Viver na verdade ou rosnar como demônios

Viver na verdade ou rosnar como demônios

Por Monsenhor Charles Fink

Grande parte do mundo moderno se comporta como se “tudo fosse política”. E se a política é a arte do possível, segue-se que quase tudo está permitido. Por quê? Porque os seres humanos temos uma capacidade quase infinita de inventar boas razões para fazer coisas más. Se não partimos do reconhecimento de alguns absolutos morais —isto é, limites que jamais devemos cruzar—, sempre seremos capazes, e com frequência estaremos inclinados, a justificar ações terríveis em nome de resultados possíveis e, supostamente, bons.

Na realidade, a política é apenas uma pequena, embora importante, parte da interação humana. A moralidade se aproxima muito mais de ser tudo: uma moralidade delimitada por proibições absolutas, dentro das quais existe uma ampla liberdade para o desacordo no âmbito dos juízos prudenciais, que implicam todo tipo de equilíbrios. Nesse âmbito, domina o pragmatismo; o consequencialismo tem certo peso, mas está limitado pelo que nunca devemos fazer ou, ao menos, nunca devemos querer diretamente.

Negar isso, eliminar esses absolutos, e não há limite ao mal que as pessoas comuns podem convencer-se de fazer com a consciência perfeitamente tranquila. Mas tudo isso levanta uma pergunta: como chegamos ao conhecimento desses absolutos morais que devem nos guiar e nos evitar a ignomínia de cair no erro moral, inclusive até o ponto da atrocidade?

Alguns, como eu, apelarão à lei natural, inscrita em nossa natureza humana e discernível pela reta razão. O problema é que os textos que explicam o uso da reta razão para esse discernimento costumam ser extensos e difíceis.

Eles me lembram as regras de São Inácio de Loyola para o discernimento de espíritos, bastante breves e claras tal como aparecem em seus Exercícios Espirituais, mas não tão fáceis de aplicar em circunstâncias concretas. E quando são explicadas pelos descendentes jesuítas de Inácio e outros, tornam-se tão exaustivamente complexas que se perde a vontade ou a força para tomar uma decisão sobre o que Deus quer de si. O que me leva a concluir que, para discernir a vontade do Espírito, convém orar, pensar bem as coisas, buscar o conselho de pessoas de confiança, tomar a melhor decisão possível e deixar o assunto nas mãos de Deus.

Pode não ser a interpretação mais profunda de São Inácio, mas tem o mérito de ser viável e evita o redemoinho do excesso de pensamento, o escrupuloso ou a presunção de saber com certeza que o que se faz é a vontade de Deus.

Mas voltemos à lei natural e à necessidade de um conjunto de normas morais —especialmente limites— que nos orientem no caminho. De novo: como discerni-las? Há alguma esperança de que algum dia todos estejamos de acordo sobre quais são?

No fascinante romance de mistério A Woman Under Ground, de Andrew Klavan, o protagonista, Cameron Winter —exagente de uma agência governamental secreta e autodeclarado agnóstico— se confronta com um amigo que lhe confessa ter tido um caso com uma jovem universitária que tem menos da metade de sua idade.

Roger, o amigo em questão, é um homem casado, com família. Enumera uma lista de desculpas para justificar sua infidelidade e sua decisão de abandonar sua esposa e filho “para se sentir verdadeiramente vivo”. Finalmente, Winter não aguenta mais. Diz a Roger que o que ele fez está errado. Quando este lhe pergunta: “E o que se supõe que isso significa?”, responde:

Significa que está errado. Imoral. Contra as leis de Deus e do homem… Foste infiel à tua esposa, Roger. Isso é imoral. Isso é o que significa “esposa”: alguém a quem é imoral trair. Porque prometeste não fazê-lo. Isso é o que significa a palavra “promessa”: algo que é imoral romper. Se vamos mudar o significado de cada palavra que não nos convém, mais vale que comecemos a rosnar e a nos comportar como demônios.

E continua:

E o pior, o mais imoral que estás fazendo? Romper o casamento dos pais do teu filho. Isso é um desastre para ele. Teu casamento é o planeta em que ele vive, e vais fazê-lo explodir… Para de te mentir… Essa não é forma de viver, se és um homem. Essa é outra palavra: homem. Também tem um significado, Roger. Então deixa a porcaria e tenta agir como um.

Tudo isso, dito por um homem que é no máximo um agnóstico e que cometeu atos terríveis em sua vida. E, no entanto, de algum modo, porque seus olhos, sua mente e seu coração estão abertos à realidade, chegou a ver que as palavras têm significado, que apontam para a realidade, a qual por sua vez fala de um bem e um mal absolutos. Está convencido disso, talvez acima de tudo, porque compreende que a alternativa é “rosnar e se comportar como demônios”.

É improvável que os povos do mundo, inclusive os de nossa nação, compartilhem uma fé comum em um futuro próximo. E a razão, dada nossa natureza humana caída e egocêntrica, é infinitamente criativa para racionalizar o mal. Mas talvez, os próprios males e a loucura do mundo moderno forcem muitos a reconhecer não só a necessidade de absolutos morais, mas também seu fundamento na criação e, em última instância, no Criador, fonte de todo significado e moralidade.

A menos que o tenha malinterpretado, algo assim parece ter levado o próprio Andrew Klavan de um judaísmo secular e agnóstico a uma fé cristã sólida e provocadora. Desejo que fosse católico, mas a verdade é que é mais católico que muitos católicos que conheço. Que muitos mais sigam o caminho que ele empreendeu.

Acerca do autor:

Monsenhor Charles Fink é sacerdote há 47 anos na diocese de Rockville Centre. Foi pároco e diretor espiritual no seminário, e atualmente vive aposentado das tarefas administrativas na paróquia Notre Dame em New Hyde Park, Nova York.

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