devotion e editor de Sermons in Times of Crisis: Twelve Homilies to Stir Your Soul.

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