Por Joseph R. Wood
São Paulo estava preocupado com os gálatas. Em sua carta, ele se lamenta:
“Quando ainda não conhecieis a Deus, estáveis submetidos àqueles que por natureza não são deuses; mas agora que chegastes a conhecer a Deus, ou antes, que Deus vos conheceu a vós, como podeis voltar de novo àqueles fracos e pobres elementos, aos quais quereis voltar a servir como escravos? Observais dias, meses, estações e anos. Temo ter trabalhado em vão por vós!” (Gl 4,8–11)
A distinção que Paulo sublinha é entre não conhecer a Deus, conhecê-lo e depois ser conhecido por Ele. Isso último exige uma atenção especial. Mas antes, alguns pontos preliminares.
A expressão “aqueles que por natureza não são deuses” chama a atenção de qualquer um que tenha lido Aristóteles com atenção. O Filósofo, como o chama santo Tomás, utiliza a frase “por natureza” de forma reiterada para descrever o homem, que é animal racional por natureza, e animal social ou político por natureza. Usamos a razão para conhecer e buscar o bem comum.
Pela própria ordem do ser humano, por sua natureza, temos certas características que não escolhemos por nós mesmos.
Aristóteles também ensina que certas comunidades humanas existem por natureza: as famílias e os lares, as aldeias que agrupam lares, e as cidades ou comunidades políticas. Cada uma tem seu bem próprio que está chamada a realizar segundo sua própria natureza.
Deixo aos biblistas determinar se são Paulo utiliza a expressão “por natureza” no mesmo sentido que Aristóteles. Mas o significado deve ser próximo, já que Paulo a emprega para distinguir entre seres com distintas ordens de existência, ou o que poderíamos chamar de diferentes essências.
E deixo aos teólogos a tarefa de explicar quem são esses “fracos e pobres elementos do mundo” que não são deuses. Não são divinos; são elementais ou baixos; espíritos (sem corpo?) comparados a mendigos necessitados, mas com o poder de escravizar o homem. E ao que parece, com poder de voltar a escravizá-lo, talvez ao agarrar-se ao ciclo de celebrações do Antigo Pacto, mesmo depois de ter conhecido a Deus pela fé.
(Isso último a inteligência artificial me disse. Pode ser que Paulo estivesse preocupado com uma recidiva nas práticas judaicas entre os gálatas. Mas não acho que essa explicação esgote o sentido de “espíritos elementais”. Para mim, soam mais a ídolos como o Bezerro de Ouro que os judeus fabricaram quando Moisés se ausentou, ou aos restos das divindades gregas, romanas ou celtas ainda presentes na região da Anatólia.)
Se Paulo tivesse querido falar apenas de uma escravidão ao Antigo Pacto, sem dúvida teria aludido diretamente a as obras da lei sem fé. Espero que os teólogos possam fazer melhor que a IA.
No Jardim do Éden, no Gênesis, Adão e Eva são conhecidos por Deus, e o conhecem. Falam com Ele e recebem instruções diretas.
Mas após desobedecerem a única norma que Deus lhes deu, escondem-se imediatamente e tentam não ser conhecidos por Ele. Nosso Pecado Original, então, nos leva a não querer ser conhecidos por Deus.
Este padrão se repete ao longo do Antigo Testamento: o povo escolhe conhecer e ser conhecido por Deus, depois o rejeita, e finalmente volta a Ele e à sua lei.
Uma história comparável aparece no diálogo Político de Platão. O personagem que guia a conversa sobre o verdadeiro governante apresenta um mito em que o universo atravessou duas épocas.
Na primeira, um deus ou demiurgo governa os acontecimentos do universo, enquanto este gira em certa direção. Deuses menores são designados para guiar os homens e prover para eles. Nesta era, os homens têm alimento em abundância sem esforço. Como os deuses provêm tudo, não precisam de constituições nem política.
É uma cena que lembra o Éden, embora, como bem observou um dos meus agudos seminaristas, no mito de Platão, o homem não tem responsabilidade sobre a Criação, ao contrário do paraíso anterior à queda.
Em certo ponto, chega a segunda era: os deuses se retiram do seu governo, o universo inverte violentamente seu curso, e os homens devem tomar conta de seus próprios assuntos. No início, lembram como governavam os deuses, mas logo isso se desvanece, e sua condição se deteriora.
Podes adivinhar em que fase do universo Platão nos situa. Ainda assim, mesmo quando começou esta era desordenada, os deuses deixaram “sementes necessárias”: o conhecimento da agricultura e das artes necessárias para sobreviver.
O deus providente de Platão nos conhece e sabe o que precisamos, embora às vezes se retire. Se os homens da era anterior sabiam que eram conhecidos pelos deuses, não está claro. Na era desordenada, alheia a Cristo, há sacerdotes que tentam interceder, mas sua seriedade é duvidosa.
O deus supremo de Aristóteles, o primeiro motor imóvel, está em perfeito repouso, repouso que todas as outras coisas desejam ou buscam em seu movimento e mudança. A atração para esse repouso perfeito é o que Aristóteles chama amor.
Mas esse motor imóvel não ama o homem de forma pessoal. Sua perfeição é tal que a única atividade adequada para ele é contemplar-se a si mesmo.
Assim, são Paulo identifica em Gálatas uma verdade fundamental que todos os homens buscam compreender: o problema de conhecer a Deus e ser conhecidos por Ele.
A solução —e aqui, de novo, remeto-me à teologia— pode estar no primeiro capítulo de são João: Cristo nos deu o poder de ser filhos de Deus. Os filhos são conhecidos primeiro por seu pai, e depois o conhecem a Ele.
Paulo afirma que o novo Evangelho que havia entregado aos gálatas os restaurava como seres capazes —ou dispostos— a serem conhecidos por Deus.
Para ser verdadeiramente humanos, devemos ser conhecidos por Deus e conhecê-lo a Ele.
Acerca do autor:
Joseph Wood é professor assistente na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica da América. É um filósofo peregrino e um eremita facilmente acessível.